quarta-feira, abril 27, 2005

Convite - KHEPHRA - Guarulhos/SP

Mortais,

os NecroAutores estarão neste sábado no evento Khephra - Voices in the Silence, que acontecerá em Guarulhos, distribuindo gratuitamente exemplares do NecroZine.

Abaixo seguem as informações a respeito do evento:

KHEPHRA - VOICES IN THE SILENCE
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DJ'S:
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IZA FIRE
SHINDO (OPUS)
IMAI
CHEG (OPUS)

ESPECIAL:
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LACRIMOSA C/ LÚ WOLFF

PARTICIPAÇÃO:
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NECROZINE - Distribuição de Zines de Terror
SOLIDÃO - Exposição de telas do Artista Pástico André Imai
STAND DE PRODUTOS À VENDA

INGRESSOS:
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Antecipados: R$10,00
Na Porta: R$12,00

DATA:
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30/04/2005 (Sábado) a partir das 23hs

LOCAL:
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R. Padre Celestino, 197 - Centro - Guarulhos

INFORMAÇÕES:
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http://khephra.br21.com/
khephra_project@yahoo.com.br

Estão todos convidados.

Espero vocês lá!

Caronte
caronte@necrozine.zzn.com

segunda-feira, abril 25, 2005

Que Caiam as Pedras

por Richard Diegues

Delicado, o jovem padre curvou-se, observando o conteúdo do buraco. A luz era insuficiente para revelar detalhes, mas percebeu que estava diante de uma ossada. Tentou imaginar o que o velho padre fazia com uma ossada enterrada sob o altar da igreja, quando se descontrolou e deu um salto, tropeçando e se debatendo desajeitado contra o mármore do altar, rastejando como podia para longe do buraco.

– Acalme-se, Antero – disse o padre Norato tentando segurar seu braço sem sucesso – não há o que temer.

– Vi a ossada se mover. O peito subiu e desceu, o queixo mexeu e da boca saíram palavras – gritou apavorado, segurando o crucifixo de prata que pendia do pescoço e iniciou uma ladainha.

Graça a sua experiência, Norato dirigiu-se ao primeiro degrau do altar e sentou-se. Pegou seu próprio crucifixo e começou a polir com uma dobra da batina.

Levou quase uma hora, mas por fim as preces cessaram e o jovem padre se moveu. Norato observou o companheiro aproximar-se do buraco e olhar para dentro temeroso, depois aguardou que engatinhasse até onde se encontrava e o encarou. Não esperou pela pergunta. Não era necessária.

– Cândida, é o nome da mulher sob o altar. Está viva e repousa no que alcunhou como sendo "seu bento solo português". Isto se dá desde antes das caravelas chegarem ao seu Brasil, meu rapaz.

– Mas como pode uma coisa como aquela estar viva? Um demônio não pode habitar a casa do Senhor. E aquilo – apontou a mão segurando o crucifixo para o altar – só pode ser um demônio. Ossos, pele e nada mais. E os cabelos? Metros de cabelo esbranquiçado ao redor, como se crescessem indefinidamente. Não, nada além de um demônio teria tal forma e permaneceria em vida.

– Antero, creia em mim. Quando assumi esta igreja, o padre anterior me mostrou o mesmo lhe que mostro. Contou-me a história e eu a passo para ti. Ouvirás? – Indagou, aguardando a resposta que se deu com um meneio de cabeça.

– Pois então ouve. Essa mulher, Cândida, foi uma das mais ricas viúvas destas terras. A igreja a nossa volta foi construída por ela. Cada uma dessas pedras colocada pra não ceder jamais. Sorte da obra. Azar da coitada – calou-se e meditou um momento – ou sorte, quem saberá?

– Como é possível? Informaram-me que a igreja tem mais de mil anos.

– Informação boa. O caso é que Cândida era velha antes da construção. Viúva com o marido no inferno. Pecador pela avareza. Avareza esta, que do falecido passou para ela. O diabo a teria em breve. Sabes que o diabo tem a alma dos avarentos, não é? Quando estava velha e perto de morrer, Cândida desesperou-se com a proximidade do inferno e cometeu seu grande erro: Rezou. Durante dias e dias, rezou ao céu para ter mais tempo na terra. Sabia que não poderia ir ao paraíso, mas aqui evitaria a danação. Tanto o fez e com tanto afinco que um anjo veio um dia e pactuaram. Cândida construiria uma igreja e enquanto as paredes permanecessem de pé, ficaria viva.

O jovem tornou a olhar para o altar, engolindo seco ao ver a imagem de um arcanjo esculpida no pedestal de mármore.

– Sim, foi uma grande estupidez. A igreja ficou pronta rapidamente. A fortuna permitia tal feito. Uma igreja de pedra, firme e robusta. A igreja foi concluída e Cândida sentiu-se segura. Anos se passavam e sobrevivia, mantendo a alma distante das portas do inferno, no entanto creio que sabe o que foi ocorrendo, não? Filhos, netos, amigos, vizinhos, todos morreram. O tempo passou e deixou de somar anos, para somar séculos. A aparência definhou. Foram restando apenas ossos e lembranças. Passou a levar os dias sentada, na porta de casa, perguntando a quem passava se enfim a igreja havia caído. Passou a rezar para que as pedras fraquejassem, mas nada.

Antero olhou ao redor e um tremor passou por sua espinha. As paredes eram tão grossas e as pedras tão compactas que poderiam agüentar mais um milênio, mesmo sem manutenção.

– Sim, quem saberá o quanto essas paredes ainda permanecerão de pé? Cândida compreendeu isso e um dia pediu ao padre daqui, depois de contar sua história, que pudesse permanecer sob o altar, deitada, até que o mesmo sucumbisse. Está lá desde então, orando sem parar. – Venha, recoloquemos a pedra em seu lugar.

O jovem padre não queria acreditar no que ouvia, porém não discutiu. Assumiria a igreja no dia seguinte e avaliaria o caso. Limitou-se a auxiliar Norato com o piso. Quando cerrava o buraco, ouviu a reza saindo pela fresta ainda aberta.

– Reza para que Deus absolva seus pecados? Quer que Deus recolha sua alma para junto de si? – Antero perguntou baixinho, lacrando totalmente o buraco.

– Creio que por alguns séculos pediu isso – respondeu o Norato erguendo-se –, mas depois de tanto tempo sofrendo, deixa-se de acreditar em Deus. Até o inferno se torna mais simpático. Tudo o que pede agora, é que caiam as pedras.

quarta-feira, abril 13, 2005

A Caixa

© Alexandre Fernandes Heredia

Ele chegou um pouco depois de Teco, procurando abrigo da chuva. Teco, por sua vez, moveu-se um pouco para o lado, de modo a dar espaço ao recém-chegado.

Seu nome era Manco. Não seu nome verdadeiro, claro, mas como o povo da rua quinze o chamava. Teco nunca entendeu aquele apelido, pois Manco aparentemente andava muito bem, tanto que vivia fazendo entregas para o Jobson.

Mas não dava pra fazer entrega nenhuma com aquela chuva, por isso Manco correu para a saída de ar do metrô que Teco estava usando como moradia nos últimos dias. Não se importava em dividir o espaço, muito pelo contrário. Gostava de companhia. Tanto quanto um garoto de seis anos podia gostar.

- Quié isso? - perguntou o Manco, depois que sacudiu a água represada no pixaim. Teco não entendeu. - Na tua mão, abestado!

- Ahn, isso? Sei não.

- Não sabe? Então pra que tu anda com essa caixa velha dum lado pro outro?

- Foi a Mãe que deu...

- "Foi a mãe que deu..." - zombou Manco, mostrando os dentes tortos e uma careta engraçada. - Quié que tem dentro dessa caixa da tua mãe?

- Sei não.

- Então abre, e a gente descobre.

- Não posso. Ela disse pra não abrir. Acho que tá vazia.

- Vixe, moleque lesado! De que serve uma caixa se não é pra carregar nada? Deve ter alguma coisa que valha aí drento.

- Sei não. Mas não é pra abrir. A Mãe disse que era pra eu guardar, mas que um dia ou eu ia perder, ou iam tomar de mim.

- Depois o manco das idéia sou eu! Quem ia querer uma caixa velha que nem essa? 'Inda mais vazia!

- Ela tá velha agora, mas quando a Mãe me deu tava novinha. Ela me disse que tinha feito só pra mim, pois a dela ela tinha perdido fazia tempo. Dizia que era pra guardar a coisa mais importante da vida, mas nunca explicou que treco era esse.

- Ah, entendi! A velha tava te usando de avião.

- Hum?

- Ô bicho lerdo! Avião, mula. Que nem eu. Tua mãe era do tráfico?

Teco sacudiu a cabeça vigorosamente. Podia não ter muita intimidade com o jargão da rua, mas sabia que a palavra "tráfico" nunca vinha num contexto bom. Sua mãe mesmo disse que tráfico era errado, e que meninos bonzinhos não se metiam com traficantes.

- Só tem um jeito de saber. Dá aqui essa porra.

- Não!

- Não vou tomar de você, moleque, relaxa. Só tô curioso. Você não tá?

- Arrã. Mas a Mãe disse pra não abrir, e eu não quero desobedecer. A Neca um dia queria tomar ela de mim, mas a Mãe não deixou. Brigou com ela.

- Quem é a Neca?

- É a vizinha. Tem um namorado diferente todo dia.

- Êita! E cadê tua mãe, ô fio dum calango?

- Num sei. Me mandou embora de casa. Disse que eu ia tá em perigo se ficasse com ela. Falou pra eu me virar.

O Manco deu uma risada esquisita.

- Tá com fome?

Mais um sacudir de cabeça, positivo desta vez, e cheio de esperança. Nos últimos dois dias não tinha comido nada, só tomado água suja da fonte da praça. Seus olhos brilharam quando o Manco tirou do bolso um saco plástico, que desenrolou rapidamente.

- Tó, dá uma cafungada. Pra enganar o bucho.

- Quié isso?

- Vixe, tô ferrado! Tu é cabaço?

Sem saber o que significava aquilo, Teco pegou o saco e cheirou seu interior. O odor imediatamente queimou suas narinas, e ele desviou, lágrimas incontroláveis caindo de seus olhos, num choro esquisito, que na verdade não era choro, mas que ele não conseguiu controlar.

- Não, ô besta! Com a boca! Assim ó...

E o Manco mostrou. O saco encheu e esvaziou três vezes antes que ele emergisse com um sorriso bobo na cara. Sem dizer uma palavra, passou o saco novamente para Teco. Ele repetiu a manobra do Manco, e sentiu imediatamente os efeitos no jovem cérebro. Um formigamento tomou conta de seu corpo, olhos semicerrados, coração nos ouvidos. A fome sumiu. O medo sumiu. A caixa, esquecida momentaneamente, escorregou pelo seu colo e caiu no chão, esfacelando-se um pouco mais.

O efeito durou menos que ele desejava, e suas pupilas aos poucos retornaram para o tamanho correto da iluminação de começo de noite. Abriu novamente o saco, pronto para repetir a experiência, mas ele foi imediatamente retirado de suas mãos.

- Vai na manha, moleque. Isso aqui pode queimar teus miolos. Pra primeira vez, tá de bom tamanho. Se tu quiser amanhã eu trago de novo.

Teco concordou, ansioso. Em seguida lembrou-se da caixa, que quase foi abandonada na experiência, e a puxou novamente pra perto de si. A tampa havia ficado um pouco mais arruinada no curto período de esquecimento, mas ele não notou. Assim que a colocou junto do corpo pensou em voltar atrás e recusar a oferta, mas achava que o Manco, que havia sido tão legal com ele, pudesse ficar ofendido. E queria tê-lo como amigo. Na rua é sempre bom ter amigos.

- Qual o nome dela?

- Hum?

- Volta pra Terra, pirralho. Tua mãe.

- Mãe? Juraci.

- Juraci? A Juju do Barraco Baixo?

Teco concordou, espantado.

- Danô-se! Tu é o moleque dela? Vixe, tô ferrado!

- Que foi?

- Moleque, tua mãe tava certa em te mandar embora. Ela tava cheirando mais que cocota em boate. Eu mesmo entreguei um monte de papel na tua casa. Bem que eu tinha reconhecido tua fuça, mas na rua a gente nunca sabe, né? Só que ela não pagou o Jobson. E quem não paga o Jobson, já sabe, né?

Não, ele não sabia. Lembrava de Manco chegando de vez em quando em sua porta. Era sempre bem recebido, e depois que ele ia embora sua mãe ficava mais feliz. E Teco ficava feliz quando o Manco chegava em sua casa, mesmo a mãe mandando ele pro quarto “pra ficar com sua caixa”. Mas o Jobson ele nunca viu antes de ser expulso. Já tinha ouvido falar nele, mas nada demais. Jobson era um traficante, isso ele aprendeu. E traficantes são ruins. Só não sabia por que.

- Quiquieufaço agora? Ô Mãe do Céu, tanto lugar pra se esconder da chuva e tu me joga junto dum órfão de uma cheirada?

- Eu não sou órfão!

- Agora tu é, moleque. Tua mãe não pagou o Jobson, e ele apagou ela. Assim, pá, pum, boca cheia de formiga. Não tem conversa. Tua mãe já era.

Uma sensação semelhante à de cheirar o saco plástico do Manco se apossou pelo corpo de Teco. O corpo formigou inteiro, e o coração batia tão forte que reverberava em seu crânio. Sem perceber, largou novamente a caixa de lado, que agora parecia bem mais velha do que no começo da conversa, e enfiou a mão no bolso. Sentiu a textura lisa do objeto que encontrara jogado no mato na véspera. Seu polegar parou na única parte áspera e empurrou. Tec.

- Tu tá perdido. Tua mãe tá mortinha da silva. Cheirou casa, fogão, liquidificador... Mais um pouco e cheirava até você, podes crer. Agora tá comendo capim pela raiz. Pagou com a vida. Puta viciada dos infernos. Tu tá melhor sem ela.

Tec-tec. Uma gota de suor escorreu pela sua testa e caiu no chão. Tec-tec-tec. A respiração estava rápida e barulhenta, ressoando com o ribombar de seu coração nas têmporas. Tec.

- Moleque, melhor tu falar com o Jobson. Ele vai te dar sustento, como deu pra mim. Viver na rua não é pra qualquer um, e tu é muito novo pra ficar por aí. O Jobson vai te ajudar. Sei que vai. Mais que a estúpida da tua mãe.

Tec.

- Senta aí! Onde tu vai? Tá chovendo pra burro ainda... Ei, o que tu vai fazer com isso?

Teco não via mais nada. Segurou o estilete com tanta força que sentiu os dedos doerem. Antes que o Manco percebesse, a lâmina já tinha penetrado fundo em sua garganta, cortando vasos e artérias essenciais. A traquéia se inundou de sangue imediatamente. Tentou se erguer, mas a lâmina penetrou mais uma, duas, três vezes. O sangue esguichava a jatos curtos mas constantes, e ele caiu pra trás. A última coisa que viu em sua vida foram os olhos insanos de um garotinho de seis anos sobre ele.

Depois que o Manco parou de se mexer, Teco largou o estilete ensangüentado, que repicou no concreto áspero. Virou-se e saiu do abrigo, sendo imediatamente lavado pela chuva torrencial. O sangue escorreu de suas mãos, e as manchas em sua roupa rapidamente adquiriram um tom róseo. Saiu, cambaleante, sem destino, abraçando relutantemente a cidade que agora seria seu lar.

No duto de ventilação ao lado do corpo largado do Manco, jazia a caixa, agora uma coisa arruinada e bolorenta, largada displicentemente ao relento. Nada mais que uma metáfora vazia, perdida e, provavelmente, esquecida para sempre.

sexta-feira, abril 08, 2005

Em Meio ao Silêncio

© Richard Diegues

Às vezes o silêncio é tudo o que eu desejo. Gosto de pensar em silêncio.

Sento à minha poltrona captoné, acendo meu charuto Cohiba e depois molho a garganta com minha bebida preferida: um bom pisco. Meu irmão sempre chega neste momento, batendo à minha porta. Há anos e anos isso se repete. “Entre”, é o que digo sempre, mesmo desejando dizer o contrário.

Rangem os gonzos. Igual ruído faz a madeira sob seus pés que se arrastam. Pedriscos, sob o couro da sola de seus sapatos, também se permitem ouvir, enquanto agridem o meu parquet. Porque arrasta os pés sujos, definitivamente é uma coisa que não compreendo. O fim da sinfonia se dá, quando Aldo escorre pelo encosto de meu sofá, até se acomodar sobre o veludo mostarda.

Como pode nosso próprio sangue ser tão truculento, é uma pergunta que repito à exaustão, principalmente ao ver os sapatos dele repousando, onde não deveriam nem mesmo passar perto. Tenho meus brios. Resolvo sair da sala, mas assim que ameaço erguer-me, ele inicia o palavrório.

– Porque não vem comigo, Berto? És tão glorioso, meu irmão, que crê mesmo que viverá para sempre? Rememore nossa vida antes de meu acidente. Éramos felizes juntos. Não me importa que tenha crescido. Venha comigo. É fácil, basta usar uma arma, veneno ou cortar os pulsos – falava com voz inocente.

– Entendo seus motivos, caríssimo irmão, porém já lhe afirmei ontem, antes de ontem, e durante todos esses anos em que me atormentas: para ir contigo, necessitaria estar morto. E não quero morrer.

Os olhos dele se abrem e me fitam. Olhos baços e sem vida. Olhos profundos e pesarosos. Olhos de um fantasma. Nessa hora eu me lembro que é isso o que é: apenas um fantasma.

– Está bem, Berto, – geme displicente enquanto se eleva nos quadris e põe-se de lado – mudemos de assunto então. Sei que um dia virá comigo para outros lugares mais interessantes.

– Tu és morto, irmão. Compreenda isso. És um fantasma e pertence sei lá eu aonde. Não quero discutir novamente esse tipo de assunto. Morreu! O que é tão difícil de entender?

Tomo um gole tão grande de meu Pisco que engasgo e a tosse me aflige por vários instantes. Daí pra frente tudo se torna amargo e modorrento. O charuto não tem mais sabor. O ar parece espesso. Sentimo-nos mal um com o outro. A conversa descamba para assuntos funestos. O tempo custa a passar. Eu e Aldo empurramos a conversa até que os primeiros raios de sol tocam os vitrais da sala. Esse é o ponto em que diariamente ele parte, sumindo na névoa, e o meu querido silêncio retorna. Alegro-me com sua partida, mesmo penalizado por sua condição. Não sei para onde parte quando o sol nasce, mas todos os dias vêm aqui me aborrecer com suas lamúrias e chamados.

Observo meu charuto que ia chegando ao fim e esfrego a brasa do toco no fundo do cinzeiro. Mal faço isso, vejo o bolor verde-acinzentado em tudo o que Aldo tocou. Se apenas isso me irritasse, estaria bom.

Enquanto pego as velas e traço com carvão, palavras e símbolos, que vou copiando do livro macabro que tenho em mãos, lembro de como éramos felizes quando jovens. Ao recitar as palavras de exorcismo, sinto pena de meu irmão, mas eu preciso ter meu silêncio de volta. Ele morreu, portanto é um fantasma, deixando de ser meu parente. Termino o ritual e fecho o livro com lágrimas nos olhos.



A noite chega. Realizo o mesmo ritual de todos os dias. Hoje escolhi um brandy. Quando tomo o primeiro gole e repouso o cálice, fico aliviado. Nenhuma batida na porta se faz ouvir. Nada de Aldo quebrando o silencio que me apraz. Sei que irá sofrer onde quer que esteja, mas ao menos assim não ficará mais me tentando diariamente a partir com ele. Que descanse em paz, então.

De olhos fechados, relaxo em minha poltrona, como há tempos não conseguia fazer. Levo o cálice aos lábios com um leve sorriso, desfrutando do nada ao meu redor. Nesse momento então, sinto o toque gélido em minha nuca. Para minha tristeza, reconheço os dedos de Aldo. Dedos que deveriam estar no inferno neste momento. Para meu desespero, sinto a pressão esmagadora que o ódio imprime em suas mãos, e sei que dessa vez não terei escolha: partirei com ele.

terça-feira, abril 05, 2005

SARAU TINTA RUBRA - Fotos

Mortais,

no último sábado (02/04/2005) aconteceu o 1º Sarau do Grupo Tinta Rubra, da qual os NecroAutores fazem parte, no Centro Cultural São Paulo.

O encontro foi agradável, numa tarde ensolarada pouco típica para criaturas notívagas, e contou com a presença das escritoras Giulia Moon, Martha Argel, do Adriano Siqueira do Adorável Noite, do Fernando Cyrano, moderador do Grupo Anne Rice - BR, e de diversos participantes das listas, tanto dando mini-palestras quanto lendo textos seus e de outros.

Abaixo seguem as fotos do evento, torcendo para que este seja o primeiro de muitos.


O Sarau visto por outro ângulo. De pé, Alexandre lia seu conto do NecroZine #3 ao lado de Martha Argel.


Alexandre faz biquinho ao ler seu conto do NecroZine #3.


Fernando, do Anne Rice-BR, faz palestra sobre o livro 'Memnoch'.


O pessoal prestando atenção aos palestrantes.


Adriano entretêm a galera com sua palestra sobre Vampiros nas HQs.


Richard e Verena, sob o olhar de soslaio de Camila.


David e Camila, numa pose fantasmagórica.


Giorgio e Tetsuo: "Chifre é uma questão de perspectiva".


Giulia Moon lê um texto em homenagem a Martha Argel.


Martha Argel inicia sua mini-palestra de vampiros no reino animal.


Richard, Verena e Alexandre, numa rara aparição vestidos de branco.

Abraços Sombrios,
Caronte
caronte@necrozine.zzn.com