segunda-feira, fevereiro 28, 2005

PROTOTYPE I - NecroZine marcando presença


Da esquerda para a direita: Gian, Richard, Giorgio, Camila e Alexandre

É isso aí. A galera do NecroZine marcou presença no último sábado no PROTOTYPE, na Hole Club/SP. Quem esteve por lá teve a oportunidade de conversar com os escritores e ainda sair com uma cópia do NecroZine impresso.

O evento estava legal, com direito à presença das escritoras Giulia Moon (que teve um texto seu encenado no palco) e Martha Argel, que estava relançando seu livro Olhos de Gato, pela editora Writers.

Além disso também teve bandas, dicotecagem e muito papo furado.

Agradeçemos desde já o convite dos organizadores do evento, bem como do público que compareceu e prestigiou.

Assim que forem disponibilizadas novas fotos colocaremos aqui.

Um grande abraço,
Os NecroAutores

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Linda quando chora

por Camila Fernandes

Ela é linda quando chora.

Primeiro os lábios tremem involuntariamente. Depois os olhos se apertam, querendo esconderijo debaixo das sobrancelhas. E brilham feito vidro molhado. Grande efeito! Muito sedutor.

Aí vem o nariz. Tão miúdo, coberto de sardas. Depois das primeiras lágrimas a ponta incha e fica vermelha. Como um moranguinho. Dá até vontade de morder!

E daí é o rosto inteiro avermelhado, inflamado de ira. Molhado, brilhante de lágrimas. O beicinho contrariado. Os cílios salientes. Ela nunca pareceu tão cheia de vida quanto agora.

No começo era só tara minha. Mas virou mania.

Ela nunca foi chorona. Era uma moça doce, cheia de energia, bacana. Ainda se usa bacana? É gíria do meu tempo. Ela não tinha vontade de parar pra se lamuriar. Mas era frágil, mulher, né? Num dia particularmente sensível – nota vermelha na prova, briga com o namorado, qualquer bobagem assim – ela vibrou na minha freqüência. Sem querer, claro. Ninguém é louco de me atrair de propósito. Quando vi, já estava lá, colado a ela. Ela começou a soluçar. Toquei no seu ombro. Que onda! Energia pura. Juro, pensei que ia ter um orgasmo. Tive. Ou o que quer que um cara possa experimentar no meu estado.

Achei que era maldade eu me sentir tão maravilhoso enquanto ela se sentia tão miserável. Mas foi assim. A menina chorou muito e eu entrei num gozo surreal. Depois me afastei. Pesou na consciência. Ela foi se acalmando. Mas fiquei por perto, curioso, até certo ponto desejoso de ver se aquilo podia acontecer de novo.

Nunca mais fui embora. Ficava por perto quando ela telefonava para as amigas xingando a mãe, o pai, o namorado, a própria vida. Sempre arranjava um novo problema pra cultuar. A atração era mais forte do que eu. Precisava ficar perto dela enquanto fungava, gania, lamentava. Talvez por isso ela ficasse enchendo o saco de todo mundo. Eu roubava dela. Ela, dos outros. E o fluxo de energia não parava.

A paciência das pessoas tem limite. Logo ela não tinha mais colegas pra atormentar. Só havia eu ao lado dela nas noites sem sono, curtindo a seleção de canções pra se enfiar de cabeça da fossa emocional, dividindo o travesseiro lavado de lágrimas. Só nós dois. Mas aí vinha aquele namorado. Ligava pro celular tarde da noite, lenga-lenga amorosa, fazendo perguntas, e ela disfarçava, engolia soluços, dizia que estava bem. Eu precisava dar um jeito nele. Cinema amanhã? Beleza. Vou junto.

E fui. Filme de comédia. Eu ria. Ela chorou o tempo todo. O cara deu um basta no meio da sessão. Saiu da sala, ela foi atrás aos prantos, eu pendurado no seu ombro. Bateram boca no estacionamento. Eu torcia, acaba com ele, termina com ele de vez...

