quarta-feira, setembro 28, 2005

Necrópole nas livrarias!

Mortais, é com prazer que anuncio que Necrópole - Histórias de Vampiros já pode ser adquirido em qualquer filial da Livraria Cultura.

Vejam a bela exposição que a loja do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, fez da obra:

Image hosted by Photobucket.com
A fachada da livraria.

Image hosted by Photobucket.com
Necrópole em destaque na prateleira.

Image hosted by Photobucket.com
Um close do livro.

Abraços sombrios.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Necrópole - Histórias de Vampiros


Necrópole – Histórias de Vampiros é resultado da união de cinco escritores brasileiros e traz obras de suspense e terror que têm como cenário uma metrópole.

O livro reúne cinco histórias distintas, sendo uma de cada escritor, independentes entre si. A ligação entre elas fica por conta do cenário metropolitano e do tema central: os vampiros.

Longe de ser uma coletânea, o livro é o produto de um árduo trabalho em grupo, com o intuito de criar narrativas atuais e dirigidas a um público-alvo mais amplo do que os leitores de suspense, terror ou mesmo de vampiros. Apesar do tema, o livro procura atender um público carente de boa literatura e não apenas um determinado nicho.

O primeiro volume da coleção será lançado com os autores que idealizaram o projeto: Alexandre Heredia, Camila Fernandes, Gianpaolo Celli, Giorgio Cappelli e Richard Diegues.

A inspiração para as histórias foi retirada do dia-a-dia de cada autor. “A idéia era reunir o melhor do clássico e do contemporâneo em narrativas de terror, jogando criaturas sinistras em ambientes típicos do século 21, como uma festa sofisticada, um cortiço ou uma rave”, diz Camila Fernandes.

O nome da coleção, Necrópole, foi adotado para aludir ao lado negro das metrópoles. Segundo Alexandre Heredia, “Necrópole é uma coleção de livros de suspense e terror. Em cada volume, os escritores trabalharão sobre um tema específico. A intenção é agregar qualidade a cada trabalho, fazendo surgirem novos autores nacionais neste segmento que tem sido tão pouco explorado”.

“O grupo participou de todo o processo de produção do livro, da construção das histórias, passando pela revisão, diagramação e capa, até a criação do website oficial. Procuramos trabalhar em equipe durante todas as etapas do projeto”, garante Giorgio Cappelli.

“O Projeto Necrópole se originou do periódico NecroZine, um zine escrito e editado pelo grupo. Cada edição traz cinco contos dos autores, daí o formato do livro. O zine foi tão bem aceito pelos leitores que decidimos partir para um livro que suprisse melhor essa demanda”, explica Gianpaolo Celli. O NecroZine é distribuído gratuitamente em eventos culturais e diversas livrarias, podendo também ser baixado do website do grupo (www.necrozine.blogspot.com), onde o leitor também encontra histórias inéditas, wallpapers exclusivos e atualizações sobre as atividades dos autores.

“O grande trunfo do livro é a diferença de estilos entre os escritores. Cada um tem uma linha distinta e uma surpresa extremamente agradável na manga. As histórias surpreendem tanto pelo estilo, como pelo tratamento inusitado dado aos vampiros, revelando tramas intrincadas e personagens que os leitores não esquecerão”, afirma Richard Diegues.

Diversão e suspense de tirar o fôlego!


Informações Adicionais:

Cinco autores, cinco histórias, cinco maneiras diferentes de causar a mesma sensação: o medo.

Isto é Necrópole – histórias de vampiros. Um livro que reúne cinco talentos da literatura de suspense e terror, cada um deles apresentando uma história com 30 páginas, ambientada em uma metrópole genérica.

Neste primeiro volume, o tema escolhido não poderia ser outro: Vampiros. Estas criaturas misteriosas e ao mesmo tempo tão difundidas na literatura são apresentadas pelos autores em tramas bem estruturadas e completas, com início, meio e finais surpreendentes.

Este é o primeiro volume de uma coleção dedicada ao segmento suspense/terror. A coleção sempre trará histórias inéditas com as mais promissoras revelações do gênero em edições temáticas: lobisomens, espíritos, bruxas, seres míticos e outros assuntos relacionados. O principal aspecto deste projeto não é apenas a pontualidade da coleção, mas também a apresentação de novos talentos da literatura brasileira de terror e suspense.

