quinta-feira, junho 30, 2005

A última que morre

© Alexandre Heredia

Onde você está pai?

Não sei por que quando penso em você lembro apenas do primeiro carinho e do último tapa. Mentira, lembro mais coisa. Sem injustiça. O senhor sempre teve por perto. Sempre me deu bons conselhos. E eu tentei segui-los, juro. Fui à escola como o senhor mandou. Nunca entendi por que teimava que eu fosse, pois eu nunca aprendia nada por lá. Não por falta de empenho meu, acredite. Tá, confesso, eu não me empenhava nem um pouco. Mas é culpa minha? Que incentivo um garoto tem para aprender se a escola vive em greve, e quando tem aula os professores não ensinam nada? Eu estava na sexta série, pai, e mal sabia soletrar meu nome! Assim não tem quem agüente.

Foi nessa época que a coisa desandou, lembra? Não que estivesse certa antes. Eu vivia mais na rua que em casa. O senhor sempre dizia que meu lugar era com meus irmãos, mas eles eram tantos, e o espaço tão pequeno, que eu me sentia mal sendo uma boca a mais para o senhor alimentar. Já ganhava pouco com os bicos que fazia, não era justo que eu, quase homem feito, ainda ficasse embaixo da tua asa. A mãe concordava comigo.

Mas você nunca concordou. Lembra quando cheguei em casa com aquele relógio bom? É, aquele que havia sido o fruto de meu primeiro roubo. Lembra do tapa que o senhor me deu? Eu lembro. Nunca esqueci. Tanto que também não roubei mais nada. Lembro também da nossa conversa logo em seguida. Desculpe por te fazer passar por aquilo. Sei que o senhor não gostava de dar bronca, muito menos de passar sermão. Mas eu ouvi, quietinho. E no final até concordei.

Lembro bem que você não deixava nem eu nem nenhum dos irmãos trabalhar no semáforo. A mãe dizia que era a única chance de colocar comida em casa. Senti um baita orgulho quando te ouvi dizer que lugar de criança é na escola, e não trabalhando. Hoje vejo que não passava de preguiça minha. Preferia fingir que estudava a ficar correndo e colocando saco de bala em retrovisor o dia inteiro. Mas lá no fundo acreditava que o senhor estava certo.

Será? Hoje não sei. A única coisa que funcionava na escola era o núcleo pastoral. O senhor odiava evangélico, e nunca me deixou participar dos cultos. E eu concordo com o senhor. Ser roubado já é ruim, mas ser roubado e iludido é bem pior.

Mas o senhor também se iludiu. Lembra quando aquele candidato veio pra favela? Ele era todo bonitão, falava bem pra caramba. Subiu num palanque que o senhor ajudou a construir de graça, e falou que ia mudar tudo por ali. O senhor encheu os olhos de lágrimas aquele dia. Foi a última vez que eu te vi chorar. E eu mesmo me empolguei quando ele disse que ia melhorar as escolas do bairro.

Me explica: qual a diferença entre político e pastor, pai? Por que o senhor odeia um e chora pro outro? Depois da eleição (que a gente saiu junto de cabo eleitoral, lembra?) continuou tudo igual. Em alguns aspectos, até piorou. E o tal figurão nunca mais apareceu, nem quando teve aquela enxurrada que matou a família da vizinha.

A gente começou a se falar menos depois que eu saí da escola de vez. Eu por vergonha. O senhor por decepção. Um dia saí de casa definitivamente. Mas eu levei o senhor comigo, mesmo que não quisesse. Não roubei. Não trafiquei. Nem drogas tomei, por mais que me dissessem que era bom. Eu preferia acreditar no que o senhor dizia. Sempre.

Eu trabalhava no que dava. Conseguia uns trocos aqui e ali, fazendo bicos como o senhor. Menino de rua não consegue emprego de jeito nenhum. Mal sabia fazer contas, mas tinha que me virar com os trocados minguados que ganhava. Quase não dava pra comer, e várias vezes me senti um idiota por seguir seus conselhos. Via moleque mais novo que eu se dando bem trabalhando pros traficantes. Enquanto eu tinha que contar os centavos pro pão, eles compravam roupa e comida decente. Alguns conseguiam comprar até uma moto. Doía, pai, passar frio na praça, dormindo no asfalto gelado, e ver os outros passeando de carrinho e roupa nova e comendo em lanchonete.

Mas eu me mantinha fiel aos teus ensinamentos, pai. O senhor mesmo me disse que quem persevera um dia consegue, e eu me fiava nessa crença. Pois bem, engoli o orgulho e continuei na batalha. Até o dia que a polícia chegou.

Alguém tinha reclamado da gente. Pelo jeito um bando de moleque deitado na calçada era ofensivo demais para os olhos dos ricos. Quer dizer, nem sei se foi isso, só deduzi. O rapa apareceu tão de repente que nem deu tempo pra fugir. Perdi um cobertor e todo meu dinheiro aquele dia. Não era muito, mas ia fazer falta. Me jogaram num camburão e me trouxeram pra cá. Nem sabia o que havia feito, mas estava preso.

Pai, eu não sei se o senhor tem noção do que é a FEBEM. É bem parecido com o Inferno que o pastor descrevia naqueles cultos (que o senhor não sabia, mas eu havia assistido alguns). Perto daqui, passar fome na rua parece até uma boa. Aqui não tem pra onde correr. De um lado tem os sangue-ruim da cela. Gente que já nasceu pra ser bandido. Tá na alma. Eles são minoria, acredite, mas são fortes o suficiente pra convencer os trouxas que nem eu a ficar na sua sombra. Vi muita gente fina virar bandido não por gosto, mas por necessidade. Aqui só sobrevive se for esperto. Do outro lado tem os guardinhas. Esses aí são gente do pior tipo. Bate na gente sem razão, e depois fica assustado quando a gente se revolta. Cansei de sentar pelado na quadra (que só serve pra banho de sol mesmo, porque esporte nenhum se pratica por aqui), tomando revista e levando borrachada sem motivo. Tá, é o trabalho deles, mas o senhor não tem noção. Só de olhar pro rosto deles já arrepia a alma.