Eu me apaixonei, confesso. Nem todas são tão lindas quando choram. Nem todas dão esse tesão no desespero. Desde a década de 1960 eu não tinha nada assim. Caí fora muito jovem. A vida era chatinha, não tinha coisa melhor pra fazer a não ser encher a cabeça de bobagem, então peguei o carro do meu velho e pum, entrei com tudo num poste. Fiquei decepcionado com a morte. Esperava coisa melhor. Vagar por aí cutucando bêbado, provocando brigas nas sarjetas, apavorando recém-finados em enterros. A coisa mais divertida que tinha pra fazer era colar em pai-de-santo e pedir pinga em terreiro.

Fui vadio por um bom tempo. Tudo mudou quando eu a conheci. Eu a queria só pra mim. E consegui. Depois daquele quebra-pau o sujeitinho parou de telefonar. Ficamos a sós, finalmente.

Então ela parou de ir à faculdade. Preferiu gastar com o analista. Era a tal da depressão, falavam. Depressão o cacete. Era eu. Sempre ao lado dela. Agarrado ao seu braço. Acariciando a sua nuca. Devorando-a sem pressa.

Hoje ela escreveu no diário:

"Não agüento mais. Quero morrer."

É o meu dia! Tem que ser! O dia em que ela vai ser minha!

Certo, estou me precipitando. Precisamos trabalhar um pouco mais nisso. Mas não dou uma semana pra ela se entupir de comprimidos até desmaiar ouvindo P.J. Harvey. Ou pode ser naquela banheira do quarto da mãe dela, pulsos cortados, a água levando o sangue devagarzinho. É isso! Vou lhe dar essa sugestão. Sussurrar no ouvido dela toda noite. Até chegarmos lá.

E quanto ela vier para este lado eu vou estar de braços abertos. Vou consolá-la, apertá-la contra o peito e explicar como as coisas são por aqui. Vamos fazer tudo juntos. Vai ser bom pra nós...

Enquanto não acontece, fico aqui, no meu cantinho, paciente, previdente, observando.

Ela é tão linda quanto chora!

Camila Fernandes é uma Necroautora.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Convite - PROTOYPE - Hole Club/SP

Pessoal,

Estão todos convidados pra um bom bate-papo neste sábado (dia 26/02), com direito a muita dança, lançamento de livros e distribuição de Zines. Os NecroAutores estarão por lá distribuindo o NecroZine.

Teremos também a presença das escritoras Giulia Moon e Martha Argel, bem como de Adriano Siqueira distribuindo o Zine do Adorável Noite, além de performance teatral e muita discotecagem.

Seguem dados do evento:

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Prototype

26/02/2005 - Sábado - 23:00 hs
R$ 15,00 Consumação - Mulher grátis até 24:00
Hole Club - Rua Augusta 2203, Jardins, São Paulo/SP
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Dj´s
Jen Blutsauger (Prototype) 80´s
Iza Fire (Khephra) gothic
Humberto Luminatti (Thorns) death rock
Dunkirk (Neural TransmissioN) ebm, electronic
Marcos Langsuyar (Dark Dimensions) doom, gothic metal
Husiv (Prototype) dark wave, ethereal, especial cocteau twins

Banda
Vesuvia

pós-punk

Espetáculo Teatral
Grupo Miscellania
Kai Olden Menen

Escritores:
Martha Argel - O Vampiro de cada um - Lançamento do livro Olhos de Gato
Giulia Moon - Vampiros no Espelho, Luar de Vampiros
Adriano Siqueira - Adorável Noite
NecroAutores - NecroZine
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É isso aí, espero ver todos por lá.

Um abraço,
Os NecroAutores

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Fragmentos

© Alexandre Fernandes Heredia

(...) a Sra. Maria da Graça Feliciano Barbosa apresentou-se voluntariamente a esta delegacia, acompanhada do marido, o Sr. André Antunes Barbosa, para relatar o seqüestro de seu filho, o menor Rafael Antunes Barbosa, de oito (8) anos. De acordo com o relato, a Sra. Maria estava retornando da escola, onde havia buscado seu filho, a pé, aproximadamente às 19hs, quando o menor desgarrou-se momentaneamente. Foi quando surgiu um homem alto, vestindo-se com uma capa negra. A depoente não conseguiu precisar sua aparência, pois de acordo com ela o movimento foi rápido demais. O suspeito imediatamente agarrou o menor, desaparecendo com ele em seguida, antes que a depoente pudesse fazer qualquer movimento. Não houve testemunhas do ocorrido (...)