Esta é uma obra que aparece no cenário editorial brasileiro para preencher a lacuna que ainda persiste nas publicações de suspense e terror.

A idealização desse livro originou-se de um trabalho criado pelos mesmos escritores que participam desta obra, praticamente com o mesmo formato: o NecroZine, um periódico bimestral, com contos de suspense e terror, distribuído em eventos culturais como forma de propagação do gênero literário.

As histórias do zine envolvem vampiros, lobisomens, assassinos seriais, assombrações, personagens lendários, canibais e criaturas inofensivas que, do dia para a noite, se tornam ameaças. Os elementos suspense e terror são bem dosados, o que tem agradado até aos não-entusiastas do gênero, por sua sutileza e suas narrativas bem conduzidas. Os leitores são envolvidos pelas tramas nas histórias fortes de Alexandre, pelo toque sedutor de Camila, a acidez marcante de Gian, a ironia bem-humorada de Giorgio e a profundidade psicológica de Richard.

Tudo isso fez com que o NecroZine alcançasse uma grande aceitação e o apoio para que a obra se desdobrasse para algo maior: o projeto Necrópole, culminando com o livro que você tem em suas mãos neste momento.

Por esta e por outras, você percebe que Necrópole é mais do que um simples livro. Ele é o fruto de uma proposta forte, desenvolvida em meio a sonhos e regada com muito sangue!


Um pouco sobre as histórias do livro:


Em Rogai por nós, Marcos, descobre logo cedo que a vida na metrópole é dura e que nem mesmo a religião é um porto seguro. Sua grande oportunidade surge nas mãos de Madame Agnes, uma santa mulher que auxilia crianças carentes, dando a elas uma nova esperança. Com ela, Marcos descobre a amizade, o amor, a luxúria e também um segredo macabro. O sacrifício em nome da vaidade.


O edifício nos apresenta Felipe, um garoto ingênuo que é forçado a se mudar com a mãe para um cortiço decadente no centro da cidade, habitado por pobres, desvalidos, tarados, gigolôs e delinqüentes. Neste mundo perigoso ele lutará para sobreviver à miséria e à humilhação. Para isso, terá de provar sua coragem penetrando num antro proibido, onde o mal dilacera o corpo – e a mente – até dos mais fortes.


A casa dos loucos nos leva a uma festa badalada onde as classes privilegiadas exibem seus predicados. Entre corredores escuros e quartos misteriosos, a audaciosa Laura confrontará seus pavores mais antigos e conhecerá a outra face daqueles a quem chama de amigos. Aqui, os podres da burguesia assumem proporções inimagináveis, o sangue se torna mercadoria e o pior monstro é sem dúvida a vaidade humana.


Em Acerto de contas, Hélio, um jovem responsável, se vê como um peixe fora d’água ao acompanhar sua paixão adolescente, Stela, a uma festa movida a som alto, trajes excêntricos e drogas. Os segredos de Stela mudarão sua vida drasticamente e ele terá de enfrentar inimigos implacavelmente poderosos para salvar a si mesmo e à garota que ama de um destino fatal.


Anatomia imortal nos apresenta a jovem Anna. Ela é tudo que um homem poderia querer: linda, talentosa e sedutora. Não podia prever, entretanto, o que Renato pretendia ao lhe dar uma carona. Agora, nas mãos de desconhecidos, todos os seus segredos serão descobertos, despidos, dissecados, e ela conhecerá sofrimento e humilhação nunca antes imaginados, enquanto sua existência pende por um fio.


Comentários sobre a obra:

Orelha de abertura do livro

Há tempos escrevemos sobre os seres que sugam nossa vitalidade – estão aí mitos e contos folclóricos pertencentes a dezenas de culturas para atestar a universalidade e a pertinência de uma certa indagação humana.

Não questionamos a existência de vampiros; isso já parece verdade estabelecida, dados a profusão de histórias sobre eles e o fascínio que despertam. Indagamos, isso sim, como são eles, de que maneira atuam, até que ponto vai sua fome de sangue e vida.

