segunda-feira, maio 30, 2005

Blind Date

© Giorgio Cappelli

Se essa história tivesse ocorrido nos tempos da Internet, o desfecho seria muitíssimo diferente. Aconteceu a um amigo do meu tio. Sim, eu sei que as pessoas mencionam "um amigo" quando não querem dizer que um fato ocorreu com elas. Eu, porém, conheci tanto o sujeito quanto a esposa. Como se trata de pessoas reais, vamos chamá-los por outros nomes: Mateus e Francisca.

Ainda estudante de Direito, Mateus empregou-se na área antes de qualquer um da faculdade. Mostrou bastante competência e subiu rápido na profissão. No ano seguinte à formatura conquistava a independência econômica. Querido por todos, ajudava sem hesitação qualquer amigo em dificuldades. Se um deles quisesse retribuir, Mateus ficava irritado, afirmando que agia sem esperar nada em troca.

Pois foi em auxílio a um colega que o rapaz conheceu Francisca, secretária de um velho advogado, dono de um grande escritório. Ao telefone, adorou a voz da moça. A princípio, os costumeiros "Bom dia/Boa tarde, posso falar com o doutor Nelson?"; pouco a pouco, Mateus tomava coragem para esticar alguns assuntos com ela. Uma jovem inteligente, bem humorada e simpática. Em dadas ocasiões, telefonava nos horários de almoço do doutor Nelson, só para conversar com Francisca. Até o dia em que não resistiu e disparou:

- Você me acharia muito atrevido se eu pedisse o número do seu telefone?

Ela não só não achou, como forneceu a informação com alegria.

Livre da necessidade de desculpas para procurar o velho advogado, Mateus não via a hora de encerrar seu expediente, chegar em casa e ligar para Francisca. Ficavam horas ao fio do telefone. Gostavam muito de se falar. Em questão de semanas, Mateus percebeu que havia se apaixonado por Francisca. Precisava vê-la pessoalmente.

Combinaram de se conhecer numa manhã de sábado, descreveram as vestes que usariam e marcaram o primeiro encontro em um local público.

Um imprevisto doméstico fez com que Mateus se atrasasse. Francisca o aguardava no local combinado, trajada conforme dissera. E quando a avistou de longe... Nada nela correspondia ao que ele imaginara! Embora tivesse se encantado, ao telefone, com a voz doce e a personalidade de Francisca, a moça estava muito longe do ideal de beleza de Mateus!

E agora? Imaginara uma mulher completamente diferente dessa que via. Teve medo de se aproximar e não conseguir disfarçar a decepção. Teve medo de não saber o que dizer. Virou-se de costas antes que ela o descobrisse, correu até o carro e fugiu como um covarde.

Chegou em casa, trancou-se no quarto e chorou. Não restava a menor dúvida em seu coração sobre o que sentia. Amava a alma de Francisca. Só não saberia dizer se iria continuar amando após vê-la tão distante da mulher que sua imaginação criara.

O telefone tocou. Mateus atendeu.

- Alô?

- Você ainda está em casa?

De um telefone público, Francisca ligara para Mateus. Que desculpa ele daria?

- É-é... estou.

- Você está se sentindo bem? Sua voz está tão estranha... Tem algo errado?

Tem. Você. Mas não posso dizer isso.

- Aconteceu um imprevisto aqui... Um compromisso de última hora, e por isso eu acabei "furando" contigo, Fran. Não deu pra avisar. Quando liguei, você já tinha saído. Desculpa.

- Tudo bem... - sorriu ela, naquela voz maravilhosa que o fazia sentir-se ainda mais culpado - Aconteceu, e não foi porque você quis. Podemos marcar para amanhã, se quiser.

- A... manhã?

- Se você puder. Senão, tudo bem.

- Que tal... sábado que vem? ? sugeriu ele.

- Para mim está ótimo.

Mateus esticou um pouco mais o diálogo, não para disfarçar o incômodo, mas porque gostava, sinceramente, de conversar com Francisca.

Foi a pior semana da vida do advogado. Mergulhava no trabalho para não ter de lembrar da moça. Chegando em casa, não se agüentava de saudades e telefonava para ela. Seu coração já pertencia à Francisca. Por que o destino fizera aquela brincadeira com ele? Uma moça tão meiga, tão compreensiva, que demonstrara o mesmo nível de afeto que ele nutria por ela. Tinha de ser tão feia? Que fazer, então? Adiar novamente o encontro? Parar de procurá-la, desaparecer da vida dela? Impossível. Mateus estava muito apaixonado. Sabia que mulheres como Francisca só apareciam para um homem uma vez na vida. Precisava dar um jeito naquela situação de uma vez por todas. Por amor.