(...) era mais de duas da manhã, e o sargento tinha acabado de cancelar as buscas. De acordo com ele o seqüestrador já devia estar longe numa hora daquelas. Eu concordei, mas como já estava no final de minha área de busca decidi terminá-la antes de dar baixa ao sargento. Foi quando encontrei o cadáver do garoto, em decúbito dorsal, naquele beco. Pelo rádio eu chamei a ambulância, mas quando eles chegaram perceberam que a vítima já estava morta antes mesmo de ter sido encontrada. No local não havia nenhuma pista do assassino (...)

(...) indivíduo é um menor, caucasiano, idade declarada pelos pais de oito anos. Causa provável da morte: parada cardíaca decorrida de perda massiva de sangue. O ferimento de saída está localizado na porção posterior do pescoço. Traquéia, vasos e artérias se romperam com o golpe. Análise preliminar sugere um ataque animal, mas o diâmetro da mordida, assim como o formato dos ferimentos são consistentes aos de um ataque humano. Não foram registrados quaisquer outros ferimentos no indivíduo. Resíduos de pele foram encontrados sob as unhas, e amostras foram enviadas para análise laboratorial (...)

(...) quase duas semanas após o ocorrido e ainda não há respostas claras. O laudo médico oficial indicou a presença de DNA da mãe sob as unhas da vítima, mas a promotoria nega essa evidência. Em entrevista dada com exclusividade para nossa reportagem o delegado informou que a polícia trabalha atualmente com duas hipóteses: seqüestro seguido de morte e assassinato ritual, sendo que esta última implicaria diretamente os pais do garoto, Maria da Graça e André Barbosa, visto que o casal já possui passagens pela polícia por ruídos excessivos de madrugada e perturbação da ordem durante um culto evangélico. A diretora da escola onde Rafael estudava, que preferiu não se identificar, declarou que eles haviam criado caso quando foi sugerido que o garoto fosse batizado, além de freqüentar o Catecismo, ao qual eles se colocaram vêementemente contra (...)

(...) o júri declara por unanimidade que a ré Maria da Graça Feliciano Barbosa foi considerada culpada das acusações de homicídio doloso com agravantes de seu filho, Rafael Antunes Barbosa. Devido a seu estado emocional e psicológico o tribunal sugere que a pena seja cumprida num hospital psiquiátrico penal (...)

(...) e a paciente ainda não demonstrou nenhum tipo de resposta aos medicamentos ministrados. O último sintoma é a ocorrência de alucinações, na maioria das vezes noturna, quando ela relata “ver” na janela de sua cela o suposto assassino de seu filho, acompanhado pelo próprio, e que eles não falam nada, apenas riem e apontam para ela. Usando suas próprias palavras, a aparência dos visitantes é “puro mal encarnado, deformados e inumanos”. Perguntada se ela tinha certeza que a criança que aparecia era mesmo seu filho, ela respondeu que “na aparência, sim, mas no fundo era um ser tão monstruoso quanto o desgraçado que o havia matado”. Essas alucinações podem ser decorrência do atual estado depressivo da paciente. Foi decidido aumentar gradualmente a dosagem de Anafranil e, em caso de ausência de resposta da paciente, o uso de ECT* é altamente recomendado (...)

* ECT – Eletro Convulso Terapia

domingo, fevereiro 13, 2005

Mais óbvio impossível

A gaveta metálica mal começava a deslizar, a etiqueta presa ao dedo do pé do cadáver, e Gino reconheceu Luna pela tatuagem no tornozelo esquerdo. Lágrimas transbordaram dos olhos do rapaz. Perto dele, um senhor gordo e de bigodes grisalhos dirigiu a palavra ao funcionário do necrotério:

- É ela, sim... É a esposa do meu filho.

De olhos fechados, deitada sobre o metal da gaveta, o rosto sugeria que ela experimentara grande angústia e agonia antes da morte. Cabelos negros e longos, a pele muito alva recebera talhos horríveis na garganta e em outras partes do corpo, justamente aquelas pelas quais corriam as principais artérias. Gino sabia muito bem que tipo de canalha faria semelhante atrocidade.

