domingo, fevereiro 13, 2005

Mais óbvio impossível

A gaveta metálica mal começava a deslizar, a etiqueta presa ao dedo do pé do cadáver, e Gino reconheceu Luna pela tatuagem no tornozelo esquerdo. Lágrimas transbordaram dos olhos do rapaz. Perto dele, um senhor gordo e de bigodes grisalhos dirigiu a palavra ao funcionário do necrotério:

- É ela, sim... É a esposa do meu filho.

De olhos fechados, deitada sobre o metal da gaveta, o rosto sugeria que ela experimentara grande angústia e agonia antes da morte. Cabelos negros e longos, a pele muito alva recebera talhos horríveis na garganta e em outras partes do corpo, justamente aquelas pelas quais corriam as principais artérias. Gino sabia muito bem que tipo de canalha faria semelhante atrocidade.

Num tom de voz mal-humorado, o funcionário respondeu ao grisalho que teriam de preencher documentos para a remoção do corpo. A tal insensibilidade, o moço quis reagir com fúria; o pai abraçou-o de lado, para conter-lhe o impulso, e respondeu que cuidariam disso.

- Vamos, Gino... Não podemos fazer nada, só avisar os pais da Luna e providenciar o enterro da menina.
- Eu vou pegar quem fez isso! - respondeu, apenas para o pai ouvir.
- Sim, eu sei que vai. Podemos encontrar o assassino muito antes que a polícia. Mas antes, eu preciso falar com um certo sujeito.

Naquela mesma noite horas mais tarde, dois pares de carros estacionavam quase frente a frente em uma estrada deserta, cheia de pedregulhos. A poeira levantada não tinha assentado e do primeiro par de automóveis saíram Gino, seu pai e quatro seguranças com o porte e a loquacidade de guarda-roupas; dos dois outros veículos, quatro rapazes esbeltos de traços orientais. Logo em seguida, um homem de idade indizível, tipo inegavelmente latino, com rabo-de-cavalo, claramente o líder do grupo. Aproximou-se do pai de Gino. Ambos cumprimentaram-se com formalidade e educação.

- Achei que ia atrasar, mas chegamos praticamente juntos. - afirmou o de rabo-de-cavalo - O que aconteceu, Benito?
- Salvatore, você se lembra do pacto que a tua família e a minha fizeram: separaram a cidade em territórios, os teus não atacam os meus, os meus não atacam os teus. Há um bom tempo isso vem sendo respeitado. Mas alguém quebrou esse acordo e matou a esposa do meu filho.
- Que coisa horrível! - espantou-se Salvatore. Havia sinceridade em sua voz.
- Meu Gino acha que foi um dos teus, mas eu não acredito. Nós sabemos que qualquer quebra é punida com morte. E meu filho quer justiça.
- Tudo o que posso dizer, Benito, é que, se foi alguém da minha família, não serei eu a me colocar na frente do seu filho. Mesmo isso me incomodando. Eu poderia até ajudar a encontrar os assassinos da menina - sugeriu Salvatore - , se não soubesse que vocês farão isso com muito mais eficiência do que nós.
- Essa eficiência é um dos motivos pelos quais existe o pacto. – lembrou Gino.

Vinte e sete horas haviam se passado desde o diálogo entre os dois chefes de família. A lua brilhava. No topo de um edifício seis rapazes passeavam os olhos pelos arranha-céus da cidade. Riam muito. Riam de qualquer coisa. Um deles, que parecia impor respeito aos demais, interrompeu a algazarra. Lembrou que deveriam reencontrar-se na noite seguinte, de acordo com o combinado. Despediu-se, afastou-se e, com um salto, caiu em pé sobre o topo do prédio próximo. Uma breve olhada para trás e confirmou que os amigos já haviam se dispersado. Bons garotos. Continuou seu caminho.

Quando deu por si, sentiu que agarravam-lhe pelos cabelos e puxavam-lhe a cabeça para trás; o estômago levava chutes velozes e repetidos, com tal força que seus pés abandonavam o chão. Ensaiou erguer a cabeça: a palma enorme de uma mão musculosa acertou-lhe na testa com um impacto que o arremessou de costas ao solo. Um humano teria morrido. Mesmo enxergando tudo embaçado, conseguiu contar cinco peludos enormes em seu campo de visão.

Um dos monstros rugiu algo que quase parecia uma voz. Quatro deles, muito ágeis, abandonaram a cena. Agora, a vítima presenciava um único inimigo caminhando nas patas dianteiras e parando a pouca distância. Coisa curiosa, nunca soubera que lobisomens carregavam mochilas no ombro.

- O que você quer comigo, seu m...

Não terminara a frase quando sentiu os olhos encharcados por uma rápida borrifada. A dor dizia-lhe tudo: água benta. Uma bordoada na cara chegou com tamanha violência que lhe partiu a espinha. O corpo desabou sem que pudesse reagir.

Embora cego, percebeu que o lobisomem mudava. Imaginou-o diminuindo e os pêlos recolhendo-se debaixo da pele, até surgir um homem nu com uma mochila.

Um homem chamado Gino.

- Vampiro de merda! - gritou o rapaz -Achou que ia matar minha esposa e ficar por isso mesmo?
- Ah... esse é o motivo da sua raivinha... - retrucou o outro, irônico - Nunca ouviu falar em turismo de sangue? É mais ou menos parecido com o turismo sexual, só que...
- E você? Nunca ouviu falar do pacto entre vampiros e lobisomens?
- Não de onde eu vim.
- Pois eu te conto. Mesmo na forma humana, nosso olfato é muito desenvolvido. Foi fácil seguir seu cheiro. Vocês vampiros podem ser imortais, mas nós lobisomens temos uma vantagem...
- E qual seria, lobinho? - provocou o assassino, mesmo cego e imobilizado.
- Vocês precisam dormir de dia. E ficam muito, muito indefesos. Esse argumento simples - que lobisomens podem encontrar o esconderijo dos vampiros pelo olfato e eliminá-los com facilidade - convenceu os vampiros a selar a paz com os lobisomens.

Gino afastou-se, abriu a mochila, pegou as roupas e começou a se vestir.

- Óbvio, não? - prosseguiu o lobisomem - Não sei como não pensaram nisso antes... Muitas mortes teriam sido evitadas. Até a de Luna.

Isso, vá falando, lobinho! Meu corpo vai se recobrar daqui a pouco e quero ver se na forma humana você é páreo para mim. Só preciso ganhar tempo.

- Meus amigos foram atrás dos seus, vampiro. Vão esperar até eles se recolherem para enfiar uma estaca no coração de cada um.
-Vai me deixar viver para que eu avise outros sobre esse pacto?
- Melhor. Vou lhe dar um presente inesquecível.

Pouco a pouco, o vampiro voltava a enxergar. As imagens embaçadas ganhavam forma. Gino havia se afastado, apenas para que o inimigo pudesse contemplar, intrometidas por entre os arranha-céus da metrópole, as adiantadas primeiras luzes da alvorada.