Talvez venha daí a angústia que muitos dos personagens vivenciam: vale a pena privar outro ser de sua vitalidade para prolongar uma pseudovida, uma existência eterna, mas vazia de significado, de amor?

É sobre essa angústia e sobre as indagações que as histórias aqui relatadas refletem. E que melhor hábitat existe para seus personagens do que a metrópole, o universo multifacetado do caos urbano, que neste início de século praticamente define a perplexa sociedade humana?

Em narrativas diversas, ora delicadas, ora cruéis, os autores mergulharam na figura folclórica do vampiro imemorial e emergiram trazendo histórias perturbadoras de uma ameaça que metaforiza tantas das nossas inquietações.

Após a leitura, resta-nos a tentativa de compreensão do universo vampírico nesta metrópole que vira Necrópole. Tão distantes, mas ao mesmo tempo tão próximos, na dicotomia repulsa-fascinação que permeia o imaginário popular.

Quem ousará questionar a existência deles?

Rosana Rios
escritora


Serviço

Necrópole – histórias de vampiros, de Alexandre Heredia, Camila Fernandes, Gianpaolo Celli, Giorgio Cappelli e Richard Diegues – 160 páginas, R$ 23,90, 2005, Editora Alaúde.


Página Oficial:

www.necropole.com.br


Atendimento

Para fotos, imagens para artigos, exemplares para resenha e entrevistas:

e-mail: alaude@alaude.com.br

Home page: www.alaude.com.br


LANÇAMENTO

Dia: 29/10/2005
Horário: à partir das 19hs
Local: Saraiva MegaStore do Morumbi Shopping
Av. Roque Petroni Jr., 1089 - São Paulo - SP
Piso Térreo
Tel: (11) 5181-7901

terça-feira, setembro 13, 2005

O Inferno não é como você pensa

por Marcelo Dias Amado

Esqueça todas as bobagens que lhe contavam sobre o inferno quando você era criança. Aqui não há labaredas saindo do chão. Não existem demônios segurando lanças ou garfos pontudos. Eu não sinto cheiro de enxofre no ar e não ando pelado por aí, sendo chicoteado o tempo todo por seres disformes e sem vida nos olhos. Não tenho correntes amarrando meus pés a bolas de ferro ou algo parecido.

Vou tentar descrever o meu inferno. Ao primeiro olhar, um cenário comum a todos nós e que em nada se parece com aquela fantasiosa imagem presente nas historinhas que sua tia beata contava, sempre que você fazia algo que pudesse ser considerado pecado.

O meu inferno começa aqui nessa esquina movimentada de Belo Horizonte, onde todos os dias transitam centenas, talvez milhares de carros e pessoas apressadas sem tempo para sequer reparar na arquitetura variada desse ponto da cidade. Aqui nessa banca de revista eu sempre paro para ler as notícias estampadas nas primeiras páginas dos jornais, mas nunca comprei sequer uma edição. Já as revistas, essas já me interessaram no passado, mas hoje já não me atraem mais. São quase todas iguais e sem nenhuma novidade. O senhor que toma conta da banca, está sempre com a mesma boina, a mesma cara fechada pra mim e sempre fazendo palavras cruzadas. Acho que ele não vai muito com a minha cara, ou talvez tenha raiva porque nunca comprei nada.

Depois de olhar o resultado dos jogos de domingo, olho em direção ao posto policial alguns metros à frente de onde estou. Um policial está sentado olhando o movimento do outro lado da rua, onde uma pequena multidão se aglomera para ver mais um “encantador de cobras”, ou seria mais correto dizer: mais um “enganador de pessoas”?

Próximo ao posto policial, num ponto de ônibus, vejo um amigo. Ele acena para mim e vou ao seu encontro. Um aperto de mão disfarça a passagem de um bilhete onde está escrito: “Marea azul escuro, parado em frente à farmácia”. Depois de algumas perguntas sobre a família, amigos e o jogo de ontem, me despeço e sigo em direção ao banco, passando em frente ao Marea. Os vidros negros não me permitem saber quem estava lá dentro, mas noto o motor ligado. As respostas dadas pelo amigo no ponto do ônibus estavam carregadas de códigos e dicas de como deveríamos proceder em seguida.