Num tom de voz mal-humorado, o funcionário respondeu ao grisalho que teriam de preencher documentos para a remoção do corpo. A tal insensibilidade, o moço quis reagir com fúria; o pai abraçou-o de lado, para conter-lhe o impulso, e respondeu que cuidariam disso.

- Vamos, Gino... Não podemos fazer nada, só avisar os pais da Luna e providenciar o enterro da menina.
- Eu vou pegar quem fez isso! - respondeu, apenas para o pai ouvir.
- Sim, eu sei que vai. Podemos encontrar o assassino muito antes que a polícia. Mas antes, eu preciso falar com um certo sujeito.

Naquela mesma noite horas mais tarde, dois pares de carros estacionavam quase frente a frente em uma estrada deserta, cheia de pedregulhos. A poeira levantada não tinha assentado e do primeiro par de automóveis saíram Gino, seu pai e quatro seguranças com o porte e a loquacidade de guarda-roupas; dos dois outros veículos, quatro rapazes esbeltos de traços orientais. Logo em seguida, um homem de idade indizível, tipo inegavelmente latino, com rabo-de-cavalo, claramente o líder do grupo. Aproximou-se do pai de Gino. Ambos cumprimentaram-se com formalidade e educação.

- Achei que ia atrasar, mas chegamos praticamente juntos. - afirmou o de rabo-de-cavalo - O que aconteceu, Benito?
- Salvatore, você se lembra do pacto que a tua família e a minha fizeram: separaram a cidade em territórios, os teus não atacam os meus, os meus não atacam os teus. Há um bom tempo isso vem sendo respeitado. Mas alguém quebrou esse acordo e matou a esposa do meu filho.
- Que coisa horrível! - espantou-se Salvatore. Havia sinceridade em sua voz.
- Meu Gino acha que foi um dos teus, mas eu não acredito. Nós sabemos que qualquer quebra é punida com morte. E meu filho quer justiça.
- Tudo o que posso dizer, Benito, é que, se foi alguém da minha família, não serei eu a me colocar na frente do seu filho. Mesmo isso me incomodando. Eu poderia até ajudar a encontrar os assassinos da menina - sugeriu Salvatore - , se não soubesse que vocês farão isso com muito mais eficiência do que nós.
- Essa eficiência é um dos motivos pelos quais existe o pacto. – lembrou Gino.

Vinte e sete horas haviam se passado desde o diálogo entre os dois chefes de família. A lua brilhava. No topo de um edifício seis rapazes passeavam os olhos pelos arranha-céus da cidade. Riam muito. Riam de qualquer coisa. Um deles, que parecia impor respeito aos demais, interrompeu a algazarra. Lembrou que deveriam reencontrar-se na noite seguinte, de acordo com o combinado. Despediu-se, afastou-se e, com um salto, caiu em pé sobre o topo do prédio próximo. Uma breve olhada para trás e confirmou que os amigos já haviam se dispersado. Bons garotos. Continuou seu caminho.

Quando deu por si, sentiu que agarravam-lhe pelos cabelos e puxavam-lhe a cabeça para trás; o estômago levava chutes velozes e repetidos, com tal força que seus pés abandonavam o chão. Ensaiou erguer a cabeça: a palma enorme de uma mão musculosa acertou-lhe na testa com um impacto que o arremessou de costas ao solo. Um humano teria morrido. Mesmo enxergando tudo embaçado, conseguiu contar cinco peludos enormes em seu campo de visão.

Um dos monstros rugiu algo que quase parecia uma voz. Quatro deles, muito ágeis, abandonaram a cena. Agora, a vítima presenciava um único inimigo caminhando nas patas dianteiras e parando a pouca distância. Coisa curiosa, nunca soubera que lobisomens carregavam mochilas no ombro.

- O que você quer comigo, seu m...

Não terminara a frase quando sentiu os olhos encharcados por uma rápida borrifada. A dor dizia-lhe tudo: água benta. Uma bordoada na cara chegou com tamanha violência que lhe partiu a espinha. O corpo desabou sem que pudesse reagir.

Embora cego, percebeu que o lobisomem mudava. Imaginou-o diminuindo e os pêlos recolhendo-se debaixo da pele, até surgir um homem nu com uma mochila.

Um homem chamado Gino.

