quarta-feira, março 30, 2005

NecroZine #3 + Papéis de Parede + Sarau

Mortais,

muitas novidades nesta quarta feira. Os NecroAutores, num arroubo de empolgação, surgem hoje com três anúncios que, penso, agradarão a todos.

Vamos a eles:

NECROZINE #3 DISPONÍVEL PARA DOWNLOAD

A partir de hoje o novíssimo NecroZine #3 está disponível para download, para aqueles que não conseguiram ir ao lançamento no último sábado, seja por preguiça, seja por problemas geográficos. Ele está aí ao lado, na sessão downloads.

Lembrando que para visualizá-lo é necessário ter o programa Adobe Reader instalado. Se ainda não tem, clique na caixinha logo abaixo das capas dos zines e proceda com a instalação.

PAPÉIS DE PAREDE DO NECROZINE

Mais uma colaboração da NecroAutora Camila Fernandes, desta vez para decorar sua área de trabalho. São obras lúgubres, mas belíssimas, sempre remetendo a algum texto colocado aqui ou nos zines.

Para baixá-los, clique sobre sua imagem (logo abaixo dos zines). Uma nova janela se abrirá, com a imagem completa. Clique com o botão direito sobre a imagem, e no menu que se abrirá escolha "Definir como Plano de Fundo" ou "Set as Wallpaper". A resolução recomendada é 1024x768.

SARAU TINTA RUBRA

O pessoal do Tinta Rubra está organizando um sarau literário, e os NecroAutores estarão por lá, divulgando seu trabalho e distribuindo cópias do NecroZine #3.

Claro que estão todos convidados. Seguem os detalhes abaixo:

SARAU DO TINTA RUBRA:

DIA: 02 de abril de 2005
LOCAL: lanchonete do CENTRO CULTURAL VERGUEIRO, ao lado do metrô Vergueiro, em São Paulo
HORA: 15hs

Confirmados!

Mini-palestras:

BIOLOGIA DOS VAMPIROS, por Martha Argel
METAFÍSICA DOS VAMPIROS por Roberto Melfra
MEMNOCH, livro de Anne Rice, por Fernando (moderador do grupo Anne Rice-BR)
VAMPIROS NO HQ, por Adriano Siqueira.

Leituras de contos e poemas pelos integrantes da Tinta Rubra.


Prestigiem mais este evento.

Abraços Sombrios,
Caronte
caronte@necrozine.zzn.com

terça-feira, março 29, 2005

Vampiro de aluguel

© Giorgio Cappelli

O demônio prostrado ao chão sangrava muito pela garganta. Não sentia nada abaixo da cintura, sequer conseguia mexer qualquer parte do corpo. Braço esquerdo quebrado na altura do cotovelo. Culpa daquele sujeito de cócoras, sorrindo-lhe com escárnio calculado.

– Como é possível eu ter sido derrotado? – tossiu o diabo, os olhos alaranjados lacrimejando – Eu sou um dos servos de Lúcifer! Você é um mero...

– Vampiro? – interrompeu o outro, num tom afetado – Errado. Eu fui um vampiro.

Finda a frase, agarrou os cabelos da nuca do demônio, encurtando a distância entre os rostos. Colou a boca na orelha do vencido e sussurrou-lhe:

– Deseja saber como te derrotei?

Um estalo. O pescoço foi partido com tal velocidade que o demônio nem notou o instante de sua morte.

– Esqueça. É segredo. – respondeu o assassino.

Chamava-se Clister. Quase aos cinqüenta anos como vampiro, levava uma existência aquém do medíocre. Ninguém sabe como, ou quando, sua força começou a aumentar, subindo aos níveis de vampiros seculares. Pouco a pouco, Clister suplantou também a estes; tornou-se uma quase lenda; havia quem jurasse tê-lo visto caminhando à luz do dia.

Eis que surgiu a oportunidade de trabalhar como matador de demônios, coisa impensável até para o mais poderoso dos bebedores de sangue. Desde que entrara no ramo, porém, ele jamais conhecera uma derrota.

De um dos bolsos de seu sobretudo azul-marinho, Clister puxou uma garrafa de dois litros. Arrancou a rolha, apontou o gargalo para baixo e derramou o conteúdo no cadáver a seus pés. Ficou assistindo à combustão do demônio até as chamas consumirem tudo. Nenhuma evidência do crime. Somente um resto de líquido na garrafa. Três goles, e Clister deu cabo da água-benta.

Próximo trabalho? Sacou o celular do sobretudo e teclou. Do outro lado da linha, passaram-lhe as informações. Apertou o chaveiro colorido em sua mão e o alarme de seu Aston Martin apitou. Entrou no automóvel, ligou-o e partiu.

Noite quente. De dentro do carro, Clister se perguntava por que os demônios se vestiam sempre daquele jeito: chapéu da Segunda Guerra Mundial, luvas e capotão com a gola erguida. No marcador de temperatura abaixo do painel de propaganda lia-se vinte e oito graus. Talvez fizesse muito mais calor no inferno.

A vítima de Clister andava pela calçada deserta de um parque arborizado. Vinha na direção do Aston Martin. Um mendigo cambaleante com uma garrafa suja parou na frente do sujeito de chapéu e sobretudo. Resmungava palavras com voz pastosa e ininteligível. O sujeito respondia com negativas, que o mendigo aparentemente não entendia. Só havia um jeito de se livrar do insistente: meteu a mão num bolso, enquanto o mendigo levava a garrafa à boca. Quando estendeu uma moeda para entregar ao bêbado chato, foi surpreendido por um jorro que molhou-lhe o rosto.

– Ah, maldito! – xingou, tentando enxugar-se com as mangas de seu sobretudo. Só percebeu a armadilha ao levar um chute forte no meio das costas, que o fez ajoelhar-se.

– Gostou da água-benta, demônio? – ironizou Clister.

Tentou outro chute; o ágil oponente, ainda ajoelhado e sem ao menos se virar, agarrou o pé de Clister e o torceu, levando o vampiro ao chão. Uma cambalhota rápida, e o sujeito se levantou. Livrou-se do sobretudo e do chapéu. A aura em volta do corpo e destacada ao redor da cabeça, invisível para olhos comuns, fez com que Clister descobrisse não se encontrar diante de um demônio, e sim de um anjo.

Nunca antes Clister havia lutado contra um ser celestial. Sabia apenas que nem os demônios ousavam enfrentá-los, a menos que em superioridade numérica. Confiou em sua força e foi para cima do oponente.

Muito mais veloz, o anjo se defendia de todos os ataques. Clister mais apanhou que bateu. Embora soubesse que tinha agilidade impressionante até para um vampiro, perto do oponente parecia brigar em câmera lenta. Quando deu por si, seus pés bailavam no ar e suas costas batiam contra o tronco de uma árvore.

– Conheço seu segredo, vampiro! – rugiu o anjo, agarrando o oponente pelos colarinhos, impedindo-o de escapar – Pensa que foi o primeiro a ter essa idéia?

Clister arfava de cansaço e não respondia.

– Você se fortalece bebendo o sangue de demônios! – retomou o adversário – Eu mesmo destruí outros que tinham esse hábito. Dê seu último sorriso, monstro!

Tudo aconteceu rápido demais: o vampiro viu a silhueta quadrada crescendo atrás do anjo, ergueu os braços, escorregou para fora da roupa, deslizou por debaixo das pernas do ser celestial e se deitou na grama. Seu rival entendeu tardiamente a arapuca; um ônibus prensou-o contra a árvore de forma indefensável.

Clister saiu debaixo do veículo com desenvoltura, já se dirigindo ao motorista, uma garota de vinte e poucos anos metida em roupas de mendigo.

– Corre. – ordenou ela, quase sem emoção, mostrando uma banana de dinamite acesa – Esse troço tem pavio mais curto que eu.

Houve tempo apenas para Clister puxar a garota, abraçar o corpo dela ao lado do seu e tentar correr, mesmo cansado e dolorido. Atrás de si escutavam a explosão que levava pelos ares ônibus, árvore, anjo e o que mais estivesse por perto. O deslocamento de ar tirou os dois do chão. Com dificuldade ele conseguiu manobrar um vôo improvisado e pousam de um modo nem um pouco edificante.

A uma distância mais que segura, Clister e sua ajudante assistiam ao incêndio da cratera que tinham ajudado a abrir. Sirenes de bombeiros e polícia confundiam-se ao longe.

– Você demorou muito pra aparecer, Cris! – reclamou ele.

– Já tentou guiar um busão à noite com os faróis apagados, amigo?

– Não. Mas conseguiria.

– Só que eu, ao contrário de você, não tenho visão noturna. Agora explica uma coisa: se você é um matador de demônios, um anjo não deveria estar a seu lado?

– O que eu mais amo em você, amiga, é sua ingenuidade. Quem você acha que mandou esse cara contra mim? Se não foi algum grupo evangélico poderoso, deve ter sido uma entidade secreta sustentada pelo Vaticano!

– Hã?

– Eles não querem me ver vivo, e sabe por quê? Porque eu estou acabando com a razão de ser dessas religiões; de que adianta a Fé em Deus sem a presença do Inimigo?

A garota ficou em silêncio, obrigada a concordar que Clister tinha razão. Nem dez segundos se passaram, e ela soltou uma das suas pérolas:

– Se for gente do Vaticano, pede um sobretudo Armani... "a nível de" ressarcimento!

Entraram no Aston Martin e decidiram encerrar o expediente mais cedo. No dia seguinte, Clister escolheria com tranqüilidade o destino do infeliz que contratara o anjo.

segunda-feira, março 28, 2005

WISH OF DEADS - Fotos

Neste último sábado, 26/04/2005, os NecroAutores participaram do evento WISH OF DEADS, na LedSlay em São Paulo, onde lançaram o tão aguardado NecroZine #3 para um povo descontraído e interessado no trabalho deles.

O evento foi um sucesso absoluto. A casa estava cheia, as bandas estavam ótimas, e no final foram distribuídos muitos fanzines. Muitos MESMO!

Se você não teve oportunidade de prestigiar esse evento, não se preocupe, haverão outros. Além disso essa semana mesmo o NecroZine #3 estará disponível para download aqui no blog. Pode deixar que eu aviso quando sair através de nossa newsletter (não assinou ainda? É só preencher a caixinha no canto superior direito).

Sem mais delongas, as fotos, tiradas por Adriano Siqueira, do Adorável Noite:


A mesa e o NecroZine #3, para quem ainda não viu a capa.


Os NecroAutores, novamente desfalcados de Camila, que foi substituída interinamente por Roberta Nunes no evento.


Alexandre, sem conseguir disfarçar o sono ao final do evento, posa para uma foto com o NecroZine #3, sob o olhar severo de Giorgio.


Richard, numa rara foto espontânea, arruma os fanzines na mesa.


Momento de descontração dos NecroAutores.


Foto do grupo, 1ª tentativa. Quase, se não fosse pelo olhar "Quem é essa alienígena minúscula?" de Gian


Foto do grupo, 2ª tentativa. Que cara feia, Alexandre e Richard!

Até a próxima!

Abraços Sombrios,
Caronte
caronte@necrozine.zzn.com

quarta-feira, março 23, 2005

Síndromes

© Alexandre Fernandes Heredia


– Doutor, eu acho que estou morto.

Clique de uma caneta. Ranger de tecido raspando em couro encerado. Um pigarro.

– E por que você acha isso?

– Não sei ao certo. Acordei um dia, e sabia que estava morto.

– Como um morto pode acordar?

– Ei, eu estou aqui para respostas. SUAS respostas. Perguntas já tenho um monte.

– Então você veio ao lugar errado. Sou um psicanalista, não um vidente. Eu não forneço respostas, apenas guio para que você as conclua por conta própria...

– Eu sei, doutor. Desculpe. É que, bom, isso é muito estranho. Sabe, estar morto...

– Você não me respondeu. Tente. Por que acha que está morto?

– Foi de um dia para o outro. Na noite anterior eu tinha tomado remédios para dormir em certo exagero. Não queria me matar, compreenda. Eu queria dormir por uns dois dias. Me desligar do mundo.

– Por que?

– Precisa explicar? Por causa dessa merda de vida que eu tenho! Quero dizer, tinha. Sozinho, sem amigos, sem namorada, sem dinheiro, a carreira no buraco. Eu tinha perdido o emprego naquele dia. Em casa estava tudo bagunçado. Até o chuveiro tinha queimado e eu não tinha dinheiro pra comprar uma resistência nova. Lembro de ter pensado em desespero que não conseguiria sobreviver até a chegada da grana da rescisão. Foi por isso que eu decidi dormir. Ia dormir por dias, até sair daquele sufoco.

– Uma solução escapista?

– Chame-me de Houdini, se quiser. A verdade era que eu não sabia mais o que fazer. Não queria passar por aquele negócio de entrevistas de novo. Não queria outro emprego. Não queria mais trabalhar. Queria juntar todos os problemas em um baú e jogar no rio. Sabe como é?

– Sei – risos simpáticos. – Infelizmente isso não é possível, é?

– Não, não é. Bom, o lance é que eu queria me desligar dessa merda toda. Desculpe o linguajar, mas é a verdade. Essa é uma das vantagens de estar morto. Você não fica preso às limitações mortais. Não precisa de dinheiro, de sexo, de carro na garagem, de comida no bucho.

– Você não come?

– Às vezes me vejo comendo. Resquícios da mortalidade, penso eu. Em pouco tempo espero me livrar disso. Vou no banheiro também. Estranho, né?

– Nem tanto. Fale-me de sua vida sexual.

– Quando eu estava vivo? Nula. Inexistente. Não quero falar nisso.

– Por que não?

– Porque não interessa. Nem a mim interessava. Sexo era uma coisa chula, imunda, nojenta, pecaminosa. Supervalorizada. Beijo na boca é algo asqueroso. Não vejo nada de interessante em duas pessoas trocando muco. Não fazia sexo porque não era meu lance, só isso.

– Você disse alguma coisa sobre namoradas...

– Disse. E daí? Não tive muitas, e as poucas que tive foram uma merda. É uma das coisas que eu não sinto falta de quando estava vivo. Não sentia tesão por nada. Nem por mulher, nem por homem, nem por bicho. Meu pau era apenas uma torneira de mijo fazia tempo. Hum, desculpe...

– Não se preocupe. E seus pais?

– Eh, caímos nessa finalmente? Eu sabia que cedo ou tarde chegaríamos a esse ponto. Desculpe, doutor, mas eles não tem culpa no cartório. Me criaram com excesso de zelo e amor. Nunca me faltou nada.

– Mas então por que...

– Não quero falar nisso. Mortos não tem parentes. Já não sou parte de um círculo familiar. Eles que fiquem com a memória de minha existência anterior. Agora estou livre dos grilhões sociais. Chega de convenções estúpidas. Sou apenas energia livre. Um fantasma que esqueceu de entrar no túnel.

Novo clique. O tecido da calça do psicanalista range novamente ao se ajeitar na poltrona de couro. O bloco de notas é fechado e colocado sobre a mesa.

– Muito bem. Tenho uma revelação a fazer, e ela pode te chocar, por isso prepare-se. Não vai ser fácil aceitar, mas você precisa. É por isso que você veio aqui.

– Pode mandar ver, doutor. Nada pode ser mais estranho que eu estar morto e ainda assim estar num psicanalista.

– Bom, a verdade é que você não está morto. Não me olhe com essa cara de desprezo. É verdade. Precisa de provas? Bom, eu não sou nenhum médium, e mesmo assim o vejo e converso com você normalmente. Você está sentado na cadeira, isso significa que é palpável. Você se alimenta, defeca, dorme. Mortos não fazem isso. Ah, e mortos não vão à psicanalistas. Eles vão a algum lugar de premiação ou punição, de acordo com suas crenças e culpas. Não ficam por aí, vagando, nem ficam se questionando ao ponto de precisarem de um terapeuta.

– Mas eu...

– Sem mas. Aceite de uma vez, você está vivo. Você na verdade sofre de uma patologia rara, chamada Síndrome do Cadáver. Pessoas cujas vidas são tão frustrantes e vazias que imaginam que já estão mortas. Zumbis. É uma resposta neurológica, fruto de uma depressão profunda não tratada a tempo. Você queria respostas? Pois bem essa é a resposta que eu tenho para dar. Você está vivo. Viva a vida!

– Não pode ser...

– Eu disse que não seria fácil de aceitar. Dúvidas surgirão, e eu peço para que você as coloque de lado. Ignore seu consciente. Ele está lhe pregando peças. Toda vez que você imaginar que está morto, quero que pense: “Isso é loucura! Eu estou vivo!”. Mesmo que coisas estranhas aconteçam. Ignore seus sentidos por um instante, feche os olhos, pense: “Isso é loucura! Eu estou vivo!” e abra-os. Verá como os delírios fantasmagóricos desaparecerão. Alguma dúvida?

Lágrimas escorrem. Olhares estupefatos pela sala, para as próprias mãos. Desespero incontido.

– Isso é loucura...

– ... Eu estou vivo! Isso mesmo! Repita esse exercício sempre que tiver dúvidas. Verá como as coisas melhorarão. Experimente.

Olhos cerrados. Lábios murmuram algo ininteligível. Olhos abrem, iluminados por uma revelação.

– Doutor! É verdade! Eu sinto!

– Eu não disse? Muito bem, nosso tempo acabou. Espero você aqui semana que vem, no mesmo horário. E lembre-se sempre: você está vivo.

(...)

Novo ranger de tecido e couro, somado ao de engrenagens com pouca graxa. A cadeira reclina, o psicanalista suspira enquanto esfrega o canto dos olhos com os dedos. Um porta se abre. Um rapaz magricela entra.

– Ele já foi?

– Já. Mas volta semana que vem. Sempre volta. E aí? Pegou tudo?

– As câmeras de S-Video e VHS não pegaram nada. Nem um borrão. Mas a de super-8 pegou uma mancha bem clara.

– E som?

– Apenas a sua voz. O eletreto de alta definição captou algum zumbido, mas nada decifrável. Acho que não conseguimos nada.

– Verdade. Mas temos mais uma semana para nos preparar. Um colega meu dos tempos de universidade montou na época uma máquina Kirlian. Vou conversar com ele, e ver se consigo emprestada. Não se preocupe, enquanto ele voltar aqui eu o convencerei que está vivo. E enquanto pensar assim, vai voltar. E o manteremos assim até conseguirmos uma prova.

– Coitado dele. Nem percebeu que morreu de verdade...

– Na verdade ele percebeu. Só não tinha certeza. Essa foi a nossa sorte. E sem essa de piedade. O garoto vai nos fazer ricos e famosos. Não é hora para freios morais. Isso é ciência, homem, e não caridade. Não me interessa o destino deste ou de qualquer outro fantasma. Precisamos apenas provar que ele existe, e milhares baterão à nossa porta. Posso largar esse consultoriozinho medíocre e finalmente fazer milhões. Quanto as pessoas pagariam para ver um fantasma de verdade? Já pensou nisso?

– É, doutor. A vida é boa, mas explorar a morte é melhor ainda.

segunda-feira, março 21, 2005

Convite - WISH OF DEADS - LedSlay/SP

Pessoal,

os NecroAutores estarão neste sábado, 26/03 no Wish of Deads, que vai rolar na LedSlay, Zona Leste de São Paulo, distribuindo o novíssimo NecroZine #3, que será lançado na ocasião.

A LedSlay fica na av. Celso Garcia, 5765. Para uma melhor localização, clique no link abaixo:

http://www.ledslay.com.br/imagens/mapa.gif


Abaixo seguem informações do evento:

Wish of Deads
-------------
"Com o crescer da relva em torno de meu sepulcro, as gotas de orvalho umedecem os restos de meus pensamentos. Na escuridão de meu sofrer jaz o desejo dos mortos."

Bandas
-------
- ElvenPath (NightWish)
- Artrinsic (After Forever)
- Eternal Darkness
- Dominion (Sisters of Mercy)
- Sezafine (Lacuna Coil)
- Strange Mode (Depeche Mode)

DJ's
----
Fabrício
Huascar
Dark Immortal

Mais:
- Feira Gótica
- Live Action de Vampiro
- Sorteio de Brindes
- Lançamento do NecroZine #3, com presença dos NecroAutores

Data: 26/03/1005
Local: LedSlay
Av. Celso Garcia, 5765 (próx. ao Metrô Carrão)
Entrada: R$10,00
Abertura: 20hs
Informações: (11) 5614-8895
http://www.ledslay.com.br

--

Conto com a presença de todos para prestigiar mais esse evento.

Abraços Sombrios,
Caronte
caronte@necrozine.zzn.com

sexta-feira, março 18, 2005

Na Estrada Outra Vez

© Richard Diegues

“Nunca dê carona a estranhos”, era a frase que a Mãe dizia pro Pai quando era ele quem dirigia o Batuque. Batuque é o nome desse mesmo caminhão onde meu traseiro sacoleja agora. Eu ouvia a frase desde pequeno e acho que é por isso que a Mãe não se deu ao trabalho de repetir para mim até a exaustão. Certamente achava que não seria necessária. Sempre atribuí a frase ao filme “A morte pede carona”, achando que era por isso que a Mãe se preocupava tanto. Certamente uma bobagem. Por isso dei carona pro homem. E além do mais ele não era tão estranho à primeira vista, não até eu começar a reparar nos detalhes. Quando deixei o sujeito no cruzamento lá atrás, sei que não me controlei e deixei escapar um sorriso aliviado. O homem também reparou no meu sorriso, tenho certeza que me via pelo retrovisor. Via sim. E sorria também com os dentes cheios de sangue e carne picotada miudinha, miudinha. Agora enquanto piso fundo e vou acelerando o Batuque, vendo que ficou mesmo parado lá atrás, na beira da estrada, juro a mim mesmo que nunca mais vou deixar de ouvir minha santa mãezinha. Vou ter que pedir perdão pra Mãe. E daqui em diante, não deixo de ouvir o que ela diz. Não mesmo. O importante é que passou. Escapei e estou na estrada outra vez.


“Mas que barulho irritante”, pensei comigo enquanto via o cozinheiro bater na sinetinha e me esforçava pra mastigar o meu sanduíche oleoso.

– Dá pra parar de bater na campainha? A garçonete certamente não é surda, está apenas ocupada – disse o sujeito a meu lado, dirigindo-se ao que ostentava o avental ensebado, com uma voz cadenciada, macia e baixa, porém firme.

Funcionou. A campainha parou de soar e o cozinheiro voltou pro interior da cozinha apenas resmungando algo incompreensível, ao menos do balcão onde nos encontrávamos. O homem olhou pra mim e piscou, como se soubesse que eu também estava irritado com o barulho. Sorri de volta.

– Boa! – comentei balançando a cabeça em sinal afirmativo antes de retornar ao meu esboço de sanduíche.

A garçonete se aproximou, sorriu pro homem e apanhou o prato que o cozinheiro havia deixado no passador. A mão correu ao lado do caixa, apanhou algo e seguiu com o trabalho. Ao cruzar uma vez mais pelo sujeito a meu lado, colocou um bombom, certamente o que pegara no caixa, ao lado do prato dele. Gesto generoso e possível sinal de que se o sujeito realmente quisesse, teria muito mais do que um obrigado mais tarde. Sim, seria um belo obrigado. Vi quando guardou o bombom no bolso displicente.

Mais uma vez o homem me olhou e piscou. Começava a me dar realmente a maldita impressão de que sabia o que eu estava pensando. Dessa vez sorriu antes de mim e balançou a cabeça afirmativamente enquanto proferia um “Boa!” exatamente como eu fizera há pouco. Sorri novamente.


O par de botas surgiu na janela do meu caminhão. Confesso que quase gritei. Não é fácil ver um par de botas surgindo na janela bem perto de sua cabeça. Quando me recompus olhei para fora e vi que o sujeito do balcão segurava as botas acima da cabeça.

– Troco por uma carona adiante – foi o que me disse assim que eu baixei o vidro e me inclinei – sei que é o seu número, fique sossegado. Sei que um sujeito de bom coração como você me levaria sem cobrar nada, mas esse é um presente, são pequenas demais para mim. Não é troca pela carona não. É presente, independente de você me levar ou não.

Olhei para as botas e vi que eram novas, sem sinal algum de uso. Não pareciam ser roubadas. O sujeito havia sido muito esperto. Se eu não lhe desse carona, seria um sujeito de mau coração, fora que ele me dera um presente sem pedir nada em troca, pelo menos supostamente, uma vez que não me dava as botas em troca da carona. Sujeito danado de esperto. A Mãe perdeu dessa vez. Fiz sinal para que desse a volta e entrasse na boléia.

O sujeito não se rogou. Entrou rápido no caminhão, ergueu o banco como se soubesse exatamente o que fazia e guardou as botas junto com o restante das minhas roupas e sapatos. Será que todos os caminhoneiros faziam isso? Possível. Engrenei e saí fumarando pra pista.

– Pra onde vai indo, amigo? – perguntei depois de um tempo iniciando a fiada.

– Pra frente. Sempre para frente. Não se preocupe, desço antes de você se sentir incomodado comigo. Tenho trabalho aí pra frente, não sei bem onde, mas logo vou saber. Não tem com que se preocupar, mas a Mãe estava certa. É perigoso dar carona.

Arrepio é algo estranho, sabe? Tem hora que dá de ser bom e é bom. Tem hora que dá de ser ruim e é pior que isso. Senti até minha coluna estalando de tão arrepiada que ficou. As botas no lugar certo até que podia ser coincidência, mas saber que eu chamava minha mãe de Mãe já foi extrapolar. Deu medo sim, porque não diria? Quase me borrei se é que você me entende. Mau presságio. O sujeito olhava pra fora e eu vasculhei a roupa dele de cima abaixo. Nada visível, digo nada de arma. Daria pra ver. Mas isso não me tranqüilizou. Tive que perguntar. Uma droga de pergunta que não se faz nessas horas, mas é assim mesmo que se vive.

– O que você faz da vida? – forcei um tom casual, só faltando assoviar enquanto falava.

– Eu sou um tomador de vidas.

Frio. Muito frio.

– Algo relacionado a seguros? – perguntei fazendo meus olhos correrem disfarçadamente para o Tonhão, o porrete que carrego perto da porta pra segurança.

– Você sabe que não. E pode deixar o Tonhão no lugar que eu não te quero mal. Quando estava lá no posto, senti o chamado. Só isso. Sei que tenho umas vidas pra tomar – ele fez uma pausa e sorriu largo – e acho que vai ser agora.

Cada vez mais frio. Olhei pela janela e vi a escopeta apontada. Agora era o suor também que escorria pelo meu pescoço. Assaltantes fechando o caminho, sem passagem. Corria e morria. Parava e rezava.

Parei. Ele saltou. Sem se preocupar com as armas apontadas. Desceu falando com a voz monótona, como lá posto. Sorrindo de leve, gingando de leve, até saltar em cima do primeiro, nem um pouco de leve. Vi o sujeito voando pra cima do primeiro assaltante. Grudou na cintura dele e deu uma dentada no peito do sujeito. Dentada forte, arrancando carne e o que mais viesse debaixo da camisa. E mordeu, e de novo e novamente, até abriu um buraco bem do tamanho de uma bola de futebol. Os outros assaltantes demoraram pra entender o que acontecia. Só quando ele pulou em cima do segundo é que começaram a atirar. Eles atirando e eu estirado no assoalho da cabine. Só ergui a cabeça quando não tinha mais barulho de tiro. Só tinha barulho de coisa rasgando. Não me preocupei não. O motor tava ligado. Sentei no banco, engatei logo uma terceira e saí trotando com o velho Batuque pra diante. Acelerava o que dava. Acelerava e rezava.

Deixei a cena pra trás, visível no retrovisor do bruto e no fundo dos olhos. Restou pra mim a lembrança do sujeito, um par de botas sob o banco e minha vida que segue ainda pra da próxima atentar pro que a Mãe dizia.

Ficou também a estrada a frente outra vez e o sujeito danado lá pra trás, mastigando, roendo e tomando a vida de quem queria tomar a minha. Que descansem em paz.

quarta-feira, março 16, 2005

O Jogo da Meia-noite

© Camila Fernandes

Meia-noite. O jogo acontecia quando eles voltavam sóbrios, ansiosos por serem só dois amantes sob um dossel, sem multidão.

Diante da penteadeira ela limpava o rouge, o rímel, a pinta artificial na bochecha esquerda que cobria a pinta real cor de canela. Ele, na cama, esperava sob os lençóis.

Vinha limpa e indecente, meias de liga, espartilho negro, nem parecia uma veste escravocrata do corpo, era a desenvoltura de gata no cio que o desmentia. Tinha na mão a pluma de avestruz que as vedetes usam no chapéu e ciciava:

- Você está do lado errado da cama. Vai sair ou tenho de o forçar?

O lado esquerdo era dela, era onde dormia. Por isso ele estendia ali o corpo nu. Para ser docemente coagido a mudar-se. Dizia não meneando a cabeça, sorriso de sátiro à espreita da ninfa. Primeiro eram os beijos. Depois a pluma, cócegas que o faziam convulsionar mas não fugir, então os tapas nas nádegas e por fim os arranhões, amável rastro das unhas de meretriz e atriz que ela era. Atriz em vários palcos, puta dele só. A noite era longa, corridas pelo apartamento, muita sujeira para a camareira no dia seguinte, absinto francês.

Lola, Lola tão tola, despida, girou com a garrafa até a varanda numa dança de fazer corar avós para atiçar seu homem, e ela foi, passou as cortinas, ele a segui-la com os olhos pela sacada. E a balaustrada tão baixa.

Apartamento grande, herança de pai, alegria de filho notívago que desmaiava a cada madrugada, trazido do teatro para casa por amigos menos ébrios. Que noites, que dramas, comédias, canções. E Lola, que foi para sua cama como um raio e sacudiu seu mundo, mulher, terremoto, furacão que ficou na sua mente desde então menos equilibrada e mais feliz.

A cama com dossel, jacarandá esculpido e envernizado, leito imenso, bom para a orgia. Alcova ampla, portas-balcão levando à sacada onde a juventude admirava um horizonte letárgico ficar mais vermelho toda tarde, calmaria interrompida nunca por arranha-céus, mas ocasionalmente pelo som distante dos bondes dos trabalhadores. Que bom ser jovem, não trabalhar, fingir que estuda e ter varanda. E ter mulher constante, mas sempre inédita.

Foi culpa do absinto. Da balaustrada baixa. Ou de Lola cansada do jogo. O bailado a levou longe demais. Além da sacada, seu corpo beijou os paralelepípedos. A Fada Verde escapou do vidro, lambeu a calçada. Seus olhos ficaram pasmados no último instante. Seu corpo lá embaixo. Dentre os fios pretos do cabelo, um vermelho e grosso que crescia pela rua.

E agora, como fica o quarto sem seus pés descalços no soalho? O corredor é mudo sem sua voz afinada cantando impropérios.

Como fica a vida se o relógio anuncia a meia-noite e ela não vem?

Cômodos vazios.

Ele está na cama, do lado esquerdo, o perfume dela ficou em tudo. No divã, duas putas largadas. Cheias de formas, seios, quadris, não conseguem alegrar a casa que Lola, sozinha, enchia de vida. Elas desmaiam, dormem. Ele, não. Seu corpo mal-saciado arde em vício, compulsão de amor endemoninhado, convulsão de narcóticos comprados de um mau boticário. De que vale ser sóbrio? Vale-lhe mais sonhar asneiras de apaixonado. É meia-noite. Hora de jogo. Lola, tão tola, tão depressa...

Sua voz sai como a de um velho:

- Querida, foi tão cedo.

Rola sobre os lençóis. Mas pára.

- Foi mesmo, amor.

O rosto dela voltado para o seu. Na cama. No lado direito. No espartilho negro. Ela é bela. Ela é profundamente...

- ...pálida. - Ele a toca no rosto e ela é real. – Lola – repete infantil, prendendo o nome na língua embriagada na ilusão de prender também a amante ao seu lado.

- Você está do lado errado da cama. Vai sair ou tenho de o forçar?

Mas a mulher não o beija nem o afaga. Não, ela se levanta, meias pretas de liga, botinas de salto. Não dá valor às perdidas no divã. Quer as cortinas que esvoaçam. A varanda.

- Venha! Venha dançar!

E ele vai. Para além da balaustrada, onde os corpos que voam beijam as pedras da rua.

segunda-feira, março 14, 2005

Sob Nova Direção

“Ó condenados, ai de vós!

“O céu nunca vereis, desesperados:
Por mim à treva eterna, na outra riva,
Sereis ao fogo, ao gelo transportados.

“E tu que estás aqui, ó alma viva,
De entre estes que são mortos, já te ausenta!”

-- Inferno, Canto III – A Divina Comédia – Dante Alighieri


Este sou eu, Caronte, o Barqueiro dos Mortos.

Durante milênios carreguei as almas dos condenados para o Submundo (ou Hades, dependendo da época). Para que suas almas pudessem fazer a travessia pelo rio Estige, era necessário pagar o óbolo, que nada mais era do que uma moeda colocada sob a língua do morto por seus parentes ou amigos. Caso contrário, seu espírito passaria a eternidade em arrependimento às margens lodosas do rio. E eu não aceito cartão de crédito.

Mas, para minha completa surpresa, após milênios agrilhoado à mesma repetitiva tarefa, hoje, fui designado a uma nova missão. A partir deste momento serei, tal qual Hermes, o mensageiro deste lugar morto, em conexão direta com seus criadores, os chamados NecroAutores, numa demonstração de vaidade que com certeza não escapou à vista de Ashtaroth.

Mas não cabe a mim julgá-los em sua soberba. A hora deles chegará, assim como a sua e de todos os que você estima. E inevitavelmente irão me encontrar nesse momento. Mas, por enquanto, meu papel é guiá-los, seres viventes, aos recônditos da mente deturpada desses NecroAutores e de seu infame NecroZine.

Portanto, a partir de agora, quaisquer sugestões, queixas, comentários e contatos deverão ser tratados unicamente comigo. É também minha responsabilidade a manutenção deste espaço, a adaptação da sua aparência, propagandas, agenda de eventos e demais anúncios.

A newsletter do NecroZine também passa a ser redigida por mim. Se você ainda não a recebe, cadastre-se preenchendo o formulário no canto superior direito da página. Fique tranqüilo, não é nenhum contrato infernal. Ainda.

Rendendo-me à modernidade, dou-lhe meu endereço eletrônico:

caronte@necrozine.zzn.com

Caso se esqueça de anotá-lo, não se preocupe. Na barra lateral do blog, logo abaixo do espaço para downloads do NecroZine, há um link direto para meu e-mail. Agradeço à NecroAutora Camila Fernandes pelo belo retrato, apesar de eu discordar um pouco do tamanho de meu nariz, mas, como no Submundo não temos espelho, vou me resignar.

Sem mais, subscrevo-me.

Caronte
caronte@necrozine.zzn.com


quarta-feira, março 09, 2005

O Plágio

© Alexandre Fernandes Heredia

Não havia som nenhum além do zumbido contínuo em seu tímpano, como uma pequena broca de dentista em seu cérebro. Abriu com dificuldade os olhos, apenas para descobrir que estava vendada. Respirava com dificuldade, pois a boca estava também tampada, com o que parecia ser uma fita adesiva. Ao tentar mover o braço percebeu que estavam presos às suas costas, no encosto da cadeira. Seus tornozelos e os da cadeira eram um só, e a fita adesiva repuxava sua pele.

– Bom dia – disse uma voz masculina em tom amigável. Ela tentou responder, mas o som saiu abafado pela fita em sua boca. – Oh, é claro, me desculpe – disse a voz novamente. Sabia o que viria a seguir, por isso prendeu a respiração. A fita saiu com um gesto rápido. A dor foi tão aguda que ela nem conseguiu gritar. Sorveu o ar em golfadas histéricas.

– Quem é você?

– Não sabe? Claro que sabe. Imagino quantas vezes tenha antecipado este momento, corroída pela culpa e arrependimento velado. É claro que você sabe quem eu sou.

– Do que você está falando? Não faço a menor idéia de quem você seja, e nem por que me prendeu aqui!

– Sabe, eu não sou idiota. Não sou muito esperto, mas não idiota. Mas vamos supor que esteja falando a verdade. O que os títulos "Luar Negro" e "Sombras da Ribalta" te dizem?

– Meus livros? O que isso tem a ver com eles?

– Seus livros? SEUS? Sua prepotente de merda, nem confrontando a verdade é capaz de derrubar a máscara? Seus livros? Ainda tem a cara de pau de chamá-los de seus?

– Que você está falando? É claro que são meus! Vá em qualquer livraria e veja o nome na capa! Ai!

– Cala a boca, ou dou mais que um tapa! Sua vagabunda, roubou minhas idéias, meus personagens, minhas tramas, e até mesmo meus finais! Sabe quanto tempo levei para elaborá-los? Meses! Meses de minha vida, que vi desperdiçados após uma mera visita a uma livraria. E os títulos! Nem teve a vergonha na cara de alterá-los um pouco para disfarçar!

– Olha – cuspiu o sangue do lábio cortado – eu não sei do que você está falando. Inventei esses livros da imaginação. Criei-os do zero. Por Deus, você acha que estou te plagiando?

– Sabe a quanto tempo estou nesse ramo? Quinze anos! E sabe quantos livros eu já publiquei? Nada, nenhum! "Muito sombrios", disseram. Não vende. E de repente, o que vejo? As mesmas idéias sombrias, os mesmo livros invendáveis estão na prateleira de lançamentos! Com a plaquinha "mais vendido" lá, zombando da minha cara!

– Senhor, por favor, vamos esclarecer isso de uma maneira civilizada. Se está disposto a me processar por plágio, é perfeitamente compreensível. Não estou assumindo nada, mas posso ter, acidentalmente, copiado alguma coisa de alguém. Mas como vou saber se você não me diz quem é?

– "Sombras da Ribalta". Sabe quanto tempo levei para elaborar este título? Dezesseis meses. Escrevi o livro inteiro nesse meio tempo. Foi minha obra prima. Cada sub trama entrelaçada, cada detalhe levando ao final inesquecível. E para que? Para ver uma puta usurpadora levar os créditos. Me explique como. Como você conseguiu?

– Senhor, por favor...

– COMO? – gritou, esbofeteando-a mais uma vez.

– Eu não sei! Sei lá, um dia a idéia surgiu, clara, e eu escrevi. Foi natural! O título foi a primeira coisa que me apareceu! Pelo amor de Deus, o que eu posso dizer? Eu escrevi o texto, juro! Não copiei de ninguém, simplesmente criei. A inspiração veio, e eu escrevi.

– Sem pesquisa? Sem estudo? Sem elaboração? Assim, de repente, como uma luz divina?

– Foi...

– Então chegamos a um impasse. Ou você roubou meus manuscritos e está mentindo, ou então você é algum tipo de telepata que, por acaso, só lê os meus pensamentos. No que devo acreditar?

– Eu não sei, droga! Não te conheço, não sei do que você está falando! Os textos são meus! Escrevi-os eu mesma! Pelo amor de Deus, me deixa ir embora! Eu pago o que for...

– Com o meu dinheiro, sua vaca? Os meus direitos autorais que você roubou descaradamente? Não, não quero seu dinheiro. Não quero sua fama. Não quero sua vida! Eu quero é meu trabalho, a MINHA vida de volta, entende? Dediquei meu tempo e esforço em minha carreira, e agora você me vem com oferta monetária? Você acha que eu escrevo por isso? Por dinheiro?

– Não, eu...

– Eu conto histórias! Eu quero ser lido! Quero ser reconhecido por isso! Não, sua puta, dinheiro nenhum do mundo vai trazer de volta o que você me roubou. Você tirou de mim minha essência, minha alma! Quanto você acha que vale minha alma?

– Eu não sei...

– É claro que não! Você não sabe nada! Não sabe o trabalho que dá escrever. Simplesmente rouba as idéias, as histórias alheias, e as publica com seu nome em cima. Você OUSA se intitular escritora? Não é mais que uma ladra, uma punguista literária. Deixe seu dinheiro para seus herdeiros!

– Então o que é que você quer, merda?

Ruído de uma bandeja de metal jogada displicentemente sobre uma mesa. Tilintar de ferramentas. O toque gelado de uma faca em sua bochecha esquerda. Uma fungada.

– Sabe o que vou fazer? Vou escrever sobre nosso encontro. Vou contar a todo mundo o que aconteceu aqui. E sabe como pretendo terminar esta história?

Silêncio. Subitamente imagens inundaram sua mente, sem controle. Mais claras que um sonho, menos que a realidade. Viu a si mesma como se estivesse numa projeção astral. Testemunhou silenciosamente cada corte, cada estocada, cada golpe impiedoso, cada soluço e cada grito. O gotejar de seu sangue no chão ribombava como gongos em seu cérebro. Sentiu o desespero, a dor, a angústia da vida se esvaindo a cada segundo de sua tortura interminável.

– Sim... – disse ela, com um sussurro de voz. Lágrimas encharcavam a venda sobre seus olhos.

– Boa menina. Vamos começar...

sábado, março 05, 2005

Saindo do cárcere

por Richard Diegues

Ele olhou para os seus dedos crispados e viu que um grande chumaço de fios de cabelo se enrodilhavam neles, abriu as mãos e se livrou deles no chão mesmo, sentindo asco por tocá-los. Estava tão tenso que não se deu conta que arrancara aqueles fios brancos de sua própria cabeça.
- Vocês não entendem! - Falou com a voz embargada pelo choro. - Eu juro por Deus que não facilitei nada. Vocês viram a cela trancada. Viram as fitas do circuito interno. - Ele colou o rosto na mesa mais uma vez e desiludido levou as mãos algemadas aos poucos fios que restavam em sua calva.
- Você é quem não entende, Zéfiro! - O detetive a sua frente deu com a mão aberta sobre a mesa para intimidá-lo. - Você cuidava das celas. Só você tinha as chaves. Mesmo que outra pessoa tenha aberto a cela para ele sair, você era o homem de guarda. Compreende? A responsabilidade era apenas sua.
O homem continuou com a testa colada a mesa e seu choro tornou-se convulso. Vendo que de nada adiantaria aterrorizá-lo mais, o outro detetive aproximou-se da mesa e segurando o companheiro pelo braço, carregou-o para fora da sala de interrogatório.
- Zéfiro, - falou antes de sair da sala - nós vamos dar uma outra olhada na cela. Enquanto isso pense um pouco mais sobre o assunto. Tente se lembrar de algo que nos ajude e conseqüentemente, que ajude você também.
A porta foi fechada e o velho homem ergueu a cabeça para ver se realmente estava sozinho. Olhou por um instante para a câmera de vídeo no canto da sala e girando a cabeça, viu sua imagem de perfil refletida no grande espelho da parede. Ele virou-se e tornou a meter a cabeça entre os braços.
- Como eu vou explicar isso? - Sussurrou em um tom praticamente inaudível.
- Diga que eu saí pelas grades, ou que durante um minuto você foi ao banheiro e alguém deve ter aberto a cela.
Ele teve vontade de gritar, mas se controlou. Sabia que apenas ele próprio poderia ouvir a voz de Jonathan.
- É claro! Pelas grades... - ele continuou cochichando, pensando lentamente antes de absorver a bobagem da frase - ... não seja idiota! Você tinha mais de cem quilos e o espaço não era suficiente grande nem para uma criança. - Ele havia elevado o tom de voz por um momento, mas logo se controlou. - E eu não posso dizer que você saiu pela porta da cela. Esqueceu que tudo que se passa no corredor externo é filmado? Para sair você teria que passar pelo corredor externo, seu estúpido.
Jonathan não respondeu e o velho aproveitou o instante de silêncio para pensar. Mentalmente percorreu a cela imaginando todas as possibilidades, por mais estranho que pudessem parecer. Pensou no "boi", o buraco que serve de latrina, mas descartou imediatamente a idéia; o espaço era menor ainda do que o das grades. Pensou também na possibilidade de um possível buraco ter sido tampado, mas era impraticável que isso fosse feito em tão pouco tempo.
- Que bela enrascada, hein? Realmente foi uma bela enrascada. Você sabia que isso poderia acontecer? Sabia que não iria ficar nenhum vestígio? Nenhum corpo?
- Não, Zéfiro, eu realmente não fazia idéia. Você sabe que se eu tivesse alguma idéia sobre isso, teria pensado em outra maneira. Daria um jeito de fazer a passagem durante um banho de sol, ou em uma visita. Me desculpe, mas eu não sabia.
Ele sentiu que tornara a puxar os cabelos e dessa vez largou os fios antes que arrancasse um novo tufo.
- Bem, o que foi feito, feito está. - Ele voltou a sentar-se ereto na cadeira, passou a mão nos poucos fios que lhe restavam arrumando-os um pouco e secou as lágrimas na manga da camisa. - Você tem certeza que pode realizar o truque novamente? – Falou, visivelmente mais calmo e com a voz firme, pouco se importando com o tom dela.
- Sim, eu tenho.
- Então está resolvido.
Ele ergueu-se e deu duas pancadas com os nós dos dedos no espelho a suas costas, local de onde tinha certeza que estava sendo observado. Aguardou por um minuto até que os detetives voltassem e pacientemente contou uma versão convincente sobre como havia aberto a cela, passado com Jonathan pela porta da frente sem que ninguém os visse, depois contou como retornou e trocou as fitas do circuito interno. Jurou que sentira pena do homem. Não queria vê-lo morrer com a injeção. Era contra a pena de morte. Os detetives loucos por uma história que fosse plausível, engoliram cada pedacinho dela e Zéfiro a repetiu para o escrivão que tomou seu depoimento, depois para o juiz que o condenou e por fim para Elias.
Entretanto, para Elias ele contou as duas versões. Contou que já fora carcereiro um dia, assim como ele era. Disse que também cuidara de um corredor parecido com o que Elias guardava. Contou a história de como Jonathan o procurou com a conversa sobre o livro de magia negra que andava estudando. Como ele lhe prometeu que a partir do momento em que entrasse em seu corpo ele não iria mais envelhecer. Deu detalhes do processo e mostrou fotos suas do dia em que fora preso; parecia até mesmo mais jovem hoje do que era na data da prisão. Contou que a única parte que não funcionara em toda a história, foi o corpo de Jonathan ter se desmanchado como pó quando a alma o deixou, coisa com a qual não contavam. Contou até mesmo uma pequena mentira, sobre o fato de que se ele e Jonathan saíssem daquele corpo e entrassem no de Elias, além de não envelhecer, ele poderia ganhar alguma forma de força incrível. É claro que não acreditava nisso, tudo o que ele queria era um corpo para sair daquele lugar.
Na verdade, o que importava para Zéfiro e Jonathan, era que Elias acreditasse.
E ele acreditou.

Fim.
Richard Diegues publica seus textos por aqui, no Círculo de Crônicas (www.circulodecronicas.com) e em diversos sites pela Internet.

sexta-feira, março 04, 2005

SEGREDOS


Giorgio Onorato Cappelli

Aldeões alvoroçados tinham se reunido em massa defronte a um palco montado ao ar livre. Iriam assistir a "uma atração inesquecível". Assim que o apresentador puxou a cortina, ouviu-se nitidamente a platéia suspender a respiração para o espetáculo: um homem nu da cintura para cima, com uma cabeça grande demais em relação ao corpo; tinha um olho fechado e outro coberto por uma repulsiva camada de gordura; estranhas protuberâncias habitavam seu nariz; a boca não passava de uma fenda vertical com dentes tortíssimos; um dos ombros ficava dois palmos mais alto que o outro.
Trazendo pelo pulso o homem deformado, o apresentador começou:
- Sintam esse aroma! Se Deus nos fez usando barro, pelo cheiro dele vocês podem imaginar o que o Criador usou aqui!
A multidão caiu na risada, menos o jovem Eric. "Por que as pessoas se divertem tanto com a infelicidade alheia?", pensava, enquanto o maldoso apresentador empurrava com o pé uma caixa aberta e cheia de frutas, verduras e ovos, todos podres.
- Vamos! Ajudem esse pobre diabo a cheirar melhor! - convidava o dono do espetáculo.
Pessoas arremessavam coisas estragadas sobre o deformado, que fugia, patético, de um lado a outro. Seu sofrimento era acolhido com gargalhadas. Sem ter como se defender do lixo que lhe atiravam, o pobre coitado jogou-se no chão e ficou encolhido, recebendo sobre si a chuva de porcarias. Em outro canto do palco, todo satisfeito, o apresentador apenas assistia.
Somente Eric se escandalizava com o absurdo da cena:
- Não! Não! Vocês não têm vergonha?
- Cala a boca! Se não tá gostando, por que veio?
- Vejam! - gritava um barbudo de dentes a menos, com um tomate tão grande que enchia sua mão - Vou acertar isso dentro da boca do monstro!
Mirou. Uma flecha atravessou-lhe a mão. A dor o fez urrar e ajoelhar-se, segurando o pulso com o tomate preso à seta. E uma voz grave de mulher proferiu um comando:
- Parem! Agora!
Três pessoas chegavam a cavalo. Ao centro, uma dama trajando roupas da nobreza feudal. Acompanhavam-na cavaleiros em cotas de malha, um deles empunhando um arco. Os populares olhavam-na com receio.
"Meu Deus!", sorriu Eric. "A cada dia ela fica mais linda!"
Novamente, a mulher berrou:
- Quem é o responsável por isso?
- Sou eu! - retrucou o dono do circo, fingindo humildade - Posso ajudá-la, madame?
- Sim. O homem que você está humilhando agora está sob minha proteção.
- N-não entendi! - gaguejou o apresentador, coçando uma ponta do bigode.
- Sou a viúva Heuvel, senhora deste feudo. Desde que meu esposo faleceu, passei a administrar as terras e tratar a todos com respeito e justiça. Não é o que está acontecendo aqui. Por isso, vou levar aquele homem comigo!
- Espere aí! A senhora não pode fazer isso! - protestou o apresentador, indignado.
Já tendo descido do cavalo, a viúva encarou o dono do circo com um sorriso irônico.
- Se o senhor se sente injustiçado, podemos deixar a questão a cargo de um inquisidor que conheço. Prefere assim?
Silêncio. O apresentador acovardou-se e baixou a cabeça. Agora, somente Eric sorria.
Um olhar de ternura, e a viúva Heuvel estendeu a mão ao deformado. Hesitante, ele ergueu a cabeça, olhou para a senhora feudal e recebeu-lhe a mão derramando uma lágrima. Agradeceu numa voz rouca que combinava com seu rosto assustador.
Heuvel cobriu o pobre coitado com seu manto negro e virou-se para o dono do circo:
- Espero que já tenha cobrado ingressos para sua apresentação. Suma e não volte mais.
Sete da noite, e as estrelas já se mostravam no escuro do céu. Somente os cascos de cavalos e o ranger de rodas de madeira rompiam o silêncio. Diante de um mosteiro, uma carroça parou. Portas enormes se abriram para que o veículo cruzasse a entrada.
Eric havia seguido Heuvel a tarde toda. Viu-a sair desacompanhada do castelo conduzindo a carroça e aproveitou para se ocultar na parte de baixo. Quando estacionaram dentro do mosteiro, o rapaz esperou os sapatos da mulher tocarem o chão. Seus olhos seguiram a viúva enquanto ela se afastava rapidamente.
Antes que Eric ameaçasse segui-la, passos ecoaram por perto. Sandálias de monges arrastavam-se ao redor da carroça. Isso fez o rapaz perder a viúva de vista. Bastou achar-se sozinho, Eric deixou o esconderijo. Não conseguia tirar da cabeça o ocorrido naquela tarde. Heuvel tratara o deformado com tanta ternura que o garoto se encheu de coragem para, enfim, declarar seu amor à bela viúva.
Com a ajuda das sombras da noite sem lua, Eric buscava a dama. Os pensamentos rodopiavam em sua mente.
Foi quando seus olhos encontraram o que jamais deveriam encontrar.
Iluminada pela luz de uma vela, sua amada Heuvel, nua, sentava-se de perfil para uma janela aberta; a cabeça para trás, os longos cabelos ruivos caídos, esfregava-se sobre o corpo despido do horrendo homem deformado!
Os gemidos da viúva perdiam-se em meio aos rosnados de prazer de seu parceiro, deitado numa cama, as mãos cheias de verrugas segurando a cintura da mulher. O grotesco da cena fez Eric esquecer-se onde se encontrava. Prestes a atingir o orgasmo, a senhora feudal pressentiu algo, virou o rosto e encontrou o rapaz, paralisado, diante da janela.
Heuvel assustou-se, mas logo seus olhos queimaram de reprovação para o rapaz. Urrou uma ordem furiosa para que o apanhassem.
No mais puro desespero, Eric corria com lágrimas embaçando-lhe a visão, quando várias figuras saídas da penumbra barraram sua passagem. As vestes de monges não conseguiam disfarçar seus corpos distorcidos. Eric se descobriu cercado por uma dezena de aberrações. De nada valeram seus gritos de horror. Em breve, o camponês estava ajoelhado e imobilizado, frente a frente com a viúva.
Sem nenhuma emoção, a dama se dirigiu ao rapaz:
- Agora você conhece meu segredo. Trago para cá esses homens e cuido deles... do jeito que eu mais gosto. Meu marido nunca entendeu isso... infelizmente para ele. É, sua mãe vai sentir falta de dois braços na lavoura.
- Senhora Heuvel... eu...eu a amo!
Ela olhou ao redor. Os deformados admiravam-na com sorrisos aparvalhados de desejo.
- Rapazinho, como pode muito bem observar, tenho outras preferências. Você me parece um bom garoto. Pena eu não poder retribuir seus sentimentos.
- Não... pena maior sinto eu. Pensei que a senhora tivesse um amor puro e desinteressado por esses infelizes... Não essa coisa carnal, profana...
- Desapareçam com ele! - insistia a senhora feudal.
- Achei que a senhora fosse entender o meu amor... ou melhor... O nosso amor!
Num movimento brusco, Eric libertou-se das mãos que o prendiam e descobriu-se. Foi a vez das aberrações ficarem horrorizadas, ao contemplar a cabeça de um feto saindo pelas costelas do rapaz, e duas mãozinhas com dedos que se mexiam como para apanhar algo.
- O nosso amor... por você! - repetiu Eric.

quarta-feira, março 02, 2005

7º PNT-SP - Fotos e Arquivos

Pessoal,

no dia 20/02/2005 Gian Celli, um dos NecroAutores, ministrou uma palestra interessantíssima sobre o mito dos vampiros nas diversas culturas.


Num clima descontraído, Gian Celli expôs para uma platéia interessada.

O evento foi um sucesso absoluto, com cerca de 80 pessoas lotando o Parque Trianon, na Av. Paulista, para ouvir esta e outras palestras interessantes. A repercussão foi tanta que até mesmo uma matéria a respeito saiu na Folha de São Paulo.


O povo interessado em vampirismo e paganismo compareceu em massa.

Para quem estiver interessado em ler o material utilizado na palestra, é só clicar no link abaixo e baixar o arquivo em PDF. Para lê-lo é necessário ter instalado o Adobe Reader. Caso você ainda não o tenha, clique na imagem abaixo dos zines na barra ao lado e baixe o instalador.

O Mito do Vampiro - Gian Celli

E que venham os próximos!

Um abraço,
Os NecroAutores

PROTOTYPE II - Mais Fotos

Pessoal,

abaixo estão mais fotos do evento do último sábado (26/02), desta vez tiradas pelo Adriano Siqueira, do Adorável Noite.


Os fanzines espalhados e iluminados


É o que dá dois cabeludos juntos...


Giorgio e Camila, com sua carinha de festa.


Gian e Carolina.


Tati, rindo meio sem jeito.


Verena, pega de surpresa, e Camila, olhar inquisidor.


Tati, orgulhosa do trabalho do maridão.


Alexandre, orgulhoso e ciumento pela esposinha.


David, consorte de Camila, que estava pedindo algo estranho para alguém...

Um grande abraço a todos,
Os NecroAutores