domingo, março 19, 2006

Você acha que eu ligo?

por Camila Fernandes

Se você acha que eu ligo, a resposta é sim. Ligo pra distância entre nós.
Quem te deixou ir tão longe? Quem te deixou riscar meu nome da agenda, rasgar minhas cartas, queimar minhas fotos?
É essa a sua tática? Acha que deixo de existir por causa do que você faz com suas lembranças? Não sou uma memória pra você apagar estupidamente. Eu existo. Goste ou não.
Acha que não sei da sua vida? Que não te sigo pelas ruas? Que não paro na esquina ouvindo o seu papo com estranhos? Que não roço os seus cabelos quando está distraída? Eles ainda têm o cheiro daquele perfume que te dei. Isso você não quis jogar fora, vagabunda.
Eu te dei amor. Você também me amou. Pensa que esse amor vai desaparecer só porque você nega? Eu sou seu homem. Você é minha mulher. Sempre vai ser. E nada do que possa fazer apaga o que eu sou. Eu te amo. Por isso te persigo.
Gosto quando volta do trabalho sozinha, tarde da noite. Mas você não passa pela praça onde quero te fazer parar. Parar de vez. Você vai pela avenida, que é longa, mas tem luz, parece segura, não? Só que eu estou ali, a poucos passos da sua porta, te seguindo, te esperando, o telefone toca na sua bolsa e meu ódio ferve com o seu alô todo sorridente. Com quem está falando? Quem é esse cara pra te ligar a esta hora?
Ele não é nada! Nunca será nada do que eu fui ou do que poderia ter sido se você não fosse tão idiota. Vadia idiota. Quem te deu o direito de me rejeitar? Quem disse que você podia me esquecer?
Mas eu não esqueço. Não esqueço de contar quantas pessoas te telefonam todo dia. Não esqueço de abrir sua caixa de correio pra saber quem te escreve. Nem de seguir seus amigos, ouvir os seus recados nos telefones deles, olhar as fotos do seu fim-de-semana, uma por uma, ver quem te acompanhou, te tocou, te desejou e te imaginou recíproca. Recíproca! O que você sabe de reciprocidade, sua piranha fria? Fria e superficial. Nunca me deixou ir fundo. Nunca me deixou conhecer de verdade o que estava debaixo da sua casca calculada, conveniente, sorriso sem alegria, tristeza sem lágrima. Você sempre usou disfarces. Será que a sua máscara vai cair quando eu...
Eu ligo pra você. Ninguém nunca vai ligar tanto pra outra pessoa. Não vê que tudo o que faço tem você como motivo? Se admitisse que me ama eu não te odiaria tanto. Te amo e te odeio em medidas iguais. Você fingir que não sabe me enraivece. Chego a querer te matar. Sabia? Fico pra te matar. Na verdade, é o que eu mais quero! Te ver morta. Pra você saber como é.
Queria correr atrás de você, deixar meus passos crescerem nos seus ouvidos, cabeça, coração, bater uma-duas-três vezes, rápido, mais rápido, então te ouvir gritar de medo, prazer, os dois, eu sei lá. Berrar, ser verdadeira uma vez na vida. E não ser capaz de fingir que não estou lá.
Eu faria isso se pudesse. Mas não posso. Não desde que atravessei aquela rua, tarde da noite, sem ver o carro que vinha depressa. Bum. Foi como um coice. Voei longe. E de repente eu não conseguia mais me levantar. Mas só o que eu pensava era: como é que você vai conseguir viver sem mim?
Mas você conseguiu. E como foi fácil.
Queria te ferir. Fazer você se importar também. Doer. Como dói aqui. Mas você é carne, eu sou vento, embaraçar seu cabelo é o pior que posso fazer.
Assim é estar morto: amar e odiar sem ser visto.
Mas vou descobrir como fazer sua alma sangrar diariamente. E depois desse dia você não vai mais me ignorar, vai? Você vai se importar. Vai se debater, se desesperar. Você vai lembrar de mim, dessa vez pra sempre.
Afinal, quem te deixou não ser minha?

quinta-feira, março 16, 2006

Necrópole no jornal "O Regional"

Mortais,

Uma excelente matéria sobre a literatura vampiresca no Brasil acaba de sair no jornal "O Regional", da cidade de Catanduva. O texto fala dos autores nacionais do gênero, mas dá destaque ao trabalho de Alexandre Hereria, Camila Fernandes, Gian Celli, Giorgio Cappelli e Richard Diegues em "Necrópole - histórias de vampiros", sem deixar de mencionar o novo livro da coleção, "Necrópole - histórias de fantasmas", bem como seu lançamento na Bienal.

Para ler a matéria na íntegra, clique aqui.

Os Necroautores agradecem à redação do jornal pela menção.

quinta-feira, março 02, 2006

Necrópole - histórias de fantasmas




Preciso dizer mais?

Estejam lá, mortais.