- Vampiro de merda! - gritou o rapaz -Achou que ia matar minha esposa e ficar por isso mesmo?
- Ah... esse é o motivo da sua raivinha... - retrucou o outro, irônico - Nunca ouviu falar em turismo de sangue? É mais ou menos parecido com o turismo sexual, só que...
- E você? Nunca ouviu falar do pacto entre vampiros e lobisomens?
- Não de onde eu vim.
- Pois eu te conto. Mesmo na forma humana, nosso olfato é muito desenvolvido. Foi fácil seguir seu cheiro. Vocês vampiros podem ser imortais, mas nós lobisomens temos uma vantagem...
- E qual seria, lobinho? - provocou o assassino, mesmo cego e imobilizado.
- Vocês precisam dormir de dia. E ficam muito, muito indefesos. Esse argumento simples - que lobisomens podem encontrar o esconderijo dos vampiros pelo olfato e eliminá-los com facilidade - convenceu os vampiros a selar a paz com os lobisomens.

Gino afastou-se, abriu a mochila, pegou as roupas e começou a se vestir.

- Óbvio, não? - prosseguiu o lobisomem - Não sei como não pensaram nisso antes... Muitas mortes teriam sido evitadas. Até a de Luna.

Isso, vá falando, lobinho! Meu corpo vai se recobrar daqui a pouco e quero ver se na forma humana você é páreo para mim. Só preciso ganhar tempo.

- Meus amigos foram atrás dos seus, vampiro. Vão esperar até eles se recolherem para enfiar uma estaca no coração de cada um.
-Vai me deixar viver para que eu avise outros sobre esse pacto?
- Melhor. Vou lhe dar um presente inesquecível.

Pouco a pouco, o vampiro voltava a enxergar. As imagens embaçadas ganhavam forma. Gino havia se afastado, apenas para que o inimigo pudesse contemplar, intrometidas por entre os arranha-céus da metrópole, as adiantadas primeiras luzes da alvorada.

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Palestra sobre Vampirismo

Salve, pessoal,

Para quem se interessa pelo tema, eu estarei dando uma palestra sobre vampirismo no seguinte evento:

7º PNT-SP (Pagãos no Trianon/Pega no Tranco São Paulo)

O PNT-SP é um encontro imperdível de Pagãos no Trianon, unidos para celebrar a vida. Lá é partilhado tudo o que há de bom, como comidas, bebidas, conhecimento, apresentações artísticas, amizade, diversão, cultura, lazer... procuramos fazer do terceiro domingo do mês um dia agradável e divertido para todos! O objetivo do encontro é unirmos pessoas que seguem o Paganismo ou que gostam deste Caminho.

Data: 20/02/2005 - 3º domingo

Local: Parque Trianon, na Av. Paulista, no Círculo de Pedra / Chafariz desativado.

Horário: 11:00h (Estaremos esperando vocês dentro do chafariz! Fora dele estará havendo uma aula aberta de Dança Circular que é desvinculada do encontro.)

Para este encontro está confirmado:
14:00h: Palestra sobre Vampiros com Gian Celli / Brigante. Vampiros, os Senhores da Noite - Deuses? Monstros? Fantasia e ficção ou simplesmente a realidade mostrada de maneira alegórica? Venha descobrir mais sobre estes imortais que vem permeando o folclore mundial desde o início da Humanidade. (Gian Celli é ex-colunista do Bruxas.org, atual colunista do tribosdegaia.com.br, escritor de terror e estudioso de mitologias diversas e Vampirismo.)

15:30h: Mais aula prática de Liench'i com Igor Barricelli - Venha entrar em contato com esta prática milenar de ginástica chinesa que ativa os meridianos dos chacras, combate o stress e outros males, e aumenta a libido sexual. Utilizar roupa confortável!

16:15h: Sarau Legal: Esqueça a vergonha e venha mostrar seu talento! Esse espaço é seu! Vale números ensaiados ou improvisos! Em solo, grupo, dupla ou com a colaboração de todos, quem manda é você! Se quiser, venha fantasiado de Vampiro e apresente algo sobre o tema! Participe e não perca!

Como chegar: Desça na estação Trianon/Masp, ou no ponto de ônibus em frente ao Parque Trianon. Entre pelo portão localizado na própria Avenida Paulista, onde tem uma grande estátua branca de um homem. Da entrada até o ponto de encontro não leva nem 2 minutos de caminhada: entre, vá reto, passe por uma estátua de um fauno, atravesse a pontezinha e você já vai avistar nosso "círculo mágico"; um chafariz desativado de pedra!!!

