segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Entrevista com Camila Fernandes

Mortais,

Eric Novello, autor dos livros "Noites Cariocas" e "Dante, o Guardião da Morte", acaba de publicar em seu site uma entrevista com a Necroautora Camila Fernandes. Nesse bate-papo, falam de literatura, terror e muito mais.

Para conferir, cliquem aqui.

Abraços sombrios,

Caronte.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Necrópole no Orkut!

Mortais,

Há poucos dias criou-se (mérito de Patrícia "Blue Moon") no Orkut, essa já não tão "nova" febre internética, a comunidade que vocês aguardavam:

Necrópole
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=8402439

Passem por lá e participem de debates sobre os livros dos Necroautores, vampiros, terror e muito mais.

E não se esqueçam, é claro, da comunidade do NecroZine:
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1269973

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Sem Respostas

Giorgio Cappelli

Podíamos resumir a vida de Alceu em sete palavras do idioma bretão: skate, shopping, games, I-Pod, Burger King e Internet. Um adolescente feliz, que pouco diferia dos da sua idade, até que um irresponsável num carro o atropelou e fugiu.

Só após vários meses em coma Alceu acordou. Continuava a se parecer com um rapaz normal. Apenas parecia normal, porém. Jamais voltou a falar. Não pôde mais freqüentar a escola. Passava a maior parte do tempo em pé, de braços cruzados, próximo à janela de seu quarto. Cabeça erguida, olhos no chão, calado. Mantendo aquela mesma pose, por vezes agitava o corpo, como se dançasse uma música audível apenas para si.

Sua condição mental desgastou a família. O pai abandonou o lar. A mãe, que pouco estudo tinha, mal se sustentava com o próprio salário, e agora tinha de arcar com o aluguel. Impossível. Um irmão, oficial da Marinha, conhecia a história toda e ofereceu ajuda:

– Você me conhece, Dora! Moro sozinho, a casa é grande e eu estou sempre viajando. Pode ficar quanto tempo quiser.

Ela aceitou, jurando que ia se esforçar para permanecer ali o mínimo possível.
Alceu e sua mãe tinham se mudado para a casa do tio havia três semanas. Certa manhã, Dora saiu às pressas; marcara uma entrevista de emprego logo cedo, largando para trás a louça acumulada do dia anterior. Na volta, encontrou a pia limpíssima, os talheres e copos brilhando no escorredor.

Sabia que não fizera aquilo. Muito menos o irmão, que se ausentara. Não morava ninguém mais ali, além dela e do filho. Subiu as escadas até o quarto dele.
– Alceu, foi você que lavou a louça?

Sem resposta. O garoto permanecia de braços cruzados, olhando para baixo, absorto em sua dança minimalista. Só podia ter sido ele. Instintivamente, Dora tocou as mãos do filho. Nem ao menos estavam úmidas.

– Bom, se foi você quem lavou, filhinho, obrigada! – sorriu a mãe.
Sem resposta.

Pilhas de roupas sobre a máquina de lavar e entupindo os baldes da lavanderia. Dora saiu para fazer compras no supermercado. Ao retornar, deparou-se com todas as peças no varal, lavadas e pingando. A área de serviço continuava irrepreensível: baldes, pacotes de sabão em pó, frascos de detergentes e demais itens de limpeza intocados.
Dora encontrou o filho no quarto. Mudo. Novamente, nem uma pista de quem fizera aquilo. Nem adiantava perguntar aos vizinhos se tinham ouvido ou visto alguma movimentação dentro da casa. O lugar, grande demais e com muros enormes, isolava o que acontecia lá dentro.

Aos poucos, Dora foi percebendo que nada permanecia sujo por muito tempo. Por algum estranho motivo, Alceu – que nem tinha o hábito de arrumar a própria cama quando era são – transformara-se numa espécie de limpador compulsivo. A mãe nunca o via em ação, embora sabia o que se passava. Ou pensava que sabia. E deixou de se importar com o mistério.

Altas horas de uma noite, Dora acordou com a campainha da casa. Pressionada sem parar, denotando uma ansiedade diretamente proporcional à ausência de educação. A mulher correu para atender.

– Sereno! – gritou, ao reconhecer seu marido diante da porta. Aquele mesmo homem que a abandonara meses antes. Pouco custou para notar outros detalhes, como o aroma de cerveja emanando de sua boca e a língua enrolada em frases sem sentido.

Convidou-o a entrar antes que os primeiros vizinhos colocassem as cabeças para fora das janelas. Se detestava escândalos em sua própria casa, que dirá, então, em casa alheia?

Dora levou Sereno até a cozinha. Um café forte arrancaria o marido da embriaguez. O homem que a abandonara, entretanto, não demonstrava vontade de querer ficar sóbrio. Culpava-a pela tragédia de seu filho. Culpava-a por ter se tornado um alcoólatra. Culpava-a por ter sido despedido. Culpava-a pelo próprio fracasso. Espumando de ódio, não a deixava responder. Puxou um revólver.

Um grito e um disparo. Quase ao mesmo tempo. Ele, totalmente embriagado, não conseguiu atingir a esposa. Ela se protegeu erguendo os braços, como se tal gesto adiantasse. Dois outros tiros perfuraram a parede, sem alcançarem a mulher.

Se a arma travou ou esvaziara, Dora não soube. Só viu o revólver que Sereno arremessava em sua direção. O esposo avançou, desajeitado; a mulher conseguiu desviar. Ele bateu o queixo contra a beirada da porta e foi ao chão.

Dora não conseguiu explicar, depois, como alcançou um banquinho de madeira e usou-o para acertar o rosto do marido, repetidas vezes, quebrando-lhe os dentes, o maxilar, o nariz, fazendo os olhos vazarem. Só se lembra do incrível ódio que a dominou. Ódio acumulado pelos meses de frustração, abandonada por um canalha, cuidando sozinha do filho que tanto amava com um ordenado mirrado e ainda sendo acusada por coisas que nunca fizera.

Sobre os ladrilhos da cozinha, o corpo sem vida do marido. A face irreconhecível pelos repetidos golpes, o piso banhado de vermelho. Mãos e braços doíam e tremiam pelo esforço que fizera. Imagens tenebrosas ocuparam a cabeça de Dora. Não tinha culpa; estava apenas se defendendo. Pensou em Alceu, a única alegria de sua vida. Se fosse presa por assassinato, não haveria quem cuidasse dele.

Instantes depois, trazia o filho pela mão. Encarou seus olhos verdes com todo amor e carinho de mãe inegavelmente devotada. Beijou-lhe a testa e foi deitar-se, deixando o menino na cena do crime.

Como esperava, na manhã seguinte a cozinha se encontrava reluzente de limpa. Sem o menor sinal do que ocorrera na madrugada. Alceu, como de hábito, olhava pela janela de seu quarto.

Semanas após, a polícia chegou, perguntando pelo paradeiro de Sereno. Muito tranqüila, Dora afirmou que nada sabia. Que ele tinha aparecido por lá uma noite, bêbado, e que discutiram. Ele depois partira e nunca mais voltara. Os policiais tentaram interrogar o filho de Dora. Desistiram, ao perceber que o menino tinha problemas mentais.

Eu sou o tio do Alceu. Dora me contou toda a verdade, que aqui transcrevo. Pergunto ao meu sobrinho que fim ele deu ao pai. Alceu, de cabeça ereta e braços cruzados, fica olhando para o chão. Mudo. Queria ao menos saber como conseguiu desaparecer com os buracos de bala na parede.

E fico sem respostas.