Tarde da noite de sexta-feira, meu tio recebeu uma ligação de Mateus. O rapaz foi lacônico:

- É melhor você vir aqui em casa.

- O que aconteceu? ? indagou meu tio.

- É melhor você vir aqui em casa. ? repetiu Mateus.

Meu tio não perguntou mais. Só pela voz, notara que o amigo se encontrava profundamente transtornado. Aprontou-se o mais rápido que pôde, pediu emprestado o carro de meu avô e seguiu para a casa de Mateus.

Encontrou a porta aberta.

- Mateus? - chamou meu tio antes de entrar.

- Aqui. - respondeu o amigo, de longe.

Sentara-se numa poltrona da sala, de costas para a entrada, o corpo vergado adiante. Fungava como se houvesse chorado por um bom tempo.

- Antes que você faça qualquer tipo de julgamento sobre os meus atos, quero que saiba que fui movido por um único motivo: o amor.

Mateus ficou em pé e voltou-se para encarar o visitante.

Meu tio prendeu a respiração. No rosto do amigo, dois filetes vermelhos e secos iam dos olhos até o queixo. No sofá ao lado, uma tesoura grande e pontuda, manchada.

- Só havia uma maneira de aceitar a mulher que amo por completo.

Ainda em silêncio, meu tio sentia as pernas tremerem. Mateus, muito tranqüilo, declamava os primeiros versos de Cantiga, do poeta português António Botto:


Se os meus olhos te incomodam

Quando estou na tua frente

Desde já posso arrancá-los

Pra te amar cegamente.

sexta-feira, maio 13, 2005

Macumba na Cabeça

© Alexandre Heredia

Então, o negócio foi assim...

Shiu! Deixa eu contar! Você lembra da Mara, irmã do Tição? A que namorou o Zelão da rua de baixo. Lembra? Então, ela tava na pior. Desempregada, dura, aluguel atrasado, essas coisas. Ainda tinha tomado um pé na bunda do Zelão sem motivo. Justo ela, que até pouco tempo vivia pavoneando pra lá e prá cá que estava fazendo enxoval!

Mas o negócio tava feio pro lado dela. Bateu deprê, ficou até doente. Como não tinha plano de saúde, foi pro SUS. Além de não curar, ainda ganhou uma infecção. Teve que fazer empréstimo pra comprar remédio.

Aí, quando ela achava que não dava mais pra afundar, apareceu a Téia. É, ela mesmo. Então, a Téia veio com umas idéias daquelas típicas dela, sabe? Levou a Mara prum terreiro, pra fazer um despacho, tomar um passe, essas coisas.

Ei, você sabe que nesse lance de macumba eu não me meto. Vai que é verdade? Eu não acredito, mas também não desacredito completamente. Não passo nem perto de despacho. Pra não dar azar.

Mas então, a Mara foi. Que ela podia perder? Tava na merda, de repente o caboclo podia dar uma luz. Mal não fazia. Assim que ela chegou no lugar foi direto conversar com a Mãe de Santo...

Como eu sei? Ora, foi a Mara mesmo que me contou! Se não acredita vai lá e pergunta pra ela!

Continuando, ela falou com a mulher, que analisou o caso. Disse que ela precisava de um trabalho forte. Coisa porreta mesmo, que só galinha preta e cachaça em encruzilhada não serviam. Parece que era encosto forte. Isso bate na madeira mesmo. Eu também bato quando lembro. Vixe, coisa ruim!

Daí que ela pediu pra Mara trazer pra ela uma cabeça. É, cabeça. Claro que de gente, besta! Não falei que o trabalho ia ser forte? A Mara ficou cismada, e pensou em pular fora, mas a velha era convincente. Deu até as dicas pra ela. Falou que tinha um coveiro num cemitério que costumava vender pedaços de gente, ossos, e até o defunto inteiro, pra quem quisesse. E não fazia perguntas.

A Mara foi até o tal cemitério. De noite. Encontrou o tal coveiro e acertou o preço. Ele explicou que pegava normalmente cadáver de mendigo pra vender, já que nunca vinha ninguém pra reclamar. Mas se ela quisesse cabeça de granfino ele podia conseguir também, mas ia sair mais caro...

