sexta-feira, outubro 28, 2005

É Amanhã!



Não se esqueçam! Amanhã, na Saraiva Megastore do Shopping Morumbi os necroautores irão lançar seu primeiro livro, o irmão mais velho do NecroZine, Necrópole - Histórias de Vampiros.

Apareça, compre o livro, pegue seus autógrafos, tome um vinho, prestigie.

Aguardamos você lá!

Caronte
caronte@necrozine.zzn.com

terça-feira, outubro 18, 2005

Meia Noite

© Alexandre Heredia


Encosto o cano do rifle no canto da janela, de modo a ter maior precisão. Focalizo a mira telescópica mas em seguida abro os dois olhos. Ainda não. Ainda não é sua hora. Meia noite. Meia noite ela aparece. E desta vez eu a pego de jeito. Ah, se pego.

Um polegar suado destrava a arma. Agora não tem volta. É puxar o gatilho e bum!, ela já era. Chega de me assombrar. Chega de noites insones, vendo aquela cara branca dela, aquele vestido maltrapilho esvoaçante, aqueles olhos. Sempre curtiu um teatro, não ia ser diferente depois de morta. Depois que a matei, a vaca, a puta, a escrota.

O maluco que me vendeu o rifle me disse que ele matava até alma penada. Tenho certeza que era algum eufemismo idiota, mas prefiro acreditar que não. Nove milímetros de precisão absoluta. Não interessa onde vai atingir, o estrago é sempre fatal. E ela morre de novo. De vez.

A luz da cidade lentamente é embaçada por uma fina névoa, o sereno confuso de toda metrópole. É quase hora. Olho mais uma vez na mira telescópica em direção à rua. Pouca gente, a maioria putas e travecos fulambentos abordando carros cheios de pervertidos. Povo escroto e disseminador de doenças venéreas. São o cancro duro da sociedade, o retrovírus da humanidade.

Pisco os olhos quando o suor escorre para dentro deles, ardendo. Curto a dor por um instante. Lambo meus lábios secos. O carrilhão da matriz anuncia que é chegada a hora. Meia noite. É agora. Vem, piranha, desta vez você vai ver do que sou capaz.

Seu rosto surge na noite, como se a neblina de repente se condensasse em uma face vagamente humana. Ainda não. Não caio nessa, sua puta. Vem, eu sei que você está me vendo. Ela desce até a rua, e a acompanho pela mira. De repente uma puta olha para cima, e são seus olhos nos dela. Aqueles olhos cheios de raiva e escárnio. Foi por isso que te matei, sua vagabunda, por causa deste olhar de zombaria, que me julgava toda vez que o cruzava, um olhar humilhante. Morra de novo!

O tranco do rifle machuca meu ombro, mas não tiro os olhos da mira. Lá embaixo um pandemônio se inicia. A puta se estrebuchava no asfalto, mas seu rosto já não é mais o dela. Ela é agora um travesti escondido embaixo de um toldo de uma loja. Continuava me olhando, me julgando, sorrindo de meu erro. Ria disso, sua escrota!

O travesti cai de joelhos quando sua cabeça explode. Do seu lado uma menina que não deve ter mais do que doze anos se banha com o sangue e miolos espirrados. E olha para cima, uma face de escárnio escarlate. Ela quase voa com o impacto da bala em seu peito juvenil, mas tomba como as outras.

Doze putas depois as balas terminam. Largo o rifle fumegante e caio de joelhos no chão. Ela sumiu, sumiu, finalmente. Depois de quase uma hora ouço sirenes se aproximando. Não me mexo, e após uma breve espera eles batem com violência em minha porta. A paciência é mínima, e em seguida eles a arrombam. Não luto contra as algemas nem os sopapos, pois por mais que eles me trancafiem em um buraco imundo e superlotado, finalmente estou livre. Livre de você, sua puta, sua vaca. Prendam-me, pois já me libertei.

Quando me empurram para o camburão vejo o rosto de uma puta no meio da multidão de curiosos. É um rosto assustado e horrorizado. Quase peço desculpas, pois elas realmente não tinham nada a ver com tudo aquilo, mas antes da porta fechar ela me olha com aqueles olhos malditos. E com eles zomba de mim, e de minha situação atual, pois sabia que agora eu já não tinha para onde fugir, e nem como me defender.

quinta-feira, outubro 13, 2005

NECRÓPOLE: resenha e pontos de venda

Mortais,

Eric Novello, autor do recém lançado Dante - O Guardião da Morte e Histórias da Noite Carioca escreveu uma longa e profunda análise do livro Necrópole - Histórias de Vampiros, percorrendo cada história com um olhar crítico e bastante coerente.

