quarta-feira, agosto 31, 2005

Abutres

Alexandre Heredia

— Como está a contagem?

— É o quinto esse mês.

— Alguma testemunha?

— Ninguém viu nada. E os chefões não se manifestaram.

— Peixe pequeno. Fácil de substituir. Vai pras estatísticas.

— Vale a matéria?

— Só nota em página interna. Guerra do tráfico, coisa e tal. Ninguém mais se incomoda com isso o suficiente para virar matéria de capa.

— Mas cinco? Parece coisa de assassino serial...

— Sai do cinema, cara. Isso aqui é execução, pura e simples. Bandido matando bandido.

— Os caras tavam sequinhos. Parece mais coisa de ritual satânico.

— Tá, enquanto você fica aí inventando história, eu tenho mais o que fazer. Ali, ó, o sargento vai fazer um comunicado...

...

A sensação está piorando. Não tem mais volta. Pensava que podia controlar a dor, mas agora ela se tornou constante, parte de minha vida.

Saudades de minhas cólicas de fome. Quisera eu o sangue ainda pudesse resolver essa angústia, mas infelizmente ele se tornou apenas um veículo para meu vício. Um transporte para o que realmente importa.

Estou abusando de minha sorte...

...

— Mais um?

— Arrã. Igual aos outros. Seco que nem uva passa.

— O espaço entre as mortes está diminuindo. O cara tá querendo ser pego.

— Então você assume que pode ser um assassino serial?

— Fazer o quê? Dei uma avaliada nos outros casos, e tem um padrão. Sempre de noite, e sempre em viciados. Dois "aviões", e três usuários. Esse último deve ser um desses também.

— Como você conseguiu o relatório da polícia?

— Tenho meus contatos. Acho que agora já dá pra fazer uma matéria legal. E a TV, já apareceu?

— Já, e já marquei o encontro. Tem certeza disso? O pessoal da redação vai ficar uma arara...

— Cuida da tua vida, cara. Esse lance vai fazer a gente tirar o pé da jaca.

...

Queria poder sair durante o dia, mas não dá pra arriscar. Os caras tão ficando espertos. Daqui a pouco vai ficar perigoso demais para sair.

Queria só que não doesse tanto. Maldita noite que eu deixei aquele cara me enrolar. Agora tô aqui, preso nesse barraco imundo, me remoendo de dor, incapaz até mesmo de sair na luz do dia.

Maldita insônia. Não estou conseguindo mais pensar direito.

Mal posso esperar pelo pôr do sol.

...

— Dois? Na mesma noite?

— É. O negócio ficou feio. Como tá a divulgação?

— Tá fraca ainda. Ninguém se interessa mais com esse tipo de história. Alguma novidade dessa vez?

— Só o fato de que um dos presuntos tava limpo. Talvez fosse apenas uma testemunha, e acabou rodando junto.

— Ou o cara tá se descontrolando de vez, e perdendo as estribeiras. Li isso num livro. Chega uma hora que eles começam a contrariar as próprias regras. Faz um favor pra mim: verifica se o presunto limpo também ficou seco.

— Por quê?

— Sei lá, um palpite.

...

Beleza, agora você se superou.

Aquele moleque não podia ser da favela. Roupa fina, cabelo arrumado, carteira cheia de grana. Cacete, você matou a porra dum playboy!

Mas o cheiro era tão doce! O bagulho circulando em seu sangue era tão suave, e ao mesmo tempo tão forte. Coisa fina, não a porcaria que vendem normalmente. Cliente classe A. Bem diferente do traficante que estava com ele. Coisa nojenta, fedorenta, entupido de erva junto com o brilho. Quase vomitei.

Eu tinha que me livrar dos corpos, mas tava tão chapado que nem me importei. Cacete, isso ainda vai me matar.

...

— Agora o bicho pegou. Quem era o cara?

— Filho de deputado. Da direita.

— E o outro?

— Peixe grande. A favela tá cercada. Ouvi por aí que o exército pode interferir. O comércio fechou antes mesmo que ameaçassem.

— Tá todo mundo aqui?

— Tá. Rádio, TV, jornal, revista... Acabou a exclusividade. O cara conseguiu chamar a atenção, finalmente.