E não é um absurdo? Nem morto a gente tem paz, veja só você. Dá vontade de entregar pra polícia!

Bom, o lance é que a cabeça era cara pra burro. A Mara teve que vender a geladeira pra comprar. Mas ela pensou: "É investimento! Depois que o encosto for embora eu compro outra no carnê". É, nem se livrou de uma dívida e já tava pensando na próxima. Desse jeito não sai da merda nunca...

Tá, tá. O negócio é que ela conseguiu a tal da cabeça. Calhou que era a cabeça do Salú. Lembra do Salú? Aquele doido que ficava gritando profecia na praça. Pois é, morreu. E a cabeça dele foi pra Mara.

Ela levou no mesmo dia pro terreiro. Chegou lá, entregou o "pacote" pra Mãe de Santo, e ficou pro ritual. A velha fez uns cânticos, umas rezas, bebeu pinga e fumou charuto. A Mara começou a ficar impaciente, e até achou que estava sendo enrolada. Pensou na geladeira, na conta vazia, no aluguel, e até no Zelão. Tava prestes a desistir e ir embora, quando a velha finalmente encarnou. Ela disse que ficou apavorada quando viu a mulher pulando e cuspindo de olhos fechados. Aí ela parou na frente da Mara, ergueu os braços e, gritou, com uma voz rouca: "Devolve minha cabeça, filha da puta!"

Juro! Agora a Mara tá lá, desesperada, sem dinheiro, sem geladeira, sem namorado, e tentando devolver a cabeça pro Salú. O coveiro disse que não aceita devolução, que não quer se enrolar, que o defunto já foi enterrado, etc. Dá pra acreditar numa coisa dessas?


Alexandre Heredia é um NecroAutor fascinado por lendas urbanas. Ele escreve também nos blogs Psicopata Enrustido e Antelóquios.

terça-feira, maio 10, 2005

Os Trigêmeos

por Giorgio Cappelli

Até onde eu consigo me lembrar, eles sempre se pintaram como os coitadinhos. As vítimas. Os perseguidos. Os que o mundo inteiro injustiçava. Faziam questão de recordar isso a toda hora: os jornais e a televisão, que eles dominavam, viviam a favor deles. A todo aquele que não fazia parte de sua corja, apontavam o dedo na cara e lembravam dos "horrores da guerra".

Que é que eu tinha a ver com toda aquela história de genocídio? Nem minha mãe tinha nascido na época da tal guerra! Que culpa tínhamos eu e todas aquelas inocentes que eles assassinaram, anos atrás? Também não foi um genocídio contra o meu povo, contra a minha gente? Mas não convinha a eles se lembrarem disso, não é verdade?

Coitadinhos... Que coitadinhos o quê! Malditos!

Eu nunca tinha visto um soldado antes. Era pouco mais que um bebê quando eles entraram com metralhadoras e, sem a menor compaixão – a compaixão que eles tanto cobram dos outros – abriram fogo contra mulheres e crianças. Um horror. Me escondi debaixo de um cadáver e fiquei chorando baixinho, ouvindo as rajadas de metralhadora e as balas zumbindo por cima da minha cabeça. Uma delas entrou e saiu de mim, bem abaixo das minhas costelas. Só por obra de Deus é que sobrevivi.

Passei anos da minha vida em acampamentos improvisados e instituições de caridade estrangeiras. Antes de completar quinze anos, conheci meu marido. Um homem da minha gente, alto, bonito, forte. Nós nos casamos como mandavam nossas tradições. Mesmo com pouco dinheiro, tínhamos um lar, éramos felizes. Infelizmente, os malditos levaram meu marido antes que ele conhecesse sua filha. Mal ela nasceu, foi fazer companhia ao pai.

Que futuro eu teria? Órfã, viúva, pobre... Quis ir para a frente de batalha. Não me deixaram. Tornei-me enfermeira. As mulheres dos "pobres perseguidos" podem se tornar soldados! Por que não as mulheres da minha gente?

Quando fiz dezoito anos, fui apresentada pessoalmente ao nosso líder. Ele já era bem velhinho. Ainda assim, dava pra sentir em seus olhos a energia de um guerreiro. Ele nunca baixou a cabeça para nenhum dos representantes dos "coitadinhos" ou de seus bajuladores.

Fiquei ao lado dele. Fui a confidente de sua esposa. O irmão dela e eu nos casamos. Não abandonamos nosso líder nem quando os canalhas o aprisionaram em sua própria casa até que ele morresse.

Por conta da política, tive acesso a muita coisa que meu povo normalmente não teria. Soube de irmãos que deram a vida pela nossa causa. Até mesmo uma mulher. Tinha dezessete anos, e explodiu seu corpo levando com ela dezenas dos nossos inimigos.

Há poucos meses, Deus me deu um lindo presente: três filhos. Enfim poderei servir minha gente como se deve. Os "injustiçados" vão demorar muito até se recuperarem do golpe que vou lhes dar. Tomara que não se recuperem nunca.

Do alto deste prédio, posso ver cada um dos meus meninos. Um em cada carrinho. Cada um deles num ponto estratégico. Um, para uma creche; outro, para um hospital; o terceiro, para obeso mórbido que lidera esses assassinos.

Fico pensando como a imprensa vai chamá-los... "Bebês-bomba"?

Nota do Caronte: de acordo com Giorgio Cappelli, não houve intenção alguma de pré-julgar ou mesmo condenar qualquer tipo de religião ou linha filosófica e/ou teológica neste texto, seja ela qual for. É apenas uma história fictícia, sem o propósito de ser ofensivo ou de levantar alguma bandeira ideológica ou controvérsia não-construtiva. Pedimos ao leitor compreensão e discernimento

quinta-feira, maio 05, 2005

A Casa dos Fundos

© Camila Fernandes

Eu não me achava gostosinha aos dezesseis. Mas fiquei convencida quando ele me lançou aquele olhar canibal.

Fazia calor e fui pegar sol enquanto tomava o café da tarde. Quase larguei o copo de suco e o pão no chão quando dei de cara com o sujeito parado ali na sacada, apoiado na grade frouxa que podia ceder a qualquer momento, fumando e me encarando como se estivéssemos prestes a ir pra cama juntos.

- Quem é você?

O mané riu debochado. Vá lá, não era mané. Era um exagero de homem. Não pude evitar encará-lo de volta. Cabelos pretos jogados na testa, pele tostada, olhos cor de cerveja que não pareciam ser realmente daquele rosto. Jeans, camiseta justa, básico, no ponto. Jogou sua bituca no chão e apagou-a com o pé. E respondeu:

- Talvez a resposta às suas preces?

Desviei o olhar quando vi que ele estava mentalmente comendo as minhas pernas.

- Se liga - retruquei, querendo parecer forte. - O que é que você tá fazendo na minha varanda? Pode ir rapando daqui, senão...

- Ah! Você tá aí. - A voz que vinha das minhas costas era de Clélia. Ela foi avançando pela sacada, pegando na mão do cara e puxando em direção ao seu portão. Ela me deu um oi enviesado e rebocou o bonitão pelo corredor que levava à sua casa.

Clélia vivia na casa dos fundos. Eu morava com meus pais e meu irmão na da frente. O locador gostava de nós e no contrato constava que a área da varanda e do jardim nos pertencia, sendo vedado ao morador da casa nº.2 transitar por ali, ou qualquer outro palavreado empolado que os advogados adoram. Clélia, aliás, era advogada, provavelmente em começo de carreira ou muito ruim, pois a casinha que alugara não era grande coisa. Eu já entrara lá no tempo em que estava vazia com um ou outro namoradinho, só pra me divertir um pouco, mas ninguém com quem eu tivesse ânimo de perder minha virgindade. Cozinha, banheiro muito apertado, sala e, no andar de cima, dois quartinhos acarpetados, próprios para criar pulgas.

Quando ela se mudou, não ficamos felizes. Vimos uma moça de uns 30 anos e esperávamos crianças, cachorros, papagaios e tudo o mais que fosse capaz de arruinar o silêncio tão prezado na minha casa. Mas Clélia morava sozinha. Só que fazia barulho por uma família inteira, com os tamancos de madeira e telefonemas em viva-voz tarde da noite.

Por sobre o muro baixo que separava nossos territórios, o sujeito piscou pra mim antes de fechar a porta atrás de si.

Não tirei os olhos amarelos da cabeça. Não comentei sobre o episódio da varanda com meus pais. À noite, recusei um convite pra pegar a matinê numa danceteria do bairro. Estava enjoada de ouvir som eletrônico e ser abordada por pirralhos de topete oxigenado. Preferi ler um pouco. Estudava espanhol e meu pai tinha uma edição argentina de D'Artagnan e os Três Mosqueteiros. Fui pra cama com os três, ou melhor, quatro - afinal, o rapaz do título não era mosqueteiro também?

Fiquei na dúvida. Estava mais concentrada nas conversas que atravessavam a parede. Meu irmão era moleque e eu, primogênita, ficara com o quarto maior, grudado ao cômodo que Clélia escolhera como dormitório. Vez ou outra eu socava a parede pra ela abaixar o volume da TV. Mas agora eu ouvia Elis tocando baixinho do outro lado e risadinhas ocasionais. Será que ele era bom de piada? Logo Clélia ia ver se ele era bom de outra coisa. E eu também.

A música parou. Ninguém virou o disco. Estavam ocupados. Apurei os ouvidos. Sentia-me esperta no meu jogo de invasão de privacidade. Sentia-me importante como dona dos segredos de alguém. Naquela semana eu ouvira o quebra-pau entre Clélia e o namorado, o bater de portas, os pneus do carro cantando. Não sabia se eles haviam rompido. Mas agora ela tinha outro em sua cama, a esperta.

Começaram os gemidos. Toquei a parede que me separava da dupla entusiasmada. Fechei os olhos. Peguei-me imaginando cenas. Ele, o cara sem nome, por cima, mexendo o quadril em círculos, sem pressa; depois, a garota por cima, pulando sobre ele como uma amazona a galope; então, ela se pôs de quatro e ele agarrou seus quadris, trazendo-a para frente e para trás, estocando, estocando. A garota pedia mais. Quando olhei para o rosto dela, era o meu.

Esparramei-me na cama banhada de suor. Não sei dizer o que aconteceu então. Eu me sentia esgotada. Sentia a parede pulsar nos meus dedos. Eles não paravam mais. Caí num sono leve, um sono quase acordado, embalada pela canção de gemidos.

Quem nunca teve a impressão de flutuar por um instante e acordar de repente, chutando ou socando algo num sonho? Algo vermelho piscou na minha mente, algo brutal. Uns olhos vidrados, sem vida. Um corpo abandonado na cama. Dei um tranco com o pé, voltei a mim, vi-me deitada, pernas entreabertas num convite. Fechei-as por instinto. Fui ao banheiro lavar o rosto.

Não sei o que me levou a olhar pela janela. Mas foi o que fiz e o vi. Ele estava apoiado ao muro que separava os quintais. Olhava para a janela, como se me esperasse.

Lá fora o ar estava fresco demais para o meu pijama indecente. Senti arrepios no corpo todo. Cruzei os braços, escondendo os seios e fazendo cara de paisagem. O motivo da minha vergonha ia muito além dos meus trajes reduzidos. Estar ali me envergonhava. Ele me envergonhava. Busquei o controle por meio do diálogo mais óbvio.

- Qual é o seu...

- Não. - Ele pôs dois dedos sobre a minha boca. - Você não tem que saber meu nome. Nem eu o seu.

Descruzei os braços. Ele aproveitou para chegar mais perto. Seu peito tocou o meu. Sua mão ainda estava na minha boca. Às minhas costas eu tinha o muro. Tarde demais pra desistir.

O indicador pressionou meus lábios até separá-los. A língua veio depois. Senti o gosto do seu jantar, mas isso não nos deteve. Agarrei-o com força sem saber que o agarrava, sem saber de onde vinha aquela força que seus braços repetiam em mim, colando meu corpo ao seu. Então... ele parou. Devia pensar que eu era uma caipira. Mas apenas riu e me perguntou num sussurro:

- Quantos anos você tem, menina?

- Dezes... Dezoito.

- Mentira.

- E daí? - Sustentei o olhar.

- Ainda é nova demais. Mas não se preocupe. Eu volto pra te buscar.

Saiu andando, passou pelo portão da casa dos fundos, depois pelo portão do terreno, que abriu com a chave dela. Fiquei sem saber o que queria dizer com "volto pra te buscar". Na cama, segui acordada até a madrugada pensando sem querer em mil fantasias nas quais nós nos reencontrávamos anos depois e vivíamos um grande amor, uma paixão tórrida ou algo igualmente brega.

Na segunda-feira, senti falta dos tamancos de Clélia pela manhã. E do tilintar desenfreado de chaves depois do desjejum. E dos recados em viva-voz no final do dia. Até do cantarolar no banho de duas horas que enchia meus ouvidos toda noite. Só o que eu ouvia agora era o telefone tocando, irritante, ignorado. Não é que eu gostasse de nada disso. É que... alguma coisa estava muito errada.

Lá pelo meio da semana atendi a um telefonema do namorado - ou ex - de Clélia.

- Desculpa ligar assim, mas sabe o que é? Estou ligando já faz uns dias e ela não atende. Sei lá se o telefone dela tá com algum problema ou ela que não quer atender. Deve ter colocado a Bina, né? Tava louca da vida comigo outro dia... Mas então... eu queria te perguntar se você sabe dela. Já deixei uns mil recados na secretária eletrônica. Briga de casal é foda, mas passa. Quem sabe se você falasse com ela...

Não sei se foi por pena ou bisbilhotice, mas minutos depois eu socava a porta da casa dos fundos chamando por ela. Também não sei por que me ocorreu simplesmente virar a maçaneta. A porta estava destrancada.

Na cozinha, um resto de espaguete com algo mais fedia. Dois pratos dentro da pia enfeitavam o ambiente com moscas. O nojo quase me expulsou, mas a morbidez da minha curiosidade me fez ficar. Subi as escadas chamando seu nome. E se estivesse doente? Prostrada demais para erguer uma mão? Bem. Nenhum cara é assim tão bom de cama.

Eu pensava assim na hora. Agora, não consigo pensar em outra coisa que não a imagem que se cravou na minha mente quando entrei no quarto de Clélia. Gritei, gritei até perder o fôlego, como se meu alarme pudesse reverter o quadro, apagar a tinta do tempo, impedir a formação de uma memória. Tarde demais. O corpo de Clélia, antes roliço e vistoso, jazia cinzento sobre os lençóis, murcho, coberto de moscas que tateavam o que já havia sido um par de seios fartos, uma boca sorridente, uma mulher cheia de vida. Um borrão escuro de sangue velho empapava o lençol junto ao seu pescoço.

É claro que a polícia não nos deu os detalhes apurados na perícia. Mas eu sei o que vi. Vi um corpo esgotado, sugado, espremido como um limão, sem uma gota de sangue dentro de si. Ainda o vejo às vezes quando não quero. E penso no gosto acre que senti na língua do amante sem nome que a exauriu em mais de um sentido. Que me beijou com uma boca assassina. Que poderia, naquele beijo, ter me devorado também.

Meus pais não quiseram continuar na casa da frente. Soube depois que o proprietário, sem conseguir arranjar novos inquilinos, mandou demolir todo o imóvel.

Penso às vezes na razão de ter sido poupada. Talvez ele tenha tido pena da minha imaturidade, do nada que eu havia vivido até então. Talvez tenha preferido me deixar com o benefício e a maldição da dúvida. Eu volto pra te buscar. Isso foi há cinco anos. Ele não veio.

Ainda.

segunda-feira, maio 02, 2005

KHEPHRA - VOICES IN THE SILENCE - Fotos

Mortais,

neste último sábado, os NecroAutores estiveram no evento Khephra - Voices in the Silence, no Evolution em Guarulhos distribuindo gratuitamente exemplares do NecroZine.

O evento estava muito bem organizado, e a casa era muito interessante. Os que compareceram puderam esquentar a noite fria ao som de muito gothic-metal e industrial, tocados com competência pelos DJ's convidados, e de quebra visitar a feira com produtos góticos, fã clube do Lacrimosa e, é claro, com a galera do NecroZine.

Abaixo seguem algumas fotos do evento, tiradas pelo nosso colega Fernando Cyrano, moderador da lista Anne Rice-BR. Para ver todas as fotos do evento, é só clicar no link abaixo:

http://visuh.net/fotos


Os NecroAutores: Gian, quase queimando a mão na vela, Giorgio, sempre alegre em seu cardigã, Richard, devidamente escrachado, e Alexandre, se achando Leão de Chácara.


No canto esquerdo, Macalé, que não conseguiu esconder o seu cachê para participar do evento ("Vou encher a caveira!")...


... e no canto direito, Nicola, muito mais comedido.


O crachá dos expositores.


A faixa do NecroZine no mezanino granhou um brilho especial graças à luz negra.


Os NecroAutores juntos com a organizadora do evento, Iza Fire.

Para quem compareceu, agradeço em nome dos NecroAutores a presença e apoio. Para quem não pode ir, nos vemos no próximo!

Abraços Sombrios,


Caronte
caronte@necrozine.zzn.com