Para ler a resenha na íntegra, vá para a página de Eric Novello.

E se você está interessado em adquirir o livro, ele já está disponível nas seguintes livrarias (entre outras):

Saraiva
Siciliano
Submarino
Cultura
FNAC

E não se esqueçam que o lançamento oficial e noite de autógrafos será no dia 29 de outubro (sábado) à partir das 19hs, na Saraiva Megastore do Morumbi Shopping, em São Paulo.

Os necroautores esperam você lá!

Caronte
caronte@necrozine.zzn.com

terça-feira, outubro 11, 2005

O Sobrevivente

Gianpaolo Celli

Finalmente havia acontecido! Você chegara na noite anterior junto com diversos outros jovens. Garotos na verdade, como você. Garotos com tolas fantasias de herói a quem algum idiota conseguira convencer que havia honra em tornar-se um assassino.
Assim ali estava você, tiritando de frio, sentado na escuridão, aguardando em silêncio pelo início do dia, pois a ação começaria com o nascer do sol.
– Daqui a menos de cinco minutos... – você ouviu um dos mais velhos comentar enquanto olhava para o brilho tênue que surgia no horizonte. – o velho sempre começa com o sol!
O peso e a dor em seus braços começaram a incomodar mais após aquelas palavras, assim como a câimbra em suas pernas. A comida em seu estômago começou a borbulhar, um gosto acre tomou conta de sua boca e todo seu corpo começou a tremer. Você quase saltou quando sentiu o toque estranho em seu ombro.
– Calma, garoto... – ele falou, lhe oferecendo um cigarro.
Você não respondeu, não conseguiria. Queria lembrar-se de quando primeiro teve o peso de uma arma nas mãos, de quando havia sentido o poder que ela transmitia... lembrar do recente orgulho do uniforme, a felicidade besta de seu pai, o choro de sua mãe, a tola inveja de seu irmãozinho. Tudo aquilo lhe parecia estúpido agora, quando as únicas palavras que lhe vinham à mente eram “dor” e “morte”.
– Tome aqui! – continuou ele colocando uma garrafa na sua frente. – É só ansiedade. Mas dizem que ela é o pior da batalha. Dê um gole que isso passa. Depois você se acostuma... o importante é não pensar nisso.
Foi um grande gole que o fez tossir forte quando o liquido desceu queimando e um segundo depois e você já estava mais calmo. Na hora você nem pensou naquelas palavras, em como você haveria de tornar-se uma besta para se acostumar com uma situação como aquela. Mesmo assim agradeceu com um gesto.
Os minutos se tornaram segundos e, finalmente, a ordem foi dada. O troar dos canhões da retaguarda chegou a seus ouvidos pouco antes do fulgor mortífero das explosões, longe demais para serem ouvidas. O rosnar metálico dos blindados surgiu um momento antes de sua passagem por entre as trincheiras. Mesmo assim vocês continuavam ali parados, esperando.
– São morteiros! – você ouviu, como uma resposta a seu pensamento do que seria aquele som agudo sutil que lhe chegava aos ouvidos. Foi então que tudo a sua volta começou a explodir.

Do nada pedaços de dois ou três companheiros seus caíram a seus pés, semidestroçados. Antes que sua mente se conscientizasse do acontecido, entretanto, antes que corpo pudesse se lembrar que existia um estomago e comida para vomitar todos a sua volta se lançaram correndo e urrando num êxtase bestial. Rifles nas mãos, baionetas em riste buscando alguém para matar, buscando evitar ser ferido, morto...

O quanto durou aquela carnificina chamada de batalha você não pode calcular. Não se lembra de haver parado para olhar o que estava acontecendo, no que você mesmo fazia. Coisas disformes pareciam tombar a sua volta, ao seu lado as vezes, as suas costas e a sua frentes sem que seus olhos injetados percebessem o que acontecia. Você não ouvia nada a não ser os rosnados que pareciam sair diretamente de dentro de sua cabeça. Suas mãos iam e vinham repetidamente, as vezes livres, as vezes parecendo cortar uma gelatina estranha, liquida, quente...
O sol já estava alto no céu quando seu corpo cedeu a tudo aquilo. Suas pernas e braços não agüentavam mais se movimentar, carrega-lo em meio àquilo tudo. E assim você caiu de joelhos, arfando como touro, seu uniforme molhado de suor e sangue.
Foi só então que, olhando em volta e vendo os corpos mutilados, retalhados; ouvindo os gemidos e gritos dos feridos; sentido o cheiro de sangue, num baque você tomou consciência de tudo aquilo.
De súbito surgiu-lhe uma vontade de sair dali gritando por piedade e misericórdia por seus atos, por tudo que acontecera, insano... Antes disso, porém, suas mãos inconscientemente buscaram sua face, seu corpo, num rompante de autopreservação, e ali você ficou, chorando como uma criança, pois havia sobrevivido àquilo tudo e estava são... chorou pois se tornara um sobrevivente, um veterano, uma besta que terminaria se acostumando com tudo aquilo.