Um mendigo me pede uma esmola. Me abaixo e lhe dou algo mais precioso que uma moeda. Um aviso para que saia do local, para o seu próprio bem. Confesso que não sei ao certo se ele segue meu conselho ou se fica parado na porta do banco, pois depois disso, tudo acontece rapidamente. Lá dentro, os gritos, o segurança que tenta sacar a sua arma, mas é atingido da cabeça por uma bala de AR-15, uma mulher que desmaia ao ver os miolos do homem no chão e o gerente do banco sendo espancado por um dos meus comparsas. Tiros para o alto tentam fazer com que as pessoas não tentem atrapalhar nossa fuga, mas a movimentação dentro da agência chama a atenção de quem está fora, inclusive a de policiais que param uma viatura em frente ao posto. Nosso motorista se apavora e começa a troca de tiros. Poucos segundos depois, ele cai ao lado do carro.

Depois do motorista, vejo meu melhor amigo tombar ao meu lado. Seu peito sangra, cravado por vários estilhaços de uma calibre 12. Nessa hora vejo flashes de minha infância, quando brincava com meu irmão de “polícia ladrão”. Ele sempre me matava, não importando se era a polícia ou o ladrão. Eu sempre perdia na brincadeira e agora vejo um amigo caído no chão. Ele é o ladrão. Mas eu também sou. Num reflexo, aponto minha arma para o policial perto do Marea e acerto-lhe o joelho, fazendo-o cair imediatamente. A única coisa que eu posso fazer é correr para o carro e é exatamente o que eu faço.

Agora estou aqui, correndo pela cidade feito um louco. Não me resta outra saída. Duas viaturas me perseguem, mas estou indo relativamente bem. Mais um pouco e saio do centro da cidade. Se eu pegar a estrada elas não terão chances de me alcançar. Não com esse carro. Preparamos seu motor durante toda a noite e nada pode acompanhá-lo. Estou bem. Estou seguro do que estou fazendo e que tudo vai dar certo. Pelo menos para mim, já que dois amigos já não tiveram essa sorte.

Olho no retrovisor e vejo as viaturas ficando para trás. Não consigo evitar um sorriso de satisfação no rosto. Mas nesse momento, tudo parece ficar congelado, ou pelo menos muito lento. Não escuto mais o som do motor. Não escuto as sirenes. Sinto um frio na espinha e meus olhos arregalam diante daquele menino pedindo esmolas na rua. É apenas um menino, mas seu rosto... Seu rosto é demoníaco. Olhos muito brilhantes e dentes afiados. Não consigo tirar os olhos dele até que passo ao seu lado. Ele me encara e escuto claramente uma voz dentro da minha cabeça: “Você nunca mais sairá daqui”.

Ao voltar o rosto para frente, vejo a figura de meu pai me dando a mão para atravessar a rua. Estou com um sorvete enorme nas mãos. Ele sorri, abaixa e me dá um beijo.

A traseira do caminhão surge diante do carro tão rapidamente quanto a imagem de minha mãe aparece em minha mente. Ela tem nas mãos um bolo de aniversário. Meus 15 anos. Eu era o garoto mais querido da família.

Vejo o capô do Marea encontrando o pára-choque do caminhão. Os primeiros centímetros de aço se retorcendo, dobrando como papel, ao mesmo tempo em que me vejo sorrindo para meu irmão no dia em que me formei. Ele me abraçou e disse que eu era o melhor irmão do mundo e que estava muito orgulhoso de mim. Eu era um bom filho. Um bom irmão. Um excelente aluno.

Meus olhos arregalados agora estão vendo o pára-brisa chegando mais perto. Meu peito bate contra o volante. Minha namorada... Linda. Linda como nunca vi outra igual. Ela estava feliz. Sorria para mim no dia em que a pedi em casamento. Fizemos planos, começamos a guardar dinheiro para o futuro. Ela me amava demais... Mas não suportou ficar ao meu lado quando eu comecei a mudar.

Os estilhaços de vidros penetram em um dos meus olhos. Sinto o sangue escorrer quando me lembro do meu primeiro assalto. Eu estava nervoso e atirei no olho do rapaz que estava pegando o dinheiro na gaveta. Achei que ele estava pegando uma arma, mas ele não queria me fazer mal. E eu não queria matá-lo.