Não temos fins lucrativos; é tudo de graça!
Pedimos que os homens levem bebidas gostosas e copos descartáveis e as mulheres, comidas saborosas e guardanapos de papel, para participar do nosso piquenique comunitário. Levem cangas para sentar, lixinhos para preservar o local, copos próprios de casa para poupar a Mãe Natureza e muita alegria!

Somos pagãos porque celebramos os ritmos da Natureza. A palavra vem do latim "paganus" aquele que vive do campo ou no campo. Se você não se considera um pagão, isto não é empecilho para confraternizar conosco!

Deixamos claro que não temos ligação com nenhuma organização/associação, sendo que cada encontro em outros Estados é independente. Se você quiser fazer os pagãos da sua cidade "pegarem no tranco", é só começar a agitar a galera... Não tem segredo!

Para quem não conhece, o Parque Trianon é lindo, mágico, tem uma atmosfera de tranqüilidade e é um dos únicos a possuírem mata nativa.

Os nossos encontros acontecem todo terceiro domingo do mês, sempre na mesma hora e no mesmo local. Anote na sua agenda e venha sempre se divertir conosco!

Acessem o site e vejam fotos dos encontros em http://www.peganotranco.falai.net

Contato: peganotrancosaopaulo@yahoo.com.br

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Mulheres de matar

por Camila Fernandes

Quando a vi pela primeira vez eu não quis tocar seu cabelo preto, beijar sua boca rosa ou afagar sua pele acetinada (sem tocá-la eu sabia que era como cetim). Não, nada dessa porcaria romântica. Eu quis matá-la. Por quê? Foi uma idéia. Dessas que vêm à cabeça da gente por razão alguma ou por razões demais.

Razões que não chegam nem mesmo para justificar antipatia.

Razões de sobra.

Porque você era bela. Se era. De uma beleza que não saía nas fotografias. Até saía, mas pela metade. Seu rosto era atraente, seu corpo, curvilíneo, mas sua alma era linda de um homem não agüentar – que se dirá de uma mulher?

Eu não me ocuparia de você se fosse bela só na fachada. Mas não. Você precisava ter aquele sorriso autenticamente simpático, aquela voz cristalina, o vocabulário arrojado, sem arrogância, os olhos muito vivos feito os de quem nunca pára pra chorar, a quase erudição que não chegava a intimidar os homens do seu convívio, mas a assinalava em qualquer círculo social como uma mulher inteligente. Bonita, divertida, perspicaz. Dava pra ouvir os pretendentes à sua volta murmurando com seus botões um coro deslumbrado: mulher assim não existe!

Mas existia.

Eu não pensava assim. No começo, era só implicância da minha parte. Você tinha de ter um defeito. Bem feio, como uma mãe abandonada no asilo. Parei para observá-la. Descobri que você telefonava pelo menos duas vezes por semana para a mãezinha no interior perguntando se ela precisava de alguma coisa, fazendo recomendações, mandando beijinhos, prometendo visitas de feriado.

Então pensei que você devia detestar animais. Isso é um defeito, certo? Mínimo, mas pra muita gente não amar cães e gatos é uma forma de antipatia contra a própria vida. Sim. Era isso. Apostei como você chutava vira-latas na rua. No mesmo dia, recebi seu e-mail sobre adoção de filhotinhos sem lar, garantindo que você mesma ia ficar com três gatos sem raça.

Então eu tive certeza de que a sua casa era uma bagunça, um antro inabitável. Você seria uma péssima esposa ou mesmo colega de quarto para qualquer pessoa neste mundo. É. Não cozinhava, não arrumava a cama, não lavava sequer um prato sujo. Não tinha a menor chance de se casar ou mesmo viver civilizadamente com outra solteirona. Ia morrer sozinha, ah, se ia.

Quando você convidou todos do seu departamento para um almoço de domingo. Não fui, é claro. Mas vi as fotografias. Parecia livro de receita. Coisa de classe. Comida para comer com os olhos e com a boca. E a cozinha, um brinco. Patinhos de porcelana delicadamente pintados à mão distribuídos em cantoneiras de armário, a sala de chão encerado, os elogios à refeição impecável, escritório adentro, a semana toda...