— Morreu pela boca. Foi matar filho de político e traficante. Comprou guerra com o mundo inteiro.

— Tão te chamando. Acho que vão entrar ao vivo.

...

Não posso me mexer! Pára de tremer! Cacete, os caras tão aqui dentro. Pára de tremer! Porcaria de bagulho ruim. Preciso de um negócio do bom, ou então vou pirar. Mas com os caras aqui dentro não rola.

Pára de tremer!

...

— Tem mais um. Encontraram num barraco. Mesma coisa, mas dessa vez o cara retalhou o coitado inteiro.

— Porra, quantos helicópteros tem na área?

— Contei seis, mas só um era da polícia.

— Com licença...

— Pois não, senhora?

— Você é da TV, não é? Olha, toma aqui a foto de meu filho. Foi ele que mataram no outro dia. Era um rapaz trabalhador, tava estudando. Queria ser doutor. Será que dá pra divulgar? Estão dizendo por aí que ele era tão viciado quanto os outros, mas meu filho não era assim, não. Era um rapaz direito.

— Quem é?

— É o presunto limpo. Pode deixar, senhora. A gente divulga.

— Deus lhe pague, meu filho.

— Joga isso junto com o resto. Se a gente precisar dar uma carga dramática na matéria, pode ser uma boa.

...

Não dá mais! Esses filhos da puta não saem daqui! Parece que eu engoli desinfetante! Dá pra sentir o cheiro do suor deles, e isso tá me deixando doido. Tem um deles que tá no ponto. É só um traço, talvez o cara tivesse tomado só umas bolinhas pra ficar esperto. Não era o ideal, mas já dava pra segurar as pontas mais umas horas, até a barra limpar. Mas os caras não saem daqui, e não dá pra enfrentar todo mundo. Os caras tão bem armados.

Polícia do caralho! Deviam me agradecer por fazer o trabalho deles.

...

— O que foi isso?

— Tiros. Parece AK-47.

— Putz, que ouvido, hein? Tá vendo de onde vieram?

— Não, mas com certeza os traficantes se impacientaram com tanto policial rondando. Agora o bicho pega pra valer.

...

O que é isso? Os caras foram embora? Foram, finalmente posso sair. Ainda bem, já não aguentava mais. Tá doendo pra diabo. Mas péra aí, o que é isso? Caramba, tá uma guerra lá fora. Acho melhor ficar mais um tempo aqui.

Só pra ter certeza...

...

— Pegaram o cara?

— Parece que sim. Acho que ele se entregou.

— Se entregou ou entregaram ele? Os traficantes se acalmaram, e se fosse um deles o bagulho ia virar guerra declarada. Cadê o cara?

— Já levaram. O câmera pegou quando colocaram ele no camburão, e vai pro ar no jornal da noite. Tão te chamando pra fazer a locução.

— Essa história tá mal contada. Qual era o nome dele?

— Tão averiguando, mas era um João Ninguém. Tipo comum, mulato, cara de bandido, gorro do Flamengo...

— Cara, descobre o nome dele. E rápido, que preciso gravar a chamada em quinze minutos!

— Tá, tá, calma...

...

Preciso sair daqui. O morro já deu o que tinha que dar. Se eu ficar mais tempo, com certeza vão me pegar. Tudo bem, o que não falta nessa cidade é viciado, posso ir pra outro morro na boa.

Mas preciso aprender de uma vez por todas a me controlar. Cacete, dessa vez eu quase rodei bonito. Fica no povão, cara, que ninguém vai se importar. Mata uma porra de um playboy e o bagulho vira esse fuzuê.

Fica no povão, cara.

...

— E aí, ficou bom?

— Ficou. Agora junta tuas coisas e vamos sair daqui.

— O que rolou agora?

— Jogador de futebol. Jogou a namorada da janela. Tá todo mundo indo pra lá. Junta tudo, e vamos logo!

terça-feira, agosto 30, 2005

Fotos do Opus Industry

Aqui vão algumas fotos tiradas no evento Opus Industry, que aconteceu na sexta-feira passada, dia 26 de agosto, em Guarulhos:

Image hosted by Photobucket.com

Da esquerda para a direita, Gian Celli, Alexandre Heredia, Richard Diegues e Camila Fernandes. Faltou apenas Giorgio Cappelli.