Mesmo assim, eu me mantive fiel a teus ensinamentos, pai. Sabia que se me mantivesse correto um dia as coisas iam melhorar. Alguém ia aparecer e me tirar dali. Enquanto isso não acontecia eu habitava um limbo entre os estiletes e as borrachadas. Tentava ser apenas mais uma sombra numa casa assombrada. Achava que era só eu ficar no meu canto que ninguém ia se meter.

Eu não sei direito como começou a rebelião, se foi por causa da briga das facções internas ou raiva das borrachadas. Só sei que o negócio estourou feio. Fecharam tudo. O batalhão de choque ameaçou invadir mais de uma vez. Não sei de onde surgiram tantos estiletes. De um minuto para o outro o que já era um caos virou um inferno completo. Todo mundo tava cobrindo o rosto com as camisetas, tacando fogo em colchões, quebrando janela. Ninguém mais pensava, tinha tudo virado bicho acuado. Um dos guardinhas pagou o pato, e apanhou tanto que acho que está morto. Pelo menos não se mexeu mais desde que foi jogado lá no pátio.

Eu? Bom, eu tentei ficar escondido até que tudo passasse. Não deu. Me acharam, me arrastaram até o telhado, e me mostraram pros helicópteros que circundavam o pavilhão. Eu te procurei, pai, na multidão que se aglomerava na porta, atrás das viaturas, mas não te vi. Queria tanto, pai, você nem imagina. Queria pedir desculpas pela dor que eu te causara. Queria pedir desculpas do crime que nem sei se cometi, mas pelo qual estava sendo punido.

Quando a faca entrou no meu pescoço, doeu pra caramba. Mas não deu pra gritar, só chorar. Foi rápido. Serraram minha garganta, e quando dei por mim vi meu corpo rolando pelo telhado. E eu era apenas uma cabeça solta ao vento, presa pelos cabelos entrelaçados nos dedos de meu carrasco.

Se tenho ódio dele? Não, tenho pena. Agora, aqui, em meus últimos resquícios de consciência antes da morte, percebo que posso sentir pena. Porque para mim acabou o sofrimento, mas para ele, quantos dias ainda se seguirão? Tenho certeza que, diferente das escolhas que ele tomou, sua história é bastante semelhante à minha. Porque dizem que a esperança é a última que morre, mas nesse lugar, no nosso caso, ela nunca nasce. Agora, aqui, sou só uma cabeça. Já não tenho mais coração, não tenho mais estômago, minhas tripas não gelam mais.

E é por isso que só agora entendo. Não foi culpa tua, pai.

Mas o senhor estava errado.

Só queria te dizer isso.

Cadê você, pai?

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Alexandre Heredia escreve aqui regularmente, e também nos blogs Psicopata Enrustido e Antelóquios

segunda-feira, junho 27, 2005

A marca

© Camila Fernandes

María tentara ser uma boa cristã. Confessava-se regularmente ao Padre Alfonso, esmiuçando bobagens de mulher que não chegavam a ser pecados. Trazia a alma limpa de quaisquer crimes. Mesmo assim, agora, resfolegava, achando difícil correr protegendo com as mãos calejadas o ventre inchado de vida. Mas prosseguia, aos tropeções, penetrando no bosque das cercanias.

Naquela manhã o bom padre lhe batera à porta.

– Perdoe-me, filha – pedira em estertores, os olhos escuros marejados, a calva brilhando de suor. – Eu cometi um erro, um erro terrível. Agora, eles estão vindo. Corra, filha, vá, não perca um instante. Vá, pelo amor de Deus!

Seu instinto de mãe acendeu-se como uma luz no escuro da ignorância. O velho Alfonso, por pia inocência, selara seu destino. Ela teve a certeza quando avistou pela janela de seu casebre a comitiva que se aproximava.

Agora, devia continuar correndo. Mesmo com a criança escoiceando-a por dentro com a fúria de um garanhão. Pensou por um momento que o menino seria um homem vigoroso, alegria e arrimo de María quando fosse velha. Seria um menino, como queria o falecido Juan. Por ele é que não devia fraquejar. Por ele, devia continuar correndo.

No bosque que conhecia tão bem por ali brincar desde menina – lá ela teria abrigo. Desapareceria como um fantasma entre as árvores, o riacho lavaria seu cheiro, os frutos e criaturas da mata a nutririam. Nunca seria encontrada.

Mas havia a criança. Violenta, parecia devorá-la por dentro. Anunciava sua vinda. A fuga, as dores, por que tinha de acontecer tudo ao mesmo tempo? María lamentou não ter ouvido a irmã quando esta lhe propôs que se mudasse para Toledo, onde ela e o cunhado zelariam por sua saúde. Mesmo viúva, quisera permanecer na casa onde nascera, naquele vilarejo cristão e tranqüilo, não na cidade grande e herética governada por mouros ricos.

Retendo a barriga nas mãos, urrou de dor entre os dentes cerrados. Era hora. Seu filho exigia nascer.

Escorou-se a uma árvore, ora inspirando e expirando, ora comprimindo os lábios, reprimindo os gemidos. Suas saias estavam encharcadas. Seu corpo vertia água. Não poderia prosseguir. Teria a criança ali, sozinha, segura apenas da bondade dos céus.
Suas entranhas doíam, mas encolheu-se sobre elas mesmo assim, mordendo o lábio inferior, quando ouviu as vozes ao longe, os passos na relva, o tilintar das armaduras dos soldados. Não podia emitir um ruído. Tentou erguer-se – em vão. Fechou os olhos com força. Pôs-se a rezar mentalmente. Concentrou-se nos sons do bosque, no burburinho do regato que corria por perto. Respirou fundo. Abriu os olhos.

Sufocou um grito ao encontrar diante de si a figura vestida de negro, cabelos cinzentos, olhar severo, acompanhada de uma escolta armada, que a cercava.
Do alto de sua nobreza, o bispo encarou María. Acocorou-se diante dela com cautela. Olhou-a nos olhos.

– María Rojas – disse amavelmente. – Entendo que fez ao padre de sua vila uma séria revelação. Com minha autoridade eu o perdôo pelo deslize de compartilhar uma confissão, e você deve perdoá-lo também, pois o assunto é de minha alçada, não concorda?

A mulher agarrava a própria barriga. Gotas frias de suor banhavam-lhe o rosto. O homem afastou com uma mão os cabelos molhados de sua fronte.

– Onde está seu marido?

Ela não teve força ou vontade de responder, mas o homem captou seu olhar.

– Ah... compreendo. E ele aceitou ser o pai de seu filho, mesmo sabendo que é de outro. Uma nobre alma, sem dúvida, por quem rezarei mais tarde. Não tenha medo. Não é sua culpa. Eu venho esperando por isso há alguns anos. Recebi o aviso de uma força maior. É claro que você entende. – Ele assumiu o tom sussurrado de uma confidência. – Você não contou ao seu falecido esposo quem é o pai desta criança, não é? Mas confessou ao Padre Alfonso que ela foi gerada em seu corpo pelo demônio.

– Não! – ela urrou angustiada, meneando fortemente a cabeça enquanto todo o seu ser se contorcia em espasmos dolorosos.

– É tarde para negar, minha filha. Mas não se aflija. Já veremos se isso é verdade ou não. – O bispo apanhou a barra da saia de María e começou a dobrá-la com cuidado, afastando a mão trêmula da mulher, que tentava proteger seu recato. – Não se envergonhe, jovem. Eu já vi outras. Agora, abra as pernas; o bebê não demora a chegar. Assim. Respire. Tudo ficará bem...

Ouviu as palavras do sacerdote e obedeceu às suas ordens, mais por desespero do que por confiar na sua bondade. Um dos soldados trouxe água num capacete, onde o velho lavou precariamente as mãos. O tormento, o medo e a vergonha pareceram arrastar-se por horas. E ali, na mata, cercada de homens em armaduras, engolindo os próprios gritos e pelas mãos de um bispo, María entregou seu filho ao mundo.

Exausta, ela ouviu seu primeiro choro, o choro furioso de quem é expulso do paraíso uterino para o inferno terreno. O bispo molhou na água um lenço, que usou para limpar a cabeça ensangüentada do bebê. Olhou para ele com carinho paternal. María estendeu os braços lânguidos para receber o filho. Mas o velho cuidadosamente virou a criança de bruços e esfregou-lhe o lenço na nuca já coberta de cabelos muito espessos, muito negros. Afastou os fios. E sorriu.

– Dê-me meu filho – murmurou a mãe. – Ele precisa de mim. Eu preciso dele. Quero...

O bispo deu as costas à mulher, aproximou-se do regato e lavou a cabeça do recém-nascido, batizando-o numa voz baixa demais para se ouvir. Então, estendeu a criança ao pajem que surgiu dentre os soldados. O rapaz perguntou num tom baixo, carregado de ansiedade:

– Ele tem a marca?

Em resposta, o ancião apenas apontou a nuca pequena e molhada, que o pajem tocou, encontrando com os olhos e os dedos um símbolo estranho numa língua morta, um dia falada pelo Messias. Um número. Seu olhar fascinado encontrou o do bispo, que assentiu com um sinal de cabeça.

O sacerdote encarou María.

– É lamentável – disse. – Não era para ser assim. Este menino nasceu marcado. A partir deste momento ele não é mais seu filho. Você foi escolhida para trazê-lo ao mundo, e só. Deve de bom grado entregá-lo à Santa Sé. Nós cuidaremos para que ele tenha... o destino que merece. Confie na Providência e nos Seus emissários, minha filha.

O bispo se ergueu espanando as folhas grudadas às suas vestes. Os olhos de María se encheram de um ódio selvagem.

– Maldito seja! – vociferou, tentando levantar-se de rastos, enquanto o velho lhe ministrava sem demora a extrema-unção. – Ele é meu filho! Meu! Sou eu quem deve protegê-lo. Você não tem o direito! Eu sou...

Algo passou muito rápido diante da mulher. Um gesto, um assobio metálico, e a cabeça de María rolou para o chão. Caiu com um baque seco na relva, olhos arregalados numa ira perpétua, a boca entreaberta numa maldição interrompida. O corpo lavado de sangue e suor continuou encostado à árvore. Um soldado limpou na barra das suas saias a lâmina vermelha da espada e a guardou na bainha.

O pajem envolveu a criança num rico manto que trazia a tiracolo e a entregou ao ancião. Seus berros de recém-nascido foram se calando aos poucos nos braços do bispo. Atrás da sua figura poderosa, vestida de negro até os pés, o fogo aceso pelos soldados começou a estalar, consumindo devagar o corpo de uma mãe.

– Sim – murmurou o sacerdote. – Nós vamos lhe dar o destino que merece, não vamos, meu senhor e mestre?

Camila Fernandes escreve no NecroZine e em seu site, O Demo Sentado em Meu Ombro (www.demosentado.blogspot.com).

quinta-feira, junho 23, 2005

Longe Demais

© Gianpaolo Celli


Janelas fechadas, cortinas estendidas, luz apagada... desde o início do feriado a escuridão era a única coisa que dominava naquele quarto. Somente trevas, e o domingo já estava quase terminando.

– Por que você tem medo da luz? – questionou uma voz, vinda das costas da garota. Próxima, como se alguém bafejasse em seu cangote, grave e oca, como se viesse de dentro de um túmulo. Ela estava sozinha no quarto, na casa, desde o final das aulas na quarta-feira, sabia disso. Conhecia aquela voz, desde criança conseguia ouvi-la quando algo estava errado. Segundo os psicólogos e psiquiatras a que ia quando menor era o inconsciente; espíritos, diziam os médiuns. Ela nunca gostou de ouvir a voz. Não se incomodava muito quando criança, mesmo não gostando do olhar de seus país quando ela recitava o que ouvia. Mesmo assim, quando era criança, ainda conversava com aquele 'amigo invisível', era melhor do que ficar sozinha. Atualmente, contudo, não falava mais com a voz, não queria ouvi-la e nem gostava dela. O que a a voz falava quase sempre magoava,fundo.

– Por que você tem medo da luz? – repetiu a voz, fazendo com que o formigar gostoso que a garota sentia na pele amainasse, dando lugar a depressão.

"Mais um corte", pensou, ajoelhada no carpete grosso, enquanto tateava procurando a lâmina que sabia ter esquecido no chão. "Mais um corte me fará sentir melhor!"

Um súbito estrondo às suas costas assustou-a. Desnorteada, ela voltou-se para o som, mas o brilho intenso do dia cegou-a completamente.

– Ophelia? – ela ouviu uma voz amiga chamando. Calma na primeira vez, mas agitada ao gritar uma segunda. Voltando-se para a voz, para a luz que a cegava e, baixando o queixo, a garota sorriu mentalmente, enquanto sua imaginação divagava.

"Ophelia... meu nome...", pensou, recordando o quanto odiara aquele nome durante a infância e como aprendera a ama-lo após a adolescência, quando descobriu que compartilhava tão famoso epíteto com uma personagem de Shakespeare. "O mesmo nome da jovem que amava Hamlet e que, após à morte do pai, enlouqueceu... e suicidou-se.", lembrou, sorrindo ao lembrar como ambas se pareciam.

A dona da voz que a chamara, contudo, não foi ao encontro da jovem ajoelhada como ela esperava, mas ajoelhou-se ao lado de sua cama, chorando.

Ophelia voltou-se, estranhando a reação da amiga, mas quando percebeu o que acontecera, quando entendeu o que acontecera levantou-se tão rapidamente que pontos brilhantes surgiram em frente a seus olhos...



Seu estômago revirou feroz quando ela olhou em volta buscando descobrir onde estava; as trevas, impenetráveis e opressivas, que dominavam o cômodo, entretanto, faziam a tarefa inútil. "Escuridão...", questionou-se, lembrando da explosão de luz que a tirara do transe no qual passara durante todo o feriado. A única coisa que conseguia sentir, que conseguia pensar, entretanto, era que aquilo parecia um enorme déjà vu.

Uma fraqueza sobrenatural tomou conta dela quando, esquecida de tudo que acabara de acontecer, Ophelia notou na silhueta de seu corpo nu, quase luminosa em meio as sombras. "É frio, só o frio...", imaginou, buscando descobrir o que seria aquela sensação que não parava.

Sabia, entretanto, que apesar do já presente inverno fazer com que os termômetros não passassem dos dezesseis ou dezessete graus e dela estar sem roupas, não era frio que sentia. O que experimentava agora... o que, na realidade, estava vivenciando desde o início do feriado prolongado, era algo diferente, muito mais intenso, mais perigoso...

– Solidão... agridoce solidão... – murmurou ela, sabendo que mentia para si mesma, mesmo lembrando que não via sua família desde que voltara ao campus para passar o ano-novo com as amigas da faculdade... amigas que haviam deixado-na sozinha o feriado inteiro.

Não era solidão, tampouco, o que experimentava, sabia disso. Não era um algo depressivo, parecia mais um sentimento tantalizante, que excitava, fazia-a ter, até em seu espírito, uma estranha vontade de superar-se, de ir além.

– Até onde você pretende ir? – ela ouviu a voz, que parecia ser sussurrada detrás de sua nuca. – Quão longe pretende chegar? – a voz continuou, ignorando o quanto ela tremia de pavor ao ouvir.

"É o sentimento de individualidade que guia os heróis em sua busca pelo desconhecido", pensou tentando ignorar a voz, que agora a magoava tanto.

Gostava dos mitos de viagens heróicas ao Outro Mundo que estudava agora em seu curso de psicologia; do quanto achava aqueles personagens corajosos, diferentes das covardes pessoas normais.

– Diferentes de mim. – falou para si mesma, lembrando de seus piercings, maquiagem escura, tatuágens, símbolos de sua busca por identidade, de sua diferença, de seus medos, lembrou. Uma angústia profunda surgiu, amainando aquele misterioso sentimento.

– Você não é normal... – a resposta surgiu novamente, como que vinda de dentro de sua cabeça. Ao mesmo tempo seus olhos quase puderam ver o brilho metálico da lâmina em suas mãos, o rubro do líquido que vertia do corte transversal que ela mesmo fizera no alto de seu braço. O mais novo dos vários que cobriam seu corpo, nos braços, nas pernas... cortes que faziam dela uma covarde, como dizia seu psiquiatra, incapaz de compreender e vivenciar seus sentimentos; uma corajosa, lembrava ela, nos períodos em que a dor era demais e que ela tinha vontade de desistir.

"É...", pensou novamente, como fazia sempre em resposta àquela colocação, a faca que segurava na mão agora gentilmente posicionada sobre seu pulso. "Seria tão fácil... tão mais fácil..."

Um medo súbito tomou conta de Ophelia, amplificando o sentimento de busca pelo desconhecido a estourando em sua cabeça como um trovão. O medo, entretanto, contrapôs-se a este, se espalhando por seu corpo fumaça ao vento.

A dor física entretanto, refletindo a psicológica, fazia desta última menos intensa. Os músculos da mão relaxaram assim que pensamentos mais amenos fluíram em sua mente, sentimentos mais amenos faziam seu corpo soltar-se, livre...

"O inverno...", pensou, sentindo as mãos geladas tremerem; gostava da estação, especialmente depois da faculdade, depois de haver voltado ao hábito de se cortar. "Mais fácil de cobrir as cicatrizes.", lembrou sorrindo.

– E o que você fará quando a dor física não compensar a outra? – perguntou a voz, cínica, jogando-a de volta na lama pútrida de seu desespero.

Ophelia fungou, queria chorar, mas segurou-se. Sentia-se feliz, leve, e não queria que nada atrapalhasse.

– E você acha que é certo ignorar o chamado, como você tem feito... – continuou a voz. – como o mundo todo faz?

Os dentes de Ophelia rangeram na tentativa de uma resposta, mas sua voz estava presa na garganta, um espinho que machucava por dentro e que a fazia soluçar, chorar...

Queria dizer àquela voz medonha, àquele ser horrível, que não era covarde, queria ouvir a voz questionar novamente só para poder contestar. Tudo que tinha, entretanto, além da impenetrável escuridão, era um silêncio acre e sepulcral, que empurrava sua mente pelas trilhas escuras e não muito agradáveis de seu passado, por lugares há muito esquecidos e que ela não queria re-visitar: Quando aprendeu, ainda pequena, que a dor física poderia contrapor as magoas que sentia; quando a voz, na época só um amigo invisível, começou a conversar com ela; o medo que causavam as visitas ao psiquiatra, aos centros de umbanda, aos médiuns; os remédios, que faziam a magoa e a dor desaparecerem, mas que deixaram um terrível vazio em seu peito. Ela queria parar de ver aquilo, as imagens, porém, passavam em frente a seusolhos e tudo que Ophelia conseguia era ficar em silêncio.

"Um corte resolverá isso", pensou, tateando o velho carpete em busca da lâmina.

Antes que pudesse sequer achar a lãmina, contudo, uma luz cegante destruiu a escuridão do quarto e seu nome foi gritado, rechaçando o silêncio, que foi substituído por um choro convulsivo, um choro que tomou conta também de Ophelia quando ela percebeu que finalmente havia ido longe demais.

quinta-feira, junho 16, 2005

Mamba

© Richard Diegues

Ela tá olhando pra onde? Pro meu dedinho, não é? A desgraçada tá de olho no meu mindinho. Tá até babando, nunca vi disso. Comecei a gemer e a me mexer da melhor forma que dava. Algemado é foda de se mexer, ainda mais com uma mulher em cima de você. Queria gritar, mas nem isso dá. A puta me amordaçou também. Que merda. Algemado, amordaçado e com a porra de uma puta morta me esmagando. E pra completar ainda tem essa porra olhando e babando pelo meu mindinho.

Logo que eu entrei na casa achei um horror aquele monte de gaiolas e aquários. Aranhas, cobras, iguanas, lagartos, escorpiões. Juro que se a mulher não fosse um tesão eu tinha dado uma desculpa e saído fora. Até pensei em sair, mas ela grudou no meu pescoço e deu um chupão tão forte que em menos de dois minutos minhas calças estavam no chão.

Pra todo lado que eu olhava eu via as nossas roupas espalhadas. A danada também estava espalhada. Espalhada em cima, dos lados e até dentro de mim. Mulher maluca. Morde, arranha, chupa, cospe. Me senti um objeto na mão dela. Tanto que em dada hora eu nem ligava mais pra porra daqueles bichos a minha volta.

Deixei ela me vestir de couro. Pisar em mim com o salto agulha que doía até na alma. Do chicote e das algemas eu gostei. Não dói e é um tesão. Deu a hora em que eu nem sabia mais se ainda tinha esperma no saco. Ela me cavalgava como uma desvairada. Eu algemado, amordaçado e literalmente prostrado na cama. Estava com os olhos fechados, relaxado, quando senti a pancada. Foi a pancada forte bem no meio da testa e depois o corte fundo no ombro. As duas sensações vieram juntas. Abri os olhos assustado e vi que estava coberto de vidro. Olhei pra prateleira que ficava acima da cama e ela estava dependurada. Um e um é igual a dois. A porra do aquário caiu lá de cima, bem na minha cara.

Olhei meu ombro procurando o corte. O vidro caindo do colchão no piso do quarto. Tudo bem. Corte leve. Eu vou sobreviver.

Quando bati os olhos na mulher é que fodeu tudo. Olhos arregalados. Um filete de baba escorrendo no canto da boca. O chicotinho largado de lado. O frio na minha espinha foi brutal. Esqueci do galo na testa. Esqueci do corte no ombro. Esqueci de um monte de coisa. Foda-se. Queria lembrar mesmo é que merda tinha dentro daquele aquário. Olhei em volta e vi escorpiões, aranhas, lagartos. Não me vinha na cabeça o que tinha no aquário quebrado.

Ela caiu no meu peito. A testa ainda fez o favor de me acertar o queixo. Não estava morta ainda. Tinha gemido. Mas ia morrer rapidinho, soube disso assim que vi a cobra grande, preta e lustrosa que apareceu nas costas dela. Nunca me liguei no nome desses bichos, mas sabia de uma coisa: cabeça triangular tem veneno. A mulher iria morrer em minutos. Veneno a bicha tinha com certeza.

O desespero me bateu quando a cobra subiu na minha perna. Era gelada. Mais desespero ainda quando chegou perto do meu pé e ficou olhando. Olhava fixo pro meu dedinho, então chegou perto e o abocanhou. Quase me caguei com o susto, mas a coisa não ia tão mal. Ela não picava como eu achei que faria, apenas chupava. A porra da cobra chupava meu mindinho. Acredite: desespera.

Eu me maldizia por ter deixado a puta me algemar os tornozelos. Reclamei, mas deixei. Fazia força pra quebrar as algemas, mas eram de verdade. Nessas horas eu adoro o plástico. Queria o plástico. A puta deu um gemido e tentou se levantar. Agradeci aos céus. Torci pra ela se erguer e soltar as algemas, ou pelo menos matar a cobra. Então ela deu um suspiro e caiu de lado, escorregou da cama e se estatelou no chão. Não tive dúvidas, estava morta.

Por um momento a cobra escorregou na minha perna e eu achei que ia atrás da mulher lá pro chão. Eu estava salvo, pensei. Me enganei, é claro. Não notei que quando a puta caiu, algo meu se desencaixou dela. A cobra agora fitava o meu pau. Quando ela foi chegando perto, entendi o que ela ia fazer. Olhei a desgraçada bem no fundo dos olhos e notei que uma hora ela ia me matar. Eram olhos assassinos. Olhos de réptil. Ela me abocanhou e sugou. Relaxei. Ia morrer de qualquer maneira, não ia?

Fim.

Richard Diegues é NecroAutor e escreve regularmente neste blog e em seu site, o Círculo de Crônicas (www.circulodecronicas.com).

sexta-feira, junho 10, 2005

A Encantadora - Parte 2

© Camila Fernandes

A dor me despertou de madrugada e eu gritei por longas horas, vendo meu corpo verter um sangue cheio de nódoas negras. Meu marido chorou até o amanhecer, ora ajoelhado aos meus pés, ora lavando meu corpo com água fervida. Ele foi o melhor dos homens nesse momento e mandou que o criado fosse à cidade chamar a parteira para cuidar de mim.

Logo que chegou, a mulher disse que não havia nada a ser feito, pois eu não desejava aquela criança e por isso a estava expulsando do meu corpo. Se ele queria que eu sobrevivesse, disse ela, deveria deixar que eu repousasse até me recuperar e me servir fígado cozido e sopa de galinha. Também seria bom que tomasse chás calmantes e banhos quentes. Ela ofereceu a própria filha como enfermeira. Era boa no trato de moléstias, disse ela, e poderia ajudar no serviço da casa até que eu me curasse.

Quando ela nos deixou, meu marido perguntou por que eu tinha feito aquilo. Seus olhos estavam vermelhos. Respondi que ele precisava cuidar do que tinha em casa em lugar de procurar distração fora dela.

No dia seguinte, a filha da parteira começou a trabalhar para mim. Era muito magra e tinha pescoço longo e olhos encovados, mas cumpria as tarefas da casa em silêncio, fazia boa comida e me ajudava a me lavar. Ela tornou minha aflição suportável.

Meu homem também era quieto agora e vagava pela casa como uma sombra. Eu sabia que estava infeliz porque seu filho não ia mais nascer, mas era nessa infelicidade que ele reaprenderia a zelar por sua família.

Logo que me senti mais forte, procurei por seu corpo na noite e ele não me rejeitou. Nós nos amamos sem palavras e refizemos nos braços um do outro um pacto mudo de afeto e lealdade. Bastava de noites noutras camas e beijos noutras bocas. Senti que voltaríamos a ser felizes.

Naquela manhã, um corvo entrou no meu quarto e pousou na cabeceira da minha cama. Ele me contou que a deusa ia me mandar uma criança.

Percebi que era verdade algumas semanas depois. Gritei de alegria. Meu marido voltou a sorrir. Apesar das minhas falhas, a divindade me amava, pensei.

A filha da parteira seria minha criada e enfermeira durante os nove meses e por quanto tempo eu necessitasse de seu auxílio depois disso. As dores e enjôos voltaram, mas ela cuidou de mim. Meu marido não saía mais à noite. Eu adormecia olhando para seu rosto e, quando despertava, ele ainda estava ao meu lado.

Foi neste lar de ternura e harmonia que você nasceu, minha filha. Eu e seu pai já a amávamos quando a tomamos nos braços pela primeira vez. Nunca uma criança foi tão bem-vinda a este mundo.

Mas eu havia cometido muitos erros, minha menina querida, e a mesma dádiva que a trouxe para mim fez-se maldição quando levou minha saúde. Eu quase não tinha leite para você e nem sempre podia nutri-la. A parteira trouxe sua filha mais velha, que fora deixada por um marido cruel e dera à luz um menino morto. Tinha leite para mais de uma criança em seus seios.

Ela foi a sua mãe mais do que eu, pois logo eu mal podia tê-la em meu colo. Vieram as febres freqüentes e as dores no abdome, nas costas, na garganta, na cabeça. Os abscessos por todo o corpo. A fraqueza. A comida regurgitada.

Meu marido não podia mais dormir ao meu lado. Eu cheirava mal e sujava a cama. Então, ele passava as noites no quarto menor.

Num leito junto ao seu, menina querida. Para ficar perto de você e niná-la quando chorasse no meio da noite.

Num leito junto ao da sua ama-de-leite. Para ficar perto dela e...

Meus ouvidos ainda eram bons, filha, e eu sabia o que seu pai estava fazendo. O que voltara a fazer. Seus lábios pequeninos de bebê não eram os únicos a se aconchegar naquele regaço e sugar aquelas mamas. De dia, a mulher sorria para mim, condoída; mas, à noite, comia no prato que era meu.

Para mim, foram meses de uma agonia que não se abrandava. Para eles, meses de uma espera jubilosa. Eles esperavam o meu fim.

Eu só não sabia quem estava me trazendo, aos poucos, esse fim. Podiam ser as famílias das mulheres a quem eu prejudicara, a uma, destruindo a beleza, a outra, dando uma morte dolorosa. Podia ser alguém próximo a mim. Alguém que profanara meu lugar secreto no bosque e conhecia as artes da cura e da doença como eu e minha avó e a avó de minha avó. Alguém que era bom no trato das moléstias... alguém cuja irmã se deitava com o marido da mulher que matava suas amantes e não poderia ser detida senão pelos mesmos meios.

Eles estão me matando. Meu amado e as duas serpentes que eu acolhi em minha casa.
Ontem, pela manhã, contei ao seu pai que você logo será órfã de mãe. Ele não me olhou nos olhos. Nada disse. Mas, à noite, respondeu que eu serei enterrada sob as árvores de que tanto gosto e que sua amásia ficará nesta casa e cuidará de você como se fosse sua própria filha.

Você deveria ser aquela a quem eu ensinaria tudo o que minha mãe me ensinou e que ela aprendeu com a mãe dela. Aquela que eu levaria ao meu local secreto e a quem mostraria meus segredos. A você, filha da minha carne, e a ninguém mais.

Dói-me na alma e no corpo pensar em perdê-la para uma madrasta vulgar e um pai desleal. Eu ofereci a ele meu amor e minha vida e recebi apenas traição, desprezo e morte. Não posso partir sabendo que ele será feliz sem mim, filha querida, e que quando crescer você não saberá o nome de sua verdadeira mãe. Não depois de tudo o que ele fez. Não depois de tudo o que eu fiz.

Por isso é que, esta noite, esperei que todos se recolhessem, reuni as poucas forças que me restavam e fui para o bosque. Fiz minha última oração e minha última colheita. Soquei muitas folhas e as fervi na água. São as folhas do sono-que-não-termina. Folhas que matam.

Faço dessa infusão minha libação derradeira.

Agora, enquanto eu a recolho de seu berço, querida, ela age em meu corpo, preparando-o para um fim sereno.

Agora, enquanto eu a aconchego em meu seio e lhe ofereço o pouco leite que tenho, ela agirá no seu.

Eu a amo. Ninguém neste mundo poderá amá-la tanto assim.
Venha comigo, meu amor. Não vai doer.

Fim.

Camila Fernandes é uma Necroautora e escreve neste espaço e em seu site pessoal, O Demo sentado em meu ombro: http://www.demosentado.blogspot.com

terça-feira, junho 07, 2005

A Encantadora - Parte I

© Camila Fernandes

Naquela noite, quando ele pediu abrigo na casa de meu pai, eu olhei em seus olhos e soube que deveria ser sua até meu último alento. Por isso, não hesitei em levá-lo pela mão ao velho celeiro, onde nos entrelaçamos como serpentes sobre a palha e uivamos como lobos até o amanhecer.

Eu já não era uma donzela então, mas meu conhecimento do corpo do homem deu-lhe prazer repetidas vezes e ele nunca me perguntou quem haviam sido os outros. Isso não importava.

Foi assim ao longo de todo um ano. Ele vinha da fazenda onde trabalhava para o celeiro. Lá, eu o esperava como a terra espera a chuva, e nós ríamos, nus, comendo as amoras que eu trazia do bosque.

No inverno seguinte, meu velho pai faleceu da tosse sanguinolenta que eu pudera apenas tratar com meus elixires e vapores, mas nunca curar. Fiquei sozinha. Então, disse ao meu amante que ele deveria ser o novo homem da casa.

Sei que me aceitaria prontamente como sua mulher, mas ele morava ainda com a mãe, alma triste que não queria ver seu menino tornar-se um varão. Ela me chamou de messalina e encantadora de homens e disse que ele seria infeliz ao meu lado, pois eu me deitaria em outras camas e ele teria de alimentar os filhos de outros homens. Ela não abençoou nossa união.

Mas um corvo se sentou no meu portão e me disse que eu devia orar para a deusa esquecida, senhora da vida e da morte, adorada por minha avó e pela avó de minha avó. Assim, entrei no bosque, procurei a erva que mata e dela extraí o veneno verde.

No mercado, furtei o lenço que a mãe de meu amado levava nos cabelos e o levei para o meu local secreto, na mata, onde o mergulhei na vasilha de veneno e rezei três vezes por meu sucesso.

À noite, aquela que me negara o que eu mais queria fechou os olhos num sono profundo e não os abriu mais. Eu também gostaria de partir assim, um dia, sem sofrimento.
Seu filho buscou conforto em meu regaço e não mais deixou minha casa.

Levamos uma boa vida. Plantei flores para a deusa sob a janela, em agradecimento, e meu homem gostava do perfume que enchia a casa. Ele tosava os cordeiros e eu fiava a lã. Ele cortava a lenha e eu preparava seu banho quente e esfregava suas costas e recebia sua semente em meu corpo.

Tinha seus companheiros na cidade. Quando chegava tarde da noite, bêbado, trocando as palavras e as pernas, eu o despia e o punha na cama como a um bebê.

Eu era sua fêmea, sua amiga e sua mãe. Ninguém poderia amá-lo como eu o amava.

Em algum momento, porém, ele duvidou disso. Eu soube quando chegou com um olhar diferente. Estava sóbrio e não procurou por meu abraço.

De manhã, cheirei sua camisa. Perguntei-lhe quem era ela. Ele disse que não havia ninguém.

Era mentira. Achei três fios de cabelos presos ao colarinho de sua camisa. Longos e louros. Nem meus, nem dele.

Eu a encontrei na praça da igreja, voltando da missa, na manhã de domingo. Era pouco mais do que uma menina, esguia e branca, a cabeleira dourada presa num toucado simples, os seios atrevidos espetando o vestido. Mais moça do que eu. Certamente era leviana como todas as jovens formosas.

Toquei em seu ombro e ordenei que não tornasse a ver aquele homem. Que nunca mais se aproximasse dele.

Ela se voltou, mas saí com pressa e não deixei que conhecesse meu rosto.

Meu marido descascava uma maçã na soleira de nossa porta quando cheguei. Ajoelhei-me por trás dele e o envolvi em meus braços. Admiti que ela era bela e cheia de vida, mas não o amaria para sempre. Não como eu. Que não voltasse a procurá-la.

Mas ele não seguiu meu conselho. Por mais de uma vez eu o vi retornar com o raiar do dia às suas costas e o cheiro da amante em suas roupas. A menina também ignorara meu aviso.

Por isso, esperei o início do novo ciclo da Lua, tomei os três fios de cabelo e os meti no barro. Do barro, fiz uma boneca. Sobre ela, joguei urina e excremento de cão doente durante todas as quatro fases.

Foi assim que meu marido voltou a passar suas noites em casa e a pedir minhas carícias. Não visitou mais a amante. Os cabelos dela haviam se tornado cinzentos, seu rosto se desfigurara com vincos e furúnculos e seus seios, outrora viçosos, caíram como os peitos muito sugados de uma velha ama-de-leite. Sei disso porque fui ao milharal do vizinho e os corvos me contaram.

Nada disse a meu amado. Acreditava que ele tivesse aprendido sua lição.
Nossa vida voltou a ter luz. Foi quando a deusa decidiu nos abençoar com um filho. Quando eu disse a ele que minhas regras já não vinham, ele sorriu e chorou e me beijou no umbigo.

Mas a dádiva tinha uma dupla face e eu padeci das dores que acompanham certas mães antes de se tornarem mães. A expectativa fez de mim uma mulher ansiosa que já comia por dois. Minha barriga ainda não crescera quando meu corpo se tornou grande e pesado e irritado ao toque, e meu marido deixou de me procurar.

Não podia culpá-lo, pois sua natureza masculina mandava que fecundasse todas fêmeas no grande pasto da Criação. Mas eu precisava dele ao meu lado naquele momento como jamais precisara antes. Devia mostrar-lhe o tamanho do meu amor, fazer com que compreendesse que era maior do que a desonra da esposa traída, o sofrimento da mulher desprezada ou o encanto das moças que se debruçavam noutras janelas.

Naquela noite eu fui à cidade, seguindo meu homem a distância, para testemunhar seu encontro adúltero. Essa amante não era tão jovem. Era uma viúva já madura, forte, com cabelos cor de avelã.

Voltei à sua casa pela manhã, bem cedo. No varal dos fundos havia uma anágua branca recém-lavada. Serviria. Levei-a comigo.

À tarde, mandei matar um cordeiro e guardei seu bucho.

À noite, ceamos sua carne e depois, com a Lua alta, eu meti a anágua no estômago do animal e o deixei em meu local secreto para que apodrecesse.

No dia seguinte, a doença começou a consumir devagar o corpo da mulher. Quando o último pedaço de entranha do animal se desfez sob as formigas e os besouros, ela faleceu.

Destruir as amantes de meu marido poderia tomar anos de minha vida. Ele sempre encontraria outra que o agradasse e eu seria sempre grande e desajeitada, carregando e parindo sua prole. Eu sabia que o novo castigo precisaria ser maior, por muito que me doesse executá-lo.

Por isso, entrei no bosque e colhi as ervas proibidas. Orei por toda uma manhã e toda uma tarde, pedindo perdão pelo que já fizera e pelo que ia fazer. Depois, fervi água do poço, preparei uma forte infusão e a bebi, pedindo à deusa que aceitasse de volta a criança que dormia em meu ventre.

CONTINUA...

Camila Fernandes é uma Necroautora e escreve neste espaço e em seu site pessoal, O Demo sentado em meu ombro: http://www.demosentado.blogspot.com

sexta-feira, junho 03, 2005

CONVITE - XIII EIRPG - São Paulo-SP

Mortais,

neste sábado e domingo (04 e 05/06/2005) os NecroAutores estarão na 13ª edição do Encontro Internacional de RPG, o EIRPG, que acontecerá no Mart Center, em São Paulo, distribuindo edições do NecroZine.

Não foi possível conseguir que a administração disponibilizasse para o grupo uma mesa, então fique esperto, pois os NecroAutores distribuirão os zines entre a multidão e mesas.

XIII Encontro Internacional de RPG

Dias 03, 04 e 05 de junho de 2005
Mart Center - R. Chico Pontes No. 1500, São Paulo - SP

Informações: http://www.devir.com.br


Aguardamos todos lá.

Abraços Sombrios
Caronte
caronte@necrozine.zzn.com