Minha cabeça volta com violência para trás, com a pancada do pára-choque do caminhão na minha testa e meu braço é rasgado pela ferragem da porta, que se dobra com o impacto. Lembro do dia em que a polícia deu batida na casa de uma vadia com quem comecei a sair depois que minha namorada me deixou. Eles entraram bem na hora que eu estava aplicando. A agulha rasgou minha veia e tive que ser levado para o hospital.

Minhas pernas estão sendo esmagadas pelo motor do carro e vejo meu pai chorando quando me expulsou de casa. Minha mãe dopada com tranqüilizantes enquanto eu espancava o irmão que tanto me amava. Eu só queria um pouco de dinheiro. Eu precisava comprar mais.

O pára-choque do caminhão virou uma lâmina gigante e meu pescoço está prestes a ser cortado. Estou vendo como tudo começou. Foi naquela festa na casa de um amigo. Eu estava dançando, me divertindo sem precisar de mais nada para tornar a noite melhor, mas a turma insistiu e eu acabei experimentando pela primeira vez.

De relance, consigo ver no retrovisor da porta, retorcido e virado para o meu lado, meu pescoço pendendo para o lado.

Minha vida se vai. Na verdade ela se foi muito antes desse dia. E agora vivo aqui nesse inferno... Aliás, vou tentar descrever como é meu inferno.

Aqui nessa banca de revista eu sempre paro para ler as notícias estampadas nas primeiras páginas dos jornais, mas nunca comprei sequer uma edição...

--
Marcelo Dias Amado é também conhecido como O Guardião do Estronho, pois ele é o criador e mantenedor do site Estronho e Esquésito.

terça-feira, setembro 06, 2005

Epitáfio

Camila Fernandes

A tarde é vermelha, pinta os campos e o lago de dourado e aquece o seu rosto que eu encontro a espreitar o meu. Tenho um espelho nas mãos. Encaro-me nele, investigo as rugas que já se insinuam. Mas não você; tudo o que vê em mim é jovem e fresco. Detrás de mim, me sussurra ao ouvido:

– Você é tão bela.

Belo é ter seus braços sobre meus ombros, agasalho humano, e seus dedos nos meus cabelos, o melhor dos pentes. Tudo é perfeito em nós.

– Não mude nunca.

E você se ergue no espreguiçar sossegado de quem sabe apenas gozar a vida. Mas eu tenho um espelho nas mãos. E nele o que vejo é a marcha invencível das décadas nublar de súbito tudo o que sou. Tudo o que você ama.

Serei velha um dia, amor. Quem há de querer uma velha?

Creio que o assusto quando atiro o espelho no lago. Sorrio e você pensa que é piada – o disfarce do meu desespero.

– Não mudarei, meu querido – e o que digo é uma jura.

Escurece, o campo é perigoso à noite, você tem também a sensação de que somos vigiados? São apenas as sombras das árvores. Recolhemos a toalha e a louça. Ainda sinto o gosto da torta de amoras no seu último beijo à minha porta. Mais um chá sob a macieira domingo que vem? Até domingo, então; você pode esperar, mas eu não.

Eu serei velha.

No espelho do meu quarto, já sou. O preto dos cabelos desbota para o branco, a pele escorre cinza sobre os ossos e os olhos brilham ainda, mas no fundo de duas covas cavadas no meu rosto pela mão do tempo. O tempo maldito.

Cubro o espelho com um lençol. Não quero um cadáver a me encarar a noite toda. Fito minhas mãos: ainda são as de uma moça. Suspiro, por hora livre do meu pesadelo desperto. Mas não durmo, pensando no amor, que é caro, no medo, que é grande, e na decadência, que é certa.

Entretanto, é manhã, e eu me levanto sem ter sonhado. Passar o dia a bordar e coser ou respirar na praça; não, quero estar de pijama, acorrentada à escrivaninha, papel e tinta diante de mim numa sentença que cumpro em versos. Amanhã, levá-los ao editor. No jornal sempre há espaço para a minha poesia.

Sento-me. Sirvo-me de chá verde. Papéis novos sobre a mesa. Uma carta. Do meu amor? Não há remetente, endereço ou mesmo perfume. Abrindo-a, desdobro uma nota escrita por mão pesada, inábil, agressiva:

Deseja ser jovem para sempre?