terça-feira, outubro 04, 2005

Flashes

Richard Diegues

As luzes feriram os olhos de Valéria. Por instinto, levou a mão e encobriu o rosto. A cabeça ainda doía bastante, mas não era a concussão que a preocupava. O que fazia seu coração disparar realmente era o fato de sentir as pernas amarradas, além de estar deitada no chão frio.

– Quem está aí? – perguntou antes mesmo de pensar, arrependendo-se imediatamente pela demonstração de fraqueza.

Não houve resposta, mas a confirmação de que não estava só no lugar se deu com uma série de espocares, nitidamente lembrando flashes.

“O desgraçado está me fotografando”, pensou imediatamente passando a mão pelo corpo, constatando que estava completamente nua. Controlou-se para não se curvar ou cobrir o sexo com as mãos. Ao invés disso, tateou as algemas que estavam presas em seus tornozelos, descobrindo que terminavam em uma corrente. Não testou a resistência. Sabia que estava presa. Bem presa por sinal.

Uma outra série de flashes cruzou suas pálpebras fechadas. A luz cruzava a pele rosada, irritando ainda mais seu já fragilizado humor.

– Ainda sinto o seu sangue em minha garganta – arriscou, tentando surpreender seu algoz, ou pelo menos causar alguma reação.

O silêncio permaneceu, mas uma respiração ofegante surgiu a sua esquerda, acompanhada de mais uma série de flashes. O som mecânico do motor elétrico de uma máquina fotográfica voltando um filme foi a deixa para que abrisse os olhos. Sabia que demoraria alguns segundos para o flashe ser acionado novamente.

– Vítima? – inquiriu girando a cabeça enquanto olhava para as sombras a sua volta. Queria irritar seu raptor para que aparecesse. – Você está por aí? Está me olhando? Devorando com os olhos? – disse enquanto sorria e acariciava o próprio corpo.

A respiração arfante aumentou e uma seqüência de estalos e cliques informavam onde o homem estava. Direita, um pouco atrás. Olhou na direção dos sons no momento exato em que a luz branca estourou em seus olhos.

Praguejou erguendo novamente a mão para proteger o rosto, mas desta vez testou a rigidez da corrente. Para sua surpresa ela se distendeu um pouco. Não havia nada de especial na corrente. Era puxar com força e estaria livre.

“Será que o estúpido não percebeu quem eu sou?”, pensou não conseguindo evitar que uma risada escapasse. Começou leve, mas conforme os flashes iam aumentando de velocidade, foi-se deixando levar. Começou a rir cada vez mais alto. Ergueu-se e posava lascivamente para a câmera, estivesse ela onde estivesse. Lembrava vagamente do rosto do homem que a capturara. Era até mesmo bonito. Não era o seu tipo, pois detestava loiros, mas era atraente mesmo assim. Sabia que era ele, pois viu de relance quando a atacou no beco. Teve tempo de morder seu braço antes de perder os sentidos.

A troca de filme ocorreu uma outra vez, mas mesmo durante o tempo em que as luzes pararam, Valéria continuava a se insinuar, mantinha os olhos fechados, tocando-se vulgarmente, sabendo que como seu corpo, tocava a mente do marginal. Aproximava-se dele com o seu prazer. Dando prazer. Conhecia os psicopatas. Amava suas mentes torpes e sujas. Sabia do que gostavam e como gostavam. Esse era do tipo que seqüestrava mulheres, as fotografava e depois as matava. Era quase certo que as esquartejava. Achava que Valéria seria mais uma de suas vítimas.

Quando o terceiro rolo de filme terminou, Valéria viu o homem surgir das sombras. Em sua mão direita havia uma máquina fotográfica. Na esquerda uma lâmina grande e brilhante. Ele se aproximou com um sorriso demoníaco, mas quando chegou a menos de um metro de Valéria, viu o mesmo sorriso espelhado no rosto dela.

Valéria não sabia o que lhe agradava mais: a expressão dele quando ela partiu a corrente, o som da faca escorregando da mão dele e indo de encontro ao piso, ou o gotejar da urina que se desprendeu do infeliz ao vislumbrar suas presas.