Bem, certinha demais. Quem gosta de alguém tão milimetricamente ajustado? Nem uma barriguinha de cerveja? Nem uma cárie nos dentes? Mulher que não bebe, não come bobagem, não vai pra cama tarde, toda responsável, fina, vai ver ela nem transa, oh, que tédio!!!

Mas não. Nas happy hours você era a sensação. Ria da piada alheia, receptiva. Depois contava uma melhor. Bebia sem perder a cabeça. E dançava como uma bacante em êxtase, arrastando um séqüito de admiradores pista afora. Sem pose. Sem falsidade.

Que decepção. Você era perfeita!

Mas eu ainda a aturava.

Tudo mudou quando você me abordou no corredor. Era sexta-feira. Aquele sorriso insuportável na sua cara. Disse que sempre me via entrar e sair da sala e que mesmo não trabalhando comigo sabia que eu poderia me divertir se fosse com vocês ao bar sei-lá-onde. Afinal, estava sempre ali, não era parte da equipe, mas e daí, todos são tão legais, pensei em convidar você, vamos, vai ser demais!

Foi a gota d’água.

Eu era feia. Por dentro, mais do que de qualquer outro ângulo. Cumprimentava-a por obrigação profissional. Passava me arrastando pela sala, pela vida, recolhendo pastas, coração aleijado, aleijado, sim, sem esperança alguma de ser boa gente. Muito menos vontade. Você não devia falar comigo. Devia simplesmente ignorar minha existência.

Por que foi fazer isso? Por que tinha de ser tão doce, tão amigável, linda, cativante, tão...

Mulher assim não existe.

Eles não tinham razão. Agora, têm. Mulher assim não existe mais.

Hoje achei um ossinho pontiagudo de frango dentro da pia. Pensei em como ele teria ficado bonito fincado no seu pescoço. Será que isso mata? Tarde demais pra descobrir. Você já era. Nem foi difícil. Serão de quinta-feira pra não ter de ficar até mais tarde na sexta, né? E ainda volta pra casa a pé? Certo. Achei seu defeito: excesso de autoconfiança.

Eu a peguei na saída. Foi com a pá mesmo. Um golpe e vupt, foi ao chão. Ainda dei mais três pancadas. Eu não era tão autoconfiante, sabe? Era precavida. Quis ter certeza do seu fim. Usei a mesma ferramenta pra enterrar o corpo. Terreno baldio é o que mais tem nesta cidade.

Já mulher assim... não, isso não tem!

Nas semanas seguintes, velório, luto no escritório, choradeira ocasional, muitos amigos com saudade. Todo mundo falando em tom baixo como pra não acordar criança. Você faz falta para muita gente. Não para mim. Agora vivo no silêncio, sem os risinhos pelos corredores, a bajulação odiosamente sincera.

Mulheres de matar, eu e você: eu mato, você morre.

Mulheres de matar. Você e todas as outras belas do mundo.

É assim que eu gosto.

Fim.

Camila Fernandes é uma NecroAutora e publica seus textos aqui e no Fábrica de Letras às quartas-feiras (www.fabricadeletras.blogspot.com)

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Amoreiras

por Richard Diegues

As mãos idosas ainda serão ágeis daqui a dez anos. Sim, certamente serão. Dez anos. Esse é o tempo que a amoreira começará a dar seus frutos. Será um belo arbusto esse que minha querida acabou de plantar. Por favor, não estranhe esse devaneio, pois quando se chega a minha idade, noventa e nove, quase um século, as coisas adquirem uma noção diferente de futuro. Ele, esse tal de futuro, passa a existir somente para os outros; para nós mesmos, só se perfazem túmulos e terra sobre a pele.

Vi Cândida plantar a muda na terra fofa e já a visualizei com dez anos a mais, noventa e seis ou noventa e sete, não sei ao certo, colhendo as amoras e levando a boca saudosamente pensando em mim. É engraçado pensar que daqui a poucos minutos estarei morto e que ela ainda ficará um tempo solitária nesta casa.