Image hosted by Photobucket.com

Alexandre, Gian, DJ Shindo, Richard e Camila.

Image hosted by Photobucket.com

DJ Shindo exibe seu exemplar do NecroZine, com os Necroautores ao fundo.

terça-feira, agosto 23, 2005

Piada Imortal

© Gianpaolo Celli

Convencida e pedante, pensou Fausto, sorrindo, como os predadores!

Apesar da escuridão reinante, ele percebera, com o rabo do olho, o movimento estranho nas árvores do parque. Mesmo assim continou onde estava, como se ignorasse a vampira que se aproximava. Só quando o ar vibrou junto às suas costas que ele se moveu, fazendo com que o ataque dela atingisse o ar.

– Ridículo! – exclamou ele que, num só movimento havia se curvado, fazendo as garras passarem acima de sua cabeça, e virado nos calcanhares, se voltando contra a oponente. Mas ela era rápida, abaixou-se e, sibilando como um felino, saltou contra Fausto com garras e presas a mostra, num bote mortal.


Fausto, entretanto, já esperava tal movimento. As garras não conseguiram atravessar o colete blindado que ele usava por debaixo do pulôver e as presas morderam o ar. O mesmo, entretanto, não se pode dizer da estaca que ele sacou do bolso. Do ombro ele contou mentalmente as costelas e jogou seu braço exatamente como havia treinado. A ponta metálica penetrou facilmente na pele alva da vampira e em segundos a madeira chegava ao coração, empalando-o.

– Convencida! – repetiu ele, o que já havia pensado, enquanto saía debaixo da vampira que jazia, imobilizada, no chão. – Tão facil de capturar! – sorriu ele, para a vampira imobilizada. – Não... não se espante! Eu não sou um qualquer... sou um estudioso do oculto, um caçador de fantasmas, matador de monstros. Um vampiro, você, era exatamente o próximo passo em minha carreira.


Já passava da meia-noite e a lua cheia já surgia em meio aos prédios da capital. O parque já estava fechado há algum tempo, vazio a não ser pelos gatos perdidos, mendigos dormindo e os dois oponentes. – Você não foi cuidadosa, deixou rastros... Até os jornais populares falaram de seus ataques, falando de vampiros sem saber o quanto haviam acertado. – comentou, sarcástico, enquanto colocava no chão o que tinha nos grandes bolsos, o crucifixo, a água benta, outra estaca... – Eu mesmo cheguei a caminhar pelos locais dos ataques enquanto lia e relia meu material sobre vampiros. Presenciei seu último ataque...

– Muito bom! – comentou uma voz melodiosa e feminina.


– Quem está ai? – gritou Fausto, olhando para as sombras que o rodeavam.


– Eu realmente estou impressionada! – continuou a vampira, para o total espanto de Fausto. – Eu só vejo um erro em tudo isso...


– V-você deveria estar imobilizada, – gaguejou o caçador. – não poderia falar...

– Eu sei! Nem me levantar... – sorriu ela, levantando e tirando a estaca de seu peito. – Você realmente acha que a estaca faria algo? Meu coração está morto!


– É impossível! – argumentou um atônito Fausto enquanto chutava a água-benta na vampira, aproveitando para pegar a cruz do chão e tirar a cabeça de alho que tinha prendido em sua corrente.


Apesar de molhada, a vampira não queimou, não tentou fugir, não se protegeu, só continuou lá, parada. – Água-benta, uma cruz, alho... – sorriu ela, desdenhosa. – quem você acha que escreveu essas besteiras sobre caçar vampiros? Ou você acha que eu realmente preciso sibilar durante um ataque para mostrar superioridade? É tudo teatro, uma grande piada!


Fausto, entretanto, não respondeu. Nem podia na verdade, pois antes do coração, a estaca que antes estava nas mãos da vampira, passara por seu pulmão, e de sua boca só saia agora uma espuma rubra e sanguinolenta.





terça-feira, agosto 16, 2005

Convite: Opus Industry

Mortais,

Os NecroAutores os convidam para o evento Opus Industry, organizado pela Opus Nocturne, no dia 26 de agosto, em Guarulhos. Muita discotecagem, telão com vídeos e, claro, o NecroZine sendo distribuído gratuitamente.

Vejam mais detalhes no flyer abaixo:

Image hosted by Photobucket.com

quarta-feira, agosto 10, 2005

A boa senhora de Covent Garden

© Camila Fernandes

Vida boa era a de Molly Horn naqueles dias. Com os cabelos de um dourado flamejante (“sim, querida, a cor é natural”) e a pele sedosa que só Deus podia dar a uma moça, ela ganhava mais do que a maior parte das colegas de profissão.

As outras eram quase sempre criadas, costureiras e vendedoras humildes que à noite compravam o leite de suas crianças com o suor de seus corpos. Molly era prostituta em tempo integral. Ainda menina, deixara a casa dos pais com um rapaz de quem carregava um filho. Perdera a ambos e desde então preferia não depender senão dos homens vitimados pelo mais perigoso dos vícios, a mulher.

A verdade é que adorava aquele trabalho que para outras era tão penoso. Ostentava um sorriso genuíno ao sair à caça do primeiro freguês da noite. Exceto pelos que tinham o hábito de estapear a mulher enquanto a fodiam, tipos que ela procurava evitar, gostava dos altos, dos baixos, dos barbados, dos calvos, dos esguios e até dos obesos.

Um dia, compraria uma bela casa e a encheria de ninfas como ela. Receberia apenas lordes em lençóis de brocado e ganharia com o labor de outras senhoritas, como já faziam diversas cafetinas famosas ali mesmo, em Londres. Mas mal completara dezoito anos. Ainda precisaria poupar muito dinheiro até pensar concretamente nisso. Hoje, tinha uma missão diferente.

Havia abandonado o trabalho nas ruas para passar suas noites no clube. Aberto em 1760, apenas um ano depois já era um dos locais mais entupidos da zona boêmia. Lá, além de trabalhar, entregava-se à dança frenética que imitava muito mal as valsas das cortes européias. Se a clientela estivesse fraca, ao menos divertia-se. Mas, com o novo serviço que vinha executando, o lucro da noite era garantido.

Na entrada do antigo casarão, cumprimentou o porteiro bêbado que lhe pregou um beliscão no traseiro. Molly amava os bêbados. Eram tão fáceis de contentar. Prometeu-lhe um carinho para mais tarde.

Lá dentro, acenou para cocheiros, pescadores, feirantes, vendedores, estivadores e criados que imitavam a aristocracia numa escala menos requintada. Rompeu uma corrente de pessoas que serpenteava pelo salão e tropeçou num dos muitos casais que, sem meios de pagar pelos quartos no andar de cima, saciava sua luxúria no chão. Recusou os parceiros de dança velhos e embriagados. Precisava de um homem vigoroso, a quem o vinho barato ainda não tivesse tornado lânguido demais.

Encontrou um rapaz forte e bem-vestido. Armada de sorrisos, Molly o tomou pelo braço. Ele hesitou antes de ir. Provavelmente, era um sujeito discreto a quem algum grupo de amigos marginais arrastara para aquele antro. Mas ela era bonita o suficiente para que ele dispensasse seus princípios.

No meio do salão, girou com ele na ponta dos pés para que seus lábios alcançassem a orelha do rapaz, onde depositou uma série de insinuações, logo palavras chulas e por fim promessas indecentes. No volume que crescia sob suas roupas ela percebeu que o ganhara.

Ele não demorou a empurrá-la para um canto. Encostou-a contra a parede, afogando o rosto no seu pescoço, esfregando a barba de dois dias nos seios arfantes que saltavam, esferas brancas no decote do vestido azul.

– Você deveria se sentir lisonjeada – murmurou ele, presunçoso.

– Por quê? – ela sorriu, provocativa. – A meu ver a honra é toda sua. Não sabe que fui citada na Lista de Harris*? Estou entre as mais cobiçadas de Covent Garden.

– É só uma puta de rua. Não deve ser toda noite que atende a um homem da minha classe.

Uma gargalhada estridente rasgou a boca dela.

– Francamente, cavalheiro. É como se eu não percebesse que esse casaco é apertado demais para o senhor porque o tomou emprestado ao seu patrão, decerto às escondidas. Não passa de um criado!

Um tapa estalou no rosto da garota. A audácia a tornara imprudente. Olhou-o por alguns segundos, tentando compreender se aquilo era parte do jogo ou mostra de poder. Por fim, acertou-o também – e foi um tabefe fenomenal para uma mão tão delicada.

– Então você quer brincar! – Ele avançou contra ela, que entre risos infantis tentou escapar-lhe. Mas o rapaz a fez gritar quando a apanhou abaixo dos quadris e a levantou como um fardo por sobre os ombros.

– Vamos para um quarto – disse.

­– Não, para que pagar um quarto quando podemos ir para a minha casa? Eu tenho rapé e absinto. Você gosta, não gosta?

Ele a pôs de volta no chão.

– Só não sei se gosto do quanto isso vai me custar.

– Olhe bem para si mesmo, garanhão. Você tem razão. Não tenho homens como você todos os dias. – E disse lambendo-lhe a orelha: – Não vai lhe custar um penny.

Causou nele uma risada cheia de expectativa. Molly era astuta. Sabia polir o brio de um rapaz. Arrastou-o consigo, braços dados, pelas ruas da cidade tomada pela neblina. Não vivia tão longe do clube. Ali mesmo, em Covent Garden, numa casa pequena e limpa.

Lá dentro era quente. O cliente apressou-se em remover o casaco apertado. Começou a desatar o laço da gravata e a mão gentil da moça o deteve.

– Não se apresse – ciciou. – Temos a noite toda. Vou lhe trazer uma bebida.

– Absinto francês – brincou ele.

Molly entrou no que parecia ser uma minúscula dispensa e fechou a porta atrás de si. O rapaz jogou-se na cama, que rangeu queixosamente com seu peso. Dois lampiões no recinto, um sobre a cômoda e outro num caixote junto à cama. Apagou o mais próximo. Talvez Molly dançasse para ele em pêlo – seria mais bonito na penumbra.

Ela demorava a voltar. Ele fitava a dispensa, impaciente. Até que a porta começou a ceder. Ele se ergueu nos cotovelos, ia sorrir; desistiu. Não podia diante da coisa que invadiu sua visão.

Coisa. Curvada como se sob o peso do mundo, coberta de negro, uns cabelos cinzentos escapando pela orla do capuz. Arrastou-se lentamente quarto adentro. O rapaz pulou da cama, sem saber a razão do próprio medo.

Duas mãos de velha surgiram da massa negra e ergueram o manto. Revelou-se uma face abominável, rasgada pelas rugas de muitos anos, sombreada de ódio e virulência.

O homem juntou forças para balbuciar:

– Quem é você, velha?

– Eu – falou aquela voz gutural que seria a de um túmulo se vozes os túmulos tivessem – sou aquela que você irá saciar.

A velha se aproximou, lenta, inexorável, como se inconsciente da própria fragilidade. Da mesma forma o rapaz forte, num pânico instintivo, recuou, seu corpo trombando contra a cômoda, sua mão trêmula derrubando o último lampião, que se quebrou, e tudo foi escuridão.

Na agilidade imprevista de um felino a criatura atirou-se sobre ele. Foram ao chão. Uma boca de lábios comidos pela idade colou-se a outra muito mais jovem e cheia de vida. Pela fresta da porta entreaberta veio uma outra lanterna, seguida pelo rosto da madalena, que espiava, morbidamente dominada pela curiosidade que nunca a deixava perder aquelas cenas. Aqueles espetáculos. A pequena figura da anciã dominando, como o grilhão ao escravo, o vigor dos melhores homens. Braços e pernas agitando-se em vão. A língua seca penetrando a garganta úmida. O som profundo, abafado pelos lábios colados, de ossos quebrados no caminho da fome, órgãos triturados, fluídos sugados, engolidos, aproveitados como nunca outro predador aproveitou a carne da presa. Nem uma única gota de sangue se perdia. Fácil limpar depois. Inevitável olhar na hora.

Poucos minutos de violência e um corpo antes forte, agora murcho, jazia no chão como uma criança vitimada pela fome. E a velha se ergueu. Algo estalou e a corcunda deu lugar a um dorso ereto. De dentro do negro uma mão já não senil estendeu-se de lado.

Molly apanhou da cômoda um espelho e o entregou à mão pedinte. Sem mais tardar, vestiu as luvas de couro da primeira gaveta – não poria os dedos nus no que não conhecia. Tirou da dispensa um saco de pano grosso e começou a enchê-lo com o que restara de um homem no seu piso. O Tâmisa comeria o resto.

A velha não notava os gestos febris, ocupada em admirar a própria face no espelho que sustinha como um troféu. Baixou todo o capuz e sacudiu languidamente os longos cabelos, agora quase inteiramente negros. De um bolso, tirou cinco das grandes moedas de ouro estrangeiras que Molly aprendera a cobiçar. Foram jogadas no chão com desprezo e recolhidas pela jovem.

Quando voltou-se, a velha já não era quem fora. Uma mulher madura, de traços finos e olhos solenes, fitou a prostituta. E numa voz firme, disse:

– Eu gosto do seu trabalho. Você gosta do meu?

– Gosto do meu pagamento – murmurou a jovem prostituta. – Ainda acho que é uma bruxa e que guarda as almas enfeitiçadas desses rapazes no seu bolso.

Uma gargalhada quase cristalina brotou de sua garganta.

– Suas almas não me interessam. Seu sangue é que corre nas minhas veias e seus corações batem mais forte no meu.

– Como quiser, minha senhora.

Molly amarrou forte a boca do saco. A mulher encarava o próprio rosto.

– Eu sou bela?

– Agora, é, senhora.

– Mas ainda falta muito para eu ser perfeita.

– A cada noite a senhora rejuvenesce diante dos meus olhos. Logo não precisará mais da minha ajuda. Quantas mortes ainda serão necessárias?

A mulher se aproximou da jovem. Fitou-a demoradamente. Provocou-lhe um sorriso encabulado ao tocar-lhe no rosto. Sua mão era quente. Segurou com firmeza o queixo da menina entre o indicador e o polegar, apertando-lhe de leve o lábio com a unha longa. E murmurou:

– Só mais uma, querida Molly Horn.


*A Lista de Harris das Damas de Covent Garden era uma publicação anual criada em 1757 por John Harrison sob o pseudônimo de Jack Harris. A lista descrevia em detalhes os atrativos e façanhas das prostitutas mais famosas de Covent Garden, bairro tradicionalmente boêmio de Londres.

sexta-feira, agosto 05, 2005

Maldito fruto em vosso ventre

Giorgio Cappelli


Quando começaram a surgir na cidade vários cadáveres trucidados em poças vermelhas, o governo municipal, como sempre, respondeu com solene apatia. Até encontrar, somada à lista de vítimas, alguém bastante próximo ao prefeito: sua filha.

O sangue ainda quente pelas emoções e as lágrimas ainda a rolar, certas promessas de campanha se concretizaram. A segurança pública ganhou mais verbas. Mobilizaram-se os melhores agentes da Polícia Federal. Evidências se empilhavam de um lado e os mortos do outro. Nenhum resultado palpável, embora o prefeito houvesse levado o caso à esfera pessoal.

Pois, certo dia, enquanto o governante acompanhava pessoalmente uma das investigações, cercado pela imprensa e por populares, dirigiu-lhe a palavra um sujeito mirrado, cara de sono, beiço inferior proeminente, narigudo, terno marrom e jeito de cidadão britânico.

– Senhor prefeito, eu sei como resolver o mistério dos assassinatos.

Tinha uma voz grossa demais, que não combinava com o tipo físico.

– Marque com minha secretária um horário. – retornou o prefeito.

– Eu posso localizar o lobisomem. – afirmou o nanico.

Ao mesmo tempo em que o prefeito deteve-se no meio do passo, seu interlocutor sorriu discretamente, sem abandonar o ar blasé. Os dois se fitaram.

Depois de coçar a calva, o prefeito pediu a um dos seguranças que escoltasse o homem até o automóvel oficial. Menos de dez minutos depois, apareceu, entrou no veículo e pediu ao motorista que partisse. Antes que o motor roncasse, já perguntara pelo nome do outro.

– Faséolo Vigna.

– Senhor Vigna... – o prefeito não escondia a ansiedade – Ninguém além da polícia técnica sabe com o que estamos lidando. Nenhuma informação nesse sentido vazou à imprensa. Quem foi que contou ao senhor sobre o lobisomem?

– Ninguém. Tenho experiência. Minha família é do ramo. Meu bisavô, em Joanópolis, era especialista em localizar e matar lobisomens. Eles sabem esconder seu rastro. Cães farejadores não encontram essa fera: seu cheiro muda da forma humana para a de monstro. A perícia se confunde porque seus pêlos não são nem de animal, nem de homem. A única coisa que os mata é a prata, com o perdão da rima.

– Eu pago o que o senhor pedir para matar esse assassino, seu Vigna!

– Um cargo de suplente em que eu compareça somente no dia do pagamento me basta.

Menos de quarenta e oito horas mais tarde o detetive teve acesso ao material coletado pela polícia técnica e deu seu parecer ao prefeito, por telefone.

– Não sei o nome do assassino, nem a aparência. Porém, descobri onde ele trabalha e os locais onde possivelmente almoça. Vou precisar apenas que o senhor interceda junto à Secretaria da Saúde.

Às duas e meia o Resgate Público atendia ao chamado de um escritório cuja funcionária contorcia-se em espasmos. Dentro da ambulância, aguardava-a Faséolo Vigna.

– Até eu estou surpreso. Uma mulher! – disse ele, com sua voz grossa. E continuou para o motorista de traços orientais – Kato, podemos ir.

– Como o senhor conseguiu? – indagou Kato. Sobre a maca, a lobismulher retorcia-se em sofrimento e agonia.

– Demos a ela um lanchinho que lobisomem nenhum pode comer e sobreviver.

– Mas o quê? – insistia o motorista.

O detetive sorriu, já pensando no carro novo que ia comprar com sua recompensa e respondeu ao chinês curioso:

– Banana-prata.

terça-feira, agosto 02, 2005

A Nona Bala

Richard Diegues


O carro cantou pneus na curva fechada. Rabeou duas vezes para cada lado e estabilizou. Eu fingia que nem ligava. Na verdade, creio que não ligava mesmo. Estava muito ocupada. Não sei como Arnaldo conseguia dirigir, mas eu não me acanhava, aproveitava os buracos e solavancos pra deixar que fosse mais fundo em minha garganta. Enquanto eu curtia, ele dirigia. Duas curvas mais e acabou. Enquanto eu engolia e saboreava, o carro diminuía a velocidade até parar. Ergui-me e me recostei no banco de couro. O motor parou. Ele fechou o zíper e tirou os óculos escuros, jogando sobre o console do carro.

– Bonita fivela! – Falei referindo-me ao cinto que ele usava, roubado de um delegado, observando o volume que baixava exausto sobre o jeans puído.

– Belo coldre, doutora! – Respondeu olhando pra pistola, igualmente roubada, que eu deixara largada, entre minhas pernas.

Acompanhei seu olhar que navegava entre minhas coxas e a barra da minha saia, a menos de um centímetro de onde normalmente estaria minha calcinha. Estaria. Esqueci-a na sala de interrogatórios, onde ele a arrancou e deixou largada ao lado da cadeira enquanto transávamos.

Com um sorriso safado, se inclinou sobre mim, roçando a barba por fazer em meu queixo, beijando e arranhando gostoso. A mão ágil deslizava na pele quente de minhas coxas. Lá estava eu, novamente entregue. Lasciva. Dele.

Ouvi o clique da porta sendo aberta e ele descolou o corpo do meu, tomando o cuidado de roçar o dedo em meu sexo, como um afago gentil, mas extremamente erótico. Inclinando-se, saltou pra poeira da estrada.

Se eu o deixasse partir perderia tudo. Minha carreira havia descido pelo ralo no momento em que matamos todos na delegacia e eu o ajudei a fugir. Eu não queria fazer isso, mas tinham descoberto tudo sobre ele. Iriam fazer a transferência dele pra outro lugar. Eu nunca mais o veria. Nunca mais teria aquele corpo insaciável sobre o meu. Dentro do meu. Desci do carro com a arma em punho. Era uma Colt Wilson, eu usei oito balas, restava apenas o nono tiro.

– Não posso te deixar partir, Arnaldo – disse tentando manter a voz firme.

– Você pode vir comigo, Ofélia, eu já disse. Não pretende me matar, não é? – Disse olhando para meus seios que praticamente saltavam da blusa desabotoada. – Então baixe esta arma. Vamos lá, doutora...

Os passos mansos. Passos de felino. Estudados e astutos. Tinha esquecido como o desgraçado era charmoso até no andar. Passo a passo foi se aproximando de mim e com um dedo, afastou a arma que eu apontava para o lado. Deixei-a cair. O abraço foi firme, um tranco apenas e sua língua passeava em mim. Girando-me em seus braços, senti seus dentes em minha nuca, enquanto com as mãos erguia a minha saia e me curvava. Seu peso sobre mim me enlouquecia e quando reparei, já estava novamente entregue, sentindo os bicos duros de meus seios roçando no capô ainda quente do carro. Não tão quente quanto às coxas dele que batiam ritmadas nas minhas. Suas mãos me apertavam forte nas nádegas. Bom. Ótimo. Como eu gosto. O maldito sabia o que fazia.

Enquanto minhas entranhas ferviam e eu tremia, tomada pela excitação, lembrei onde tudo começou. Foi quando entrei na sala de interrogatórios com a prancheta na mão, fingindo ler algo, antes de largá-la sobre a mesa. Ato estudado de minha parte. Sempre funcionava.

– Você é um incubo, então? Um demônio? – Perguntei encarando-o.

– Pra você, sim. – Ele respondeu, inclinando-se e sorrindo, língua nos dentes, olhos estreitando-se. Ato estudado de sua parte. Devia funcionar sempre. – Quer que eu prove?

Desafio aceito. Cometi o erro de ficar a sós com ele. Bastaram vinte minutos para que nos beijássemos. Na segunda seção em menos do que isso estávamos sobre a mesa como dois animais. Durante uma semana eu me entreguei diariamente dentro da própria delegacia. Esqueci de avaliar seu estado mental. Havia sido preso porque transava com a mulher do delegado, não era nada demais, não fosse o fato do mesmo alegar que o homem era um incubo. Ignorei o registro e tratei de avaliar apenas sua aptidão sexual. Estava ensandecida. Louca. Mulher. Em breve daria meu parecer e ele pagaria a fiança. Transaríamos em minha cama. Meu outro erro foi dizer isso a ele.

Na mesma noite fui acordada pelo peso de Arnaldo. Mal abri os olhos, senti a penetração. O reconheci de imediato e relaxei. Não me importava se havia fugido ou sido libertado. Só importava o prazer. No dia seguinte eu estava esgotada. Foram seis noites assim. Na sétima a campainha tocou no meio da noite, durante uma transa perfeita. Com muito esforço deixei meu amante de lado e fui atender a porta. Era o delegado. Queria meu parecer sobre o caso. Perguntei o motivo, tendo em vista que estava encerrado, uma vez que Arnaldo havia sido libertado. O delegado me garantiu que nada havia mudado. Ele ainda mantinha Arnaldo preso. O susto fora maior que o pudor. Contei-lhe que era impossível, pois estava em meu quarto. Empurrando-me de lado, invadiu meu apartamento e para nossa surpresa, eu estava só.

Quando chegamos à delegacia e encarei o homem com o qual eu transava a pouco na cela, comecei a acreditar que lidava com um demônio. Já o delegado teve certeza, sacando sua arma e apontando-a para Arnaldo. Se eu não o golpeasse com uma cadeira, certamente teria disparado.

O resto se torna óbvio. Soltei-o e pegamos os guardas de surpresa. Foi um massacre. Roubamos um carro e fugimos. Agora estou aqui.

Urrando de prazer, quebrei uma unha ao arranhar a pintura do carro e ele fincou os dedos em meus quadris, mexendo-se com força e por fim reclinando-se sobre mim. Ficamos vários minutos respirando e nos acalmando. Por fim nos separamos levemente e me virei, ficando de frente para ele. Lentamente ele se afastou e seguiu pela estrada sem nada dizer.

Dei-me conta de que era impossível deixá-lo partir. Olhei para a arma, pensei na nona bala e desisti da idéia, deixando-a de lado e correndo atrás dele. De que me adiantaria o céu se já perdera a alma para ele?