Eu concedo esse desejo.

Hoje, na esquina da Rua do Poço com a do Alfaiate, à meia-noite.

Venha só. Não terá outra oportunidade.

Não assina.

Meu coração quer me arrebentar o peito, bate furioso, tremem-me as pernas como as de uma debutante apaixonada. Apaixonada pelo quê? Uma possibilidade, um sonho... uma mentira?

Mando vir mais chá. Que seja egípcio: karkadeh me distrai por ser vermelho como sangue. Não quero almoço. Passo o dia a mordiscar biscoitos. Mais alguns versos e estarei curada.

Deseja ser jovem para sempre?

Mas nada sai da minha pena. Suponho espetá-la no braço e daí fazer brotar boas quadras, honestas e intensas, mas tenho medo da cicatriz. Quem sabe uma anedota hoje em lugar de um soneto.

Eu concedo esse desejo.

Logo estou bebendo aguardente da garrafa que mora debaixo da cama. Esqueço depressa o copo, beijo o gargalo, amante de vidro. A carta não tem nome, mas tem olhos, espia-me de lado, afronta-me...

Hoje, na esquina da Rua do Poço com a do Alfaiate, à meia-noite.

Apanho-a, envelope e tudo, amasso-a no punho fechado, atiro-a longe. Mas ela ainda existe dentro do meu escritório, num canto de parede, num canto de memória:

Venha só. Não terá outra oportunidade.

Chega a noite e eu tomei minha decisão. Lavo as olheiras, tenho um vestido discreto, o cinza não chama atenção à noite. Um xale nos ombros.

Levo meia hora a pé até a Rua do Poço. Conheço tão mal a cidade. O frio, a escuridão, o silêncio, tudo sacode meu corpo em calafrios progressivos. Este é um lugar solitário, cama dos desvalidos, parque dos delinqüentes. Estou só e é tarde. Sou louca por ter vindo. Sou louca, não resta dúvida; mereço ao menos recompensa pelo meu atrevimento.

Por isso, avanço para a esquina onde já me espera o remetente.

A dois metros dele eu me detenho. O homem é calvo, nem tão velho para o ser pela idade, a cabeça enterrada no corpo muito magro – demais, talvez, para pensar em me fazer mal. Parece tão frágil nas pernas longas e finas, nas costas arqueadas. Sinto pena do seu corpo. Mas tenho medo da sua face – não consigo vê-la assim tão longe do poste mais próximo.

– Eu vim – digo-lhe. – Por isso, fale: o que pode me oferecer?

Agora é ele quem se adianta, o lampião de gás revela no seu rosto uma testa fechada, um nariz de abutre e uns olhos sem cor, duros como a vida. A boca é um rasgo cruel na face cor de cera, que se abre para responder:

– Tudo.

Ele é tão... feio. Sinto pena e algum nojo; recuo e não desisto.

– E qual é o seu preço?

Agora ele apenas me sorri. Meu coração quer fugir pela boca. Seu sorriso é horrível como só a morte. Seus dentes são amarelos, terminam em punhais, punhais em toda a sua boca, dentes em ponta como os de um cão, de uma serpente, de um tubarão, ou todos juntos. E todos juntos avançam para mim.

Eu...

Eu tenho um sonho, amor, no qual você é triste. O dia é nublado, como poderia ser de sol? Eu me deito numa cama de cetim. Estou no meu vestido azul, aquele que eu deveria usar nas missas. Chovem rosas sobre o meu corpo, lentas como as horas de espera por você. Não nos veríamos só no domingo?

Você me atira uma flor. Tudo é tão devagar. O tempo já não passa em meu leito macio. Venha deitar-se comigo... Mas você se vira, dá-me as costas, caminha para longe. E tudo se torna chuva.

Meus olhos se abrem vagarosos. Silêncio. Escuridão. Meus dedos tateiam paredes muito estreitas.

Entendo...

Meu caixão é forrado de cetim.

"Epitáfio" narra acontecimentos que precedem o conto "Lápide", escrito há mais de um ano e já exaustivamente divulgado em listas de discussão e sites de contos. Ambos os contos podem ser lidos e compreendidos independentemente, mas a leitura de ambos traz maior aproveitamento.