quarta-feira, julho 20, 2005

Uma Noite Infernal

© Gianpaolo Celli

O som cadenciado dos passos calmos causava-lhe calafrios. Ela queria continuar correndo, mas sabia que aquilo não levaria a nada. Sabia que a viela onde estava, a parte de trás da casa de shows onde se apresentara aquela noite, continuaria por duas ou três quadras antes de chegar a uma rua iluminada e mesmo os poucos metros que conseguira correr deixaram-na arfando sofregamente.
– O que você quer de mim?! – gritou, percebendo o movimento das sombras às suas costas e amaldiçoando tudo o que aprendera a amar. O salto agulha que deixava suas performances tão sensuais agora fazia de cada passo uma tortura; o corselete que afilava suas formas, transformando-a quase numa deusa no palco, dificultava sua respiração; e o vinil negro brilhante, que ressaltava sua pele alva, agora impedia seus movimentos.
A única coisa que se sobrepunha à dor, à falta de ar, ao estresse físico que sentia, era o medo que tomava conta de sua alma.
– Olá, Amber... – a frase veio da escuridão, assustando-a mais ainda. Pouca gente sabia como ela se chamava, todos a conheciam ou pelo nome que escolhera para si ou pelos apelidos que ganhara nos inúmeros eventos que ia e nas revistas e sites em que aparecia devido à vida que escolhera... Morgana, Rainha Fantasma, Dominatriz Eterna, Senhora da Noite...
– Quem é você? – perguntou, buscando ganhar alguns segundos. – O que você quer de mim?
– Você realmente não tem idéia... – falou a voz, suave e perigosa. – Vampira.
– V-vampira... – gaguejou ela, notando a insanidade nos olhos de seu interlocutor. – V-você deve estar enganado...
– Você é que está enganada... prostituta dos infernos! Eu sou um caçador de monstros.
– Mas eu sou só uma artista... – respondeu ela, sem saber para onde ir. – ...uma pessoa como você!
– Não! – gritou o homem. – Não como eu. Eu passei minha vida toda em pecado, mas após uma febre intensa... após estar quase à beira da morte... eu fui redimido! Deus apareceu para mim e me deu uma missão divina... destruir os seres que fogem do sol e se banham em sangue de inocentes... como você!
Morgana, ou Amber, como havia sido batizada por seus pais, queria argumentar, mas quando a lâmina afiada surgiu nas mãos do homenzinho sua língua travou completamente e tudo o que ela conseguiu foi engolir seco. Tanto o celular, com o qual poderia chamar a polícia, como o teiser, guardado sempre para alguma emergência, tornaram-se inúteis ante a possibilidade de ser esfaqueada. Algo muito real no brilho insano do olhar daquele psicopata.
– O assassino de góticas! – suspirou ela, lembrando das notícias nos tablóide que lera uns dias atrás.
– A lâmina está banhada com água benta! Você sangrará até o nascer do sol – o homenzinho sussurrou-lhe aos ouvidos, com uma certa pompa. – Está pronta para encontrar-se com Lúcifer?
Quando o metal frio do punhal tocou-lhe o pescoço alvo, nada mais importava. Nem os seres que ela tanto imitara, fossem eles deuses ou demônios. Seus músculos estavam crispados e uma voz interna parecia incessantemente repetir que o único caminho para ela era a morte.
– Não é bom quando a presa é você, é? – sorriu o homenzinho enquanto forçava o metal contra o pescoço dela, percebendo o medo de Amber se transformar num pavor quase incontrolável. – Saber que somos nós que iremos morrer...
Ele sorriu enquanto brincava, tocando-a, sentindo sua vulnerabilidade enquanto sussurrava obscenidades em seus ouvidos.
Ela não lembrava se fora o movimento da faca que cortara-a levemente, as mãos, que apalpavam-na em lugares íntimos, mas cada palavra daquele ser desprezível a enchia de ódio. Tanto que sua garganta começou a doer por dentro, tamanha era a vontade de gritar.
O tempo passou lentamente até Amber perceber que nada mais importava. Ela sentia-se vazia, estava pronta para aceitar o que o destino lhe havia confiado. Foi quando ouviu: – ‘Glamour’...
A palavra surgiu em sua mente como que por encanto, fazendo-a lembrar-se de como usava tal poder de sedução em suas apresentações. Não magia mas atuação, que mesmo assim não deixava de ser uma forma de ritual...
Era sua única chance... sua última chance!
Ela respirou fundo e buscou relaxar o mais que pôde. Preso ao espartilho, seu estômago revirou selvagem quando ela tentou incorporar a personagem que tanto representava no palco. Cada músculo relutou antes de soltar-se, mas de repente, uma vez mais, a personagem tornou-se real.
Num momento não havia nada, em outro, havia tudo! Ela não era mais a simples Amber, mas Morgana, a vampira, a fada, a deusa que se apresentava em suas performances... A personagem era tão real que ela mesma podia sentir-se uma predadora.
– Solte-me! – disse friamente, olhando para o homenzinho com desprezo. A faca já quase não tocava seu pescoço. Talvez porque sua postura houvesse mudado, talvez por que aquele ser desprezível que pensava em matá-la houvesse percebido que já não estava falando com uma mortal comum.
– Eu estava certo... balbuciou seu pretenso atacante, já sem tanta certeza do que fazia. – Você é muito mais do que uma simples humana.
– Sim! – Morgana respondeu com desdém, sabendo o quão dúbia podia ser tal afirmação. – Agora, vamos andando... para a luz – apontou então para a rua iluminada no final da viela. – ...pois você precisa entregar-se.
Amber estava entrando num terreno perigoso. Sabia disso, assim como sabia que não importava mais, pois, no momento em que sua personagem tomara o controle, ela traçara também seu destino, levando-a dali por diante, sendo seu fio condutor, para qualquer que fosse o fim.
– M-me entregar?! – questionou ele. A faca ainda estava em sua mão, que embora trêmula, ainda podia matar.
– A menos que você prefira perder sua vida aqui mesmo... – continuou a artista gótica. O estomago de Amber estava gelado e se revirava como uma serpente, mesmo assim seus olhos azul-claros brilhavam no escuro, apunhalando o assassino com a calma de uma verdadeira imortal. Por um instante, o homenzinho refletiu na última frase que ouvira e o silêncio pairou em volta deles.
Ali estava uma daquelas encruzilhadas por que todos passamos durante a vida, um derradeiro momento de escolhas quando tudo pode dar errado. A morte em pessoa parecia estar ali, esperando que alguém caísse...
Foram segundos que pareceram horas, mas finalmente a situação passou. Como um zumbi, o homenzinho começou a seguir para uma rua iluminada de grande circulação.
Cada passo em direção à luz, entretanto, parecia uma tortura. Havendo passado a parte mais difícil, logo no final o corpo de Amber parecia querer fraquejar. A personagem, uma brincadeira que se tornara sua vida, tão simples de se usar num palco, parecia uma manada de cavalos selvagens ali, aumentando a dor, as câimbras de seu corpo. Ela, entretanto, não podia fraquejar, pois sabia que aquilo seria sua morte.
Um grito de dor queimou a garganta da atriz quando o salto de seu sapato encontrou uma saliência no chão fazendo-a torcer o tornozelo. Mesmo assim o homenzinho parou, olhando para ela com a faca pendendo na mão quando ouviu o gemido que morrera em seu peito.
"Calma, Amber, só mais um pouco" – pensou ela, tentando alcalmar-se, esperando que as mesmas sombras que cobriam a face do assassino também escondessem o suor frio que corria por seu pescoço.
– Vamos... – ordenou ela, fazendo força para não gaguejar. – continue andando!
Foram cinco minutos até que eles chegassem à rua e achassem um par de policiais.
– Conte-lhes tudo – ordenou Morgana. Estava salva, sabia disso. Mesmo assim, só conseguiu relaxar quando chegou em casa. De qualquer maneira, nada diria a seu marido sobre aquela noite infernal.

FIM

quarta-feira, julho 13, 2005

Vestido Cor-de-Rosa

© Camila Fernandes

Joelma se acocorou junto da cômoda velha. Esticando a mão, apanhou de lá de baixo o espelho. Moldura de plástico suja, imagem manchada do tempo, mas servia. Encostou-o à parede e tomou distância, tentando enxergar o corpo todo. Sorriu.

Tinha ouvido que as debutantes endinheiradas ganhavam grandes festas com rapazes bonitos. Mas ela, ao completar quinze anos, recebera o vestidinho cor-de-rosa que exibia agora no corpo esquálido. Jeito de menina de doze, magra, seios e nádegas apenas ensaiando uma aparição. Mesmo assim achou-se jeitosa no vestido. Coisa da Tia Nenê.

Seu pai não lembrara a data. Joelma nem comentou. O pobre catava papel de sol a sol, puxando a carroça, e desde a morte da mãe não tinha cabeça para nada que não trabalho. Mas então resolvera queimar o dinheiro todo, que não era muito, no boteco. Joelma pedia trocados no trânsito, a figura raquítica convencia. Cara de criança, aprendera a franzir as sobrancelhas ralas e estender a mão com olhar humilde. Ganhava o suficiente para passar mais um dia.

Agora, diante do espelho manchado, não pensava nos faróis nem nos tostões. Mirava contente o rosto que lhe sorria de volta, dentes ainda bons, pele cor de jambo, cabelos crespos presos no alto da cabeça com a mão. Parecia uma atriz das novelas que ela não podia mais ver, porque a televisão pequenina fora trocada por um colchão grande, quase novo, que dividia com o pai desde que sua cama se desmanchara. Já se acostumara ao roncar ininterrupto.

Desceu feliz a ladeira, de repente mulher, rebolando discretamente. O vestido era curto para ela. Devia ser de criança.

Não ia pedir dinheiro nesse dia. Não com aquela roupa tão bonita. Passou a tarde a esvoaçar pelo morro, sorrindo para os conhecidos, parando às janelas para as fofocas com as tias.

Escurecia quando voltou para casa. Deu com o pai sentado no degrau da porta, jornal sem ler numa mão, na outra, uma garrafa sem rótulo. Olhou-o sem dizer palavra. Escorregou pelo seu flanco, entrando na casa. Melhor arranjar um jantar. Esquentou arroz e feijão sobrados do almoço.

Comeram sem dizer palavra. O pai a olhava esquisito. Decerto notara o vestido. Estava tão bonita nele.

– Parece até moça – murmurou, de repente. – Moça-mulher.

Joelma não conteve o riso. Foi para a cama pensando em não tirar aquela roupa nunca mais. Ficaria assim e seria linda, deixaria de pensar noite e dia em como arranjar dinheiro na manhã seguinte. Em seus sonhos, seria madame, passearia no shopping, iria ao cinema, namoraria universitários. Sairia em capa de revista. Tiraria o pai da favela e o colocaria numa casa com piscina.

Ele estava sentando numa cadeira na cozinha. Garrafa sempre na mão. Com a luz fraca da lâmpada o seu rosto era um borrão e a menina não conseguia ver se ainda olhava para ela. Pegou no sono pensando no futuro, as pernas compridas de fora, as mãos apertando a saia curta do vestido adorado.

Era madrugada. Sentiu uma mão na sua testa. Outra a tocou na coxa descoberta. Sonhava com coisas boas, mas então... não era sonho. Não era bom.

– Pai?

Carinho estranho esse. Continuou. Estava escuro. Joelma não via nada, só sentia na pele uns dedos calejados e ouvia uma respiração forte. Cada vez mais forte.

– Pai.

Era ele, mas não respondia.

– Pai!

Tapou-lhe a boca com a mão.

– Xiu. Quieta.

Devia obedecer, não devia? Ele era seu pai. Ainda era, mesmo depois de rasgar o decote do vestido. Ainda era, mesmo depois de apertar com força a menina que, na noite, na marra, deixou de ser criança.

Virou a madrugada acordada, a mão pesada na sua perna fina, o ronco forte no seu ouvido escuro. Os olhos fixos no nada. A cabeça trabalhando como nunca, assombrada, arrasada. A boca muda mesmo quando ela se levantou, o sol já na janela.

Lá fora, apanhou água da bica e bebeu com pão de ontem, calmamente, como fazia todo dia. Então, voltou para o quarto onde o homem dormia. Pensou em chamá-lo, mas...

Pai?

Monstro?

Ela não tinha um nome adequado para ele. Para o que havia feito com ela. Olhava à sua frente e não sabia mais quem era aquele homem estirado no colchão, um fio de baba escorrendo dos lábios. Sono profundo. Imitava tão bem a despreocupação dos bebês. Sem erro. Sem culpa.

Joelma apanhou de novo o espelho. Olhou para si. Ontem, era menina. Hoje, não conseguia sorrir. Um dos ombros estava nu. O vestido estava arruinado. Já não tinha beleza. Não tinha sonhos.

Uma lágrima escorreu por seu rosto, mas o espelho não a refletiu. Entre as mãos da menina, foi estilhaçado contra a quina da cômoda. Triângulos de vidro de todos os tamanhos caíram reluzentes aos pés de Joelma. Ela se abaixou. Escolheu o mais longo e pontudo e o segurou com firmeza.

Ela olhou para o pai que ainda ressonava.

Ela sabia o que fazer.

Camila Fernandes escreve aqui e em seu site, O Demo Sentado em Meu Ombro: www.demosentadoblogspot.com

sexta-feira, julho 08, 2005

NecroZine #4

Mortais,

Saiu finalmente o novíssimo NECROZINE #4, recém tirado do forno infernal, com direito a muito sangue, muito terror, e nesta edição, muito erotismo.

Neste número vocês lerão:

Beijos de Fogo - de Camila Fernandes
Lenta Agonia - de Giorgio Cappelli
Livre Arbítrio - de Gianpaolo Celli
Final Amargo - de Richard Diegues
Ninfomania - de Alexandre Heredia

e um editorial redigido especialmente por este que vos escreve.

Para baixá-lo, assim como todas as edições anteriores, é só clicar nas capinhas aí ao lado direito. Lembrando que para lê-los, é necessário ter o Adobe Reader instalado.

Baixem, leiam, comentem, espalhem.

Abraços Sombrios,
Caronte
caronte@necrozine.zzn.com

quarta-feira, julho 06, 2005

Anjo Vingador

© Gianpaolo Celli

'A idéia não parecia ruim...' – avaliou Helena uma última vez, lembrando-se de como sua vida mudara nos últimos meses. Os pensamentos, contudo, tornaram-se turvos, disformes, nebulosos, até que ela tropeçou e caiu. Estava exausta e, apesar de não sangrar, o enorme hematoma preto arroxeado na altura das costelas mostrava que não estava bem. Era um ferimento que talvez médico algum pudesse curar, pois o mesmo ser que fizera aquilo havia também ferido sua alma. – 'Talvez seja meu destino' – pensou ao notar que a rua escura para onde fugira era um beco sem saída.
Cada arfar seu era uma agonia, cada movimento, uma conexão com a dor, o desespero, a loucura que levara àquilo. Mesmo assim ela tentou botar as idéias no lugar. Fechou os olhos e procurou ouvir o repugnante chiar de sua criação chegando. Não havia nada, entretanto, a não ser o silêncio. Mesmo assim, mais uma vez os pesadelos que a acompanhavam há meses passaram em frente a seus olhos:
Primeiro, fora a morte de seu marido, a destruição de seu amor, de sua vida; então, a incapacidade da polícia de achar os culpados, punir alguém por sua perda; depois a raiva, tão profunda que fez com que ela, uma pacífica folclorista, voltasse tudo o que estudara, toda sua existência para uma coisa somente, a vingança... vingança por seu Nicolas, por sua perda, por sua própria dor; agora, aquilo...
O que buscou, na realidade, não era nada mais do que diversas sociedades secretas que ela mesma estudara, como a Fraterna Ordem do Anjo Exterminador, também não houvessem feito antes: eliminar, magicamente, pragas sociais, pessoas indesejáveis, assassinos, como os de seu esposo. É claro que, ao iniciar aquilo, as possíveis conseqüências pareciam cabíveis, pequenas até...
Haviam sido dias no cemitério, noites em claro e muito de sua sanidade até que Helena, tendo conseguido achar um derradeiro resquício de energia astral dos assassinos, deu a ordem.
Os judeus o chamavam de Golem, os ocultistas, de Elemental Artificial, a bruxaria, de Guardião... ela mesma o chamara de 'Anjo Vingador': um ser criado e moldado de acordo com sua vontade, para obedecê-la. – Siga este padrão energético... e mate! – ela havia ordenado, mesmo sabendo que o monstro não só mataria, mas destruiria aquelas pessoas. Sim, pois estes seres destroçam o corpo astral junto com o físico, antes que a alma tenha a chance de sair, destruindo-a completamente. Na época, contudo, ela achava que eles mereciam!
– O que deu errado? – tossiu, voltando ao presente e buscando em sua memória detalhes que pudessem ajudá-la contra sua criação. A dor em seu peito era a resposta. Seu primeiro equívoco, lembrou, foi que após seu 'Anjo Vingador' haver matado, provado sangue, ela não mais foi capaz de controla-lo. – 'É claro' – pensou, percebendo o monstro, um ser de energia astral, ilógico à luz da ciência moderna, que mais uma vez havia feito o impossível, matando as pessoas que ela mesma descobrira haverem sido responsáveis pela morte de seu Nicolas, só voltara-se contra ela, ferindo-a gravemente, quando, depois de haver negado sangue, ela, sem o devido conhecimento ou poder, tentou destruí-lo.
O sibilar sinistro soou de repente em seus ouvidos, tirando-a de seu pesadelo acordado e colocando-a em outro. Sua espinha gelou quando finalmente ela pôde ver sua criação através dos olhos dos assassinos de seu marido, de suas vítimas.
Tinha quase dois metros e meio; Cinzento, quase prateado em sua transparência fantasmagórica; a mistura de um enorme gorila com algum inseto repugnante, como um demônio dos antigos bestiários que ela e Nicolas tinham em sua coleção. Olhos enormes, multifacetados e sem pálpebras, percorriam a folclorista com uma fome inominável, de sua mandíbula demoníaca saía um som surdo, rouco, parecendo algo entre o soar vento e o metal raspando em metal.
Helena sentiu um ímpeto de levantar e fugir gritando, mas suas pernas não respondiam. Engoliu em seco, somente agora entendendo o quão horrível poderia ser a visão daquele demônio para um coração que carregava a culpa.
'Mas não será assim!' – gritou algo dentro dela no exato momento em que uma idéia iluminava sua mente. – 'Novamente criador e criação se enfrentam,' – ela pensou, sentindo uma estranha confiança tomar conta de seu corpo. – 'como tantas vezes aconteceu nos mitos, na história...'– e com uma força vinda do nada, levantou-se.
Ela sorria acintosamente para seu Anjo Vingador. A mão, que antes segurava a área do hematoma, soltou-se e, com uma lâmina, cortou o local fazendo seu sangue verter copiosamente..
– Sangue e medo! – falou alto, as palavras saindo automáticas de sua boca num desafio implícito ao golem. – Venha...
O ser chiou em resposta. Irado então, lançou suas garras horrendas em direção às costelas da moça num ataque de urso. Ela estava preparada desta vez e, ao contrário de seu primeiro embate, desviou-se facilmente. Sabia o que fazer agora... ou pelo menos achava que sabia. – Você não pode me matar... – mentiu ela. Queria ter imprimido confiança, mas a voz saiu fraca como o murmúrio de uma criança – pois se eu morrer, você também morrerá!
Aquelas palavras, entretanto, não eram mais do que um blefe e Helena sabia disso. Sabia também que se sua criação descobrisse como se alimentar, poderia sobreviver sem ela. O pior, sabia que se isso acontecesse, ele tornar-se-ia um vampiro assassino, alimentando-se da essência vital do sangue de suas vítimas. Sabia e estava determinada a não deixar isso acontecer. Estranhamente, o monstro recuou, considerando aquelas palavras.
Aquele era o momento que esperava. Esquecendo-se da dor, ela limpou sua mente, relaxou e, olhando para o monstro, buscou o foco de seu poder, seu 'coração', aquele que deveria destruir para terminar com aquele pesadelo.
Cada músculo em seu corpo estava preparado quando o Elemental atacou. Ela não desviou. Deixou as garras astrais penetrarem fundo em sua barriga, rasgando seus intestinos. Decidida, mandou tudo o que restara de sua energia para as mãos e lançou-se contra a criatura, mirando o coração.
Sua barriga parecia arder em chamas e uma golfada de sangue subiu-lhe a garganta. Engasgou. Mesmo assim a única coisa que importava naquele momento era o ponto que brilhava leitoso no meio a névoa que formava o Golem. As mãos dela, que agora mais pareciam garras, fecharam-se nele. A energia do monstro voltou-se para a origem, que agora estava sendo destruída; então, explodiu.
Helena foi lançada longe. Bateu forte num dos muros do beco, então contra o asfalto duro. Mas tudo bem, ela já estava morta, havia cumprido sua missão...