É bom poder ter uma visão do gramado aqui da janela do quarto. Estou no quarto, deitado na cama onde passei os últimos sessenta anos ao lado de minha amada. Minha esposa poderá acordar todos os dias que lhe restam aqui, depois abrir os olhos saudosos e encarar a amoreira que crescerá dia a dia. Lembrará então que estarei ali, a poucos metros de distância, esperando por ela.

Agora mesmo, enquanto gera com as mãos nuas a cova onde me deitarei, ao pé da muda de amoras, vejo Alice fazendo a mesma coisa um pouco ao lado. Será a vigésima cova a ser aberta em nosso quintal. Temos praticamente um pomar em linha reta cruzando o jardim. Minha filha Alice compreende bem o ritual e o manterá. Cresceu com ele e já passa para os filhos também. A séculos moramos nesta casa e plantamos as árvores ao pé das covas onde depositamos nossos corpos, logo abaixo de suas raízes. Partilhamos nossa experiência através dos frutos. Passamos o conhecimento através dos sumos. Benditos somos nós e nossos frutos. Gosto dessa idéia de sermos benditos.

Agora é hora de um esforço final. Vejo que o buraco já está grande o suficiente para que eu me deite. Retiro minha cabeça suarenta dos travesseiros por uma última vez e me esforço para erguer meu corpo requebrado, dando meus passos finais até meu penúltimo refúgio. Penúltimo, pois serei vivo através das gerações que se alimentarem das amoras. Meus descendentes serão meu refúgio final, como eu sou de meus antepassados.

Quando passo por Cândida, vejo seus olhos rasos e úmidos, mas nenhuma lágrima escorre por suas faces para encontrar o sorriso farto mais abaixo. As mãos sujas da terra revolvida passam nos sulcos de minha pele encarquilhada. Elas apontam para a pequenina amoreira, no momento em que entro na cova e me deito com um estranho conforto e prazer. Deixo meus olhos encontrarem a muda e sorrio, balançando a cabeça em um gesto afirmativo. Ela escolheu uma bela muda para ser minha lápide.

Ficamos assim por uma hora mais ou menos, não sei precisar. Eu no fundo do buraco e Cândida ao lado de minha amoreira, sentada linda como sempre, ou linda como nunca, não sei ao certo. Linda basta. Será linda também quando chegar sua hora de juntar-se a mim. Vejo suas mãos limpas da terra, cruzadas sobre o peito como as minhas agora estão. A imagem me vem em ondas de paz e quando dou por mim, sei que são pensamentos de outra vida. Sei que no momento em que vejo as mãos de Cândida livres da terra, a visão está apenas nos resquícios de minha consciência, pois essas mesmas mãos estão cobrindo meu corpo com terra, ao pé da amoreira.
Passei da vida para a vida.

Fim.
Richard Diegues é um dos NecroEditores e publica seus textos aqui e no Círculo de Crônicas (www.circulodecronicas.com).

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Newsletter no Ar!

É isso aí. Quem estiver interessado em receber novidades quentinhas dos passos e eventos do grupo NecroAutores é só deixar o email na caixinha aí do lado e apertar o botão 'OK'.

O sistema é do Yahoo! Grupos, mas não será um grupo comum. Ou seja, não será possível enviar mensagens para o grupo, apenas receber. Uma newsletter.

Por quê? Porque já existem alguns ótimos grupos de literatura de terror onde se pode trocar idéias e contos, dentre os quais podemos recomendar Tinta Rubra, CryaContos, Historias de Terror, Adorável Noite e Fábrica de Letras, entre outros.

O sistema do Yahoo! é seguro e confiável o suficiente para garantir a confidencialidade dos endereços de email cadastrados, e podem ficar sossegados que esses endereços NUNCA vão ser utilizados para enviar SPAM.

É isso aí, mais um canal aberto para você.

Um abraço,
Os NecroAutores

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Comentários

Devido a uma série de problemas com o sistema de comentários do Blogspot, o NecroZine agora passará a utilizar o sistema de comentários da Haloscan .

Para colocar um comentário já não é mais necessário estar cadastrado no Blogspot. É só clicar no link "comments" que vem logo abaixo do texto.

Peço desculpas a quem já colocou seu comentário, mas infelizmente na instalação do novo serviço eles foram perdidos. Mas sintam-se à vontade para comentar de novo...

Abração,
